CONHECER DEUS (2); A BUSCA DE DEUS É A BUSCA DA ESSÊNCIA

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  • Font : abna
Brief

O conhecimento e a religião têm origens modestas similares. Não se sabe ao certo se o caminho do homem à espiritualidade foi mais árduo do que seu caminho à ciência e à moralidade.

O homem nasce com um número de suposições axiomáticas. São instintivas. Não surgiram por uma instrução externa, mesmo que esta possa ter sido incrementada mais tarde. Isto é verdade tanto para pessoas instruídas como para as não instruídas. Por exemplo, o axioma, “a totalidade é maior que a parte”, não requer uma instrução particular para esclarecê-la. A erudição, a ciência e a filosofia são resultados secundários da aplicação deste e de outros axiomas similares. Quando o homem esquece suas pré-cognições axiomáticas, começa a duvidar das verdades básicas. Algumas escolas filosóficas negam o sentido inato da fé. A fé em Deus é um dos sentidos inatos no homem. Isto é compreensível se uma pessoa esvazia a mente de todos os preconceitos religiosos e antirreligiosos e logo abre os olhos para contemplar o universo da criação.

          Ele se encontra de repente contido dentro de uma esfera de seres em movimento. Começou de bom ou mal grado desde um ponto que não escolheu, e se move de bem ou mal grado para o destino que tampouco escolheu. Sem sua própria permissão ou compreensão, forma uma parte da ordem universal de uma procissão de entidades. A observação o leva a deduzir da multiplicidade uma conexão entre a ordem do universo e ele mesmo. Sente que atrás do mundo da existência, reina ali um poder invisível que controla o curso do curso de todas as entidades de acordo com uma vontade, com ordem e precisão. Ele mesmo, uma partícula infinitésima na vasta multiplicidade, possui conhecimento, poder e vontade. Daí, então,   deduz que um conhecimento, um poder e uma vontade – ainda que de uma dimensão diferente e invisível em sua totalidade – faz, preserva, rompe e finalmente muda cada ser vivente sem permissão ou acordo.

          O fato de que este seja um axioma inato da mente, se confirma através da observação do homem que nada se cria sem um criador, nada se faz sem alguém que faça. Até mesmo um recém nascido, fresco da matriz, que nunca antes ouviu um som ou viu um movimento, instintivamente se volta para a fonte do som ou do movimento. Da mesma forma, o viver diário e a ciência experimental supõem que existe uma causa para cada efeito observado.

          O princípio de causalidade não admite nenhuma exceção. Todas as ciências – Geologia, Física, Química, Genética, Economia e as demais – observam fenômenos a fim de determinar suas causas, fatores operativos, interrelações e interações. Da mesma forma que a Matemática, a mais exata de todas as ciências, formula teoremas, alega sua prova e tira as consequências sob a forma de equações, interrelações, regras, diferenciais e integrais.  Um pesquisador que arbitrariamente muda o sinal  mais por menos numa equação, introduz um número intruso, confirma sua incompetência e ignorância. Na realidade, todo o progresso humano se deveu à pesquisa de causas ocultas, de efeitos observados e à adaptação dessas leis naturais para  uso do homem.

          Se pudéssemos encontrar uma instância na natureza de criação espontânea, teríamos então o direito de estabelecer uma hipótese sobre a possibilidade de um fenômeno similar em outros campos. Entretanto a lei sustenta e a ciência experimental comprova que “nunca se destrói a matéria ou energia; nenhuma matéria ou energia nova emerge”. Damos-nos conta de que na realidade nenhum registro autônomo contrário às leis da natureza é possível para qualquer material ou elemento natural. Todos os nossos experimentos, nossas percepções e inferências fortalecem a conclusão de que não existe efeito sem causa. Portanto é evidente que qualquer um que pensa de outra maneira, confunde leis científicas, princípios primários, deduções feitas pela  razão e ordens do Criador.

          A faculdade humana a respeito da  certeza inata sobre alguns axiomas é correspondente ao instinto no animal. O instinto, despojado das limitações de sua origem, pode penetrar as barreiras do sentido e investigar o infinitésimo e o infinito, o desconhecido e o invisível. Esta consciência dos axiomas é semelhante ao sentido de ordem da natureza e oposta às divergências humanas, sempre e quando permaneça livre das afetações frívolas expostas por ‘filósofos’ ou ‘pesquisadores’ presunçosos. A aceitação dos axiomas deve guiar a razão e descartar cada consideração material, deve aderir-se à verdade, ao absoluto e ao real.

          Esse discernimento inato não é a prerrogativa de qualquer raça ou cultura. Não conhece fronteiras. Não reconhece um Leste ou Oeste. Existem certas leis em cada ser humano que não estão implantadas por sistemas ou crenças ou educação ou ambiente social, são inatas. Uma delas é o amor de mãe ao filho.

          Porém os fatores culturais e ambientais encontram-se entre as influências tradias que distorcem a consciência inata das verdades axiomáticas, algumas vezes minando-as, outras vezes, sustentando-as. As pessoas que permanecem firmes na forma em que foram criados, fiéis a si mesmas, livres de costumes locais ou convenções burguesas, conservam seu conhecimento inato não colorido por motes populares ou por modas; podem ouvir a voz interior mais claramente e assim distinguir o bom do mal nas ações, o verdadeiro do falso nas crenças. Assim o ateísmo que distorce a verdadeira natureza humana é menos visto em tais personalidades integradas. Se se diz a tal pessoa: “O Universo é uma aglomeração meramente casual, uma conjunção acidental”, inclusive justificar a afirmação com eloqüência, com argumentos aparentemente lógicos, com filosofia; nada disso vai mobilizar a esta pessoa. A voz interior com suas certezas instintivas, inatas,  os impelem para rejeitar  todas estas opiniões. O “daimon” que conduziu Sócrates era o nome pelo qual chamou o que o Islã chama fitrah, esse sentido inato com o qual o homem nasce.

          Mas a chamada “ciência” tece uma teia de aranha de tais conceitos humanos que prendem seus cativos na dúvida e no ascetismo.

          Os delírios arrogantes do conhecimento limitado põem filmes de cristal de várias cores diante da lente do olho da razão e da certeza interior. Aqueles que fazem alarde desse tipo de aprendizagem humana pintam o universo das cores de suas próprias lentes de “ciência”, “conhecimento”, “arte” e “habilidade”. Logo, examinam seu retrato com a sua realidade. Não podem distinguir as lentes da razão dos cristais coloridos de saudosa fantasia.

          Com isso, não se tenta dizer que uma pessoa ao aperfeiçoar sua inteligência possa manter-se tão firme que é imune a todas as influências desviadoras. Mas  tenta-se dizer  que um homem não deveria estar escravizado pelo conhecimento humano limitado e por delírios da destreza tecnológica. Deveria, sim,  considerar cada nova peça de aprendizagem e de ciência como um degrau na escada ascendente do esforço humano. Ao apoiar seu pé com firmeza em cada degrau, eleva-se a aspectos mais exaltados e libera-se da imobilidade estática, do aprisionamento dentro das quatro paredes da fraseologia e da opinião atual.

          Em Persa utilizamos a palavra árabe firtah para denominar este círculo interior ou guia, inato em cada indivíduo. O argumento de Bertrand Russel, que sustenta que o temor é a sementeira da religião, nega o fato de que a fitrh socorre o homem do perigo. Aliás, Bertrand Russel põe o carro diante do cavalo. Não é o temor que gera a religião; é a religião que socorre o temor. Quando uma pessoa está sob pressão por problemas ou dificuldades; quando todos os fatores materiais falham; quando cada possibilidade na vida foi esgotada quando o mar de preocupações é tão avassalador que se afronta à morte, a voz interior do fitrah conduz o sofredor a um refúgio não material. Ao apegar-se ao Único cujo poder supremo está  acima de todos os poderes, a pessoa deprimida encontra esse Ser benéfico capaz de fazer muito mais do que pedimos ou pensamos. Ao tomar a mão humana, Ele salva do perigo mortal. A experiência estimula a pessoa a voltar-se com todo seu ser, com coração e alma a esta mesma Providência em cada tempo de necessidade ou de ação de graça.

          Sim, efetivamente, é o estado consciente dos riscos de estar sozinho no mundo o que acende a luz interior de uma pessoa e desperta a consciência, conduzindo-a para a fé no Senhor.

          A luz interior irradia uma espécie de poder e força na célula ermitã no coração humano. Inclusive os materialistas indiferentes, em seus dias de glória, proeminência e dominação, e cegos ao ilimitado poder de Deus; e uma vez diante das dificuldades, da derrota e do desastre, voltaram-se imediatamente à Deidade que negaram enquanto habitavam as tendas da maldade e se desviavam do caminho correto. Em sua inquietude, com o coração e a alma, buscam a origem de todo o ser, a fonte de todo o poder.

          Assim, o ateísmo e o politeísmo, em todas as suas formas, desde a idolatria crua e o animismo descarnado até o progresso materialista, todos resultam da negligência da fitrah. Nas áreas que se necessita a luz do guia divino, o murmúrio da direção é requerido afim de dar força e esclarecimento à fitrah e à razão para preservá-las do erro e resgatá-las do estancamento nos fantasmas do temor. O chamado dos profetas acompanha esta inquietude interior que é a falta da fitrah por Deus.

          As primeiras pessoas que escutaram o chamado dos profetas foram pessoas com um coração iluminado e uma fitrah viva. Em oposição aos profetas havia pessoas embriagadas por sua própria vaidade, por seu conhecimento arrogante e vangloriosa inteligência, sustentados  em sua própria riqueza ou posição. Como disse um estudioso “Também na ética existe a lei da oferta e da procura”. Se a oferta da religião não fôra uma parte integral do ser mais íntimo dos humanos, a oferta efetuada pelos profetas não seria solicitada. Observamos que a oferta dos profetas não fica sem participação das pessoas. Na realidade desfruta do uso de inúmeros adeptos. Isto demonstra que o desejo de fé provém da essência da humanidade. E mais: sob os ensinamentos dos profetas, se inclui o culto ao Único.

          A idolatria; o culto ao sol, à lua, às estrelas ou a outras imagens, mesmo que de forma primitiva, cruas e rudimentares, as aspirações  do homem são, também, evidência, mesmo em sua forma distorcida, da necessidade do coração por deidade; por algo a ser adorado.

Estas novas etapas eram como as novas etapas da ciência quando se utilizava de hipóteses mágicas e de frutos não provados da imaginação; aliás,  ascendem para o Único que é Essência de Ser, a Origem de Toda Criatura. Eram miragens permitidas por Deus para levar o coração para as correntes serenas da Graça refrescante do Único. Não importa quão errôneo, apelavam ao ser mais íntimo do homem, onde habitava a inquietude inata que somente encontra descanso no monoteísmo puro.

          No século passado – o século XIV da era muçulmana, que finalizou no ano 1979 DC – a experiência religiosa foi tema de escrutínio para os eruditos. Foram feitos descobrimentos que, por sua importância, ainda são pontos subjetivos e debatíveis para a pesquisa e a discussão, para considerar e selecionar. Mesmo assim dão resultados proveitosos que está ao  nosso alcance. Os estudos feitos sobre religião comparada, história da religião assistidos pela Sociologia, Arqueologia, Paleontologia, Antropologia, Psicologia e outros, colocam o instinto e sentimento religioso em um novo crisol, onde diferentes componentes se separam assim que seus elementos forem analisados.

          Freud foi o pioneiro na exploração da consciência e subconsciência humanas e de outros elementos de desempenho mental e emocional.

          O seguiram Adler e Jung. Eles penetraram nas profundezas íntimas da estrutura mental e emocional humana. Pesquisaram um mundo totalmente novo em que encontraram capacidades, tipos de percepção, discernimento, cognição, motivação, fantasia oculta (algumas como consequência da herança folclórica), escolha e tomada de decisões. Tudo isso parecia primário, inato e límbico. Entre tais faculdades não desenvolvidas secundariamente pela razão, situaram o sentido religioso. O consideraram como um domínio para, posteriormente,  continuar com a pesquisa científica, buscando a chave do enigma.

          Estes novos avanços científicos convenceram os sábios de cada escola, que o sentido religioso provém da essência da humanidade; inato, primitivo, básico. Sem ele, o ser humano não é humano; não se relaciona com nenhum outro elemento. Faz parte  da essência da convicção natural e do discernimento intelectual. Sua fonte jaz nas profundezas do espírito. Faz com que a pessoa tenha consciência dela mesma. O informa de sua própria existência.

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