Que poder têm empresários na política da América Latina?

Que poder têm empresários na política da América Latina?

O lobby, o clientelismo, a alternância na saída e entrada de políticos no setor privado ou vice-versa; essas são algumas das práticas mais habituais constatadas em um estudo que analisa a sobrerrepresentação das elites econômicas no poder legislativo na América Latina.

No México o empresário local da Coca-Cola, Vicente Foz, ocupou a presidência de 2000 a 2006; no Chile foi reeleito o homem de negócios Sebastián Piñera, que já ocupou esse cargo entre 2010 e 2014; em 2013 o Paraguai elegeu um empresário da indústria do tabaco, Horácio Cartes, que neste ano será sucedido pelo empresário Mario Abdo Benítez, proprietário de uma construtora de obras públicas.

A lista de homens no poder nomeados por Serna continua: em 2015 a Argentina elegeu o dirigente esportivo e empresário Mauricio Macri; no ano seguinte os peruanos elegeram Pedro Pablo Kuczynski, um empresário obrigado a se demitir do cargo em 23 de março de 2018 depois de um escândalo de corrupção, que foi substituído por Martín Alberto Vizcarra, também empresário. O mesmo ocorreu há quatro anos no Panamá, onde o empresário Juan Carlos Varela sucedeu ao empresário Ricardo Martinelli.

Para o especialista, neste sentido, quando a política responde mais a grupos específicos de poder e menos ao conjunto de interesses dos cidadãos, se trata de "um processo de 'captura' do Estado".

Os sociólogos do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais e Oxfam estudaram como se apresenta a desigualdade nas altas esferas do poder em oito países "representativos da diversidade latino-americana": a Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Salvador, México, Peru e Uruguai.

Além disso, o estudo analisou como são distribuídos os empresários entre os partidos. "Isso teve uma certa complexidade porque na América Latina se passa algo muito curioso: os de esquerda se identificam como sendo de esquerda, mas os de direita dizem que são 'do centro'. Para corrigir essa autoavaliação dos políticos os cientistas usaram a pergunta: 'Como os catalogam os outros?''

Os resultados revelaram que 30% dos empresários integram partidos de direita, 20% estão em setores de esquerda e 13% são do centro.

Os sociólogos também puderam constatar "a percepção extremadamente frágil do funcionamento da democracia" na América Latina. A média dos especialistas consultados com os quais foi realizado o estudo "creem que os políticos respondem mais às elites constituídas que aos cidadãos […] Preocupa como está funcionando a democracia e determinados grupos de poder na região".

Serna sublinhou que embora isso seja "a média", há algumas "regiões diferenciadas". Por exemplo, no México e no Brasil os especialistas têm uma perspectiva "extremamente crítica no que se refere à influência das elites econômicas", e, pelo contrário, os de Río de la Plata consideram que na Argentina e Uruguai a democracia funciona de forma 'satisfatória".

"Nesses países há uma avaliação mais positiva das instituições políticas e sociais, da igreja, da sociedade civil, dos sindicatos. Também há uma permeabilidade maior às exigências da sociedade em seu conjunto", explicou Serna.

O lobby e o clientelismo, por sua vez, são as influências e práticas que surgiram como denominador comum nas relações empresariais-políticas.

"São novas formas de relacionamento entre grupos; às vezes não são empresários tradicionais, proprietários de empresas, mas também podem ser gestores, grupos intermédios, management ou representantes dos interesses empresariais", sublinhou ele.

As conclusões do estudo revelam vários "desafios para a democracia". Serna considera imprescindível conhecer e "tomar posição" no que se refere a "como funciona a democracia na América Latina, que impacto tem a participação do setor empresarial na vida política partidária e que influência têm determinadas práticas nas políticas públicas".

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