26 agosto 2026 - 15:43
As Senhoras que Assumiram o Leme da Orientação; Uma Narrativa Inesquecível sobre o Protagonismo Feminino no Islã Primitivo

Ao folhear as páginas da história, deparamo-nos, por vezes, com narrativas que parecem ter sido deliberadamente ocultadas — relatos que rompem subitamente o molde que guardamos do passado. Durante séculos, difundiu-se a crença de que as mulheres, na sociedade islâmica, sempre ocuparam espaços marginais e secundários. Contudo, a realidade histórica nos oferece um quadro radicalmente diverso: o de mulheres que não apenas nos bastidores, mas no centro da história, assumiram o leme da comunidade nos momentos mais críticos. Mulheres cuja ciência, perspicácia, piedade e coragem as capacitaram a, na ausência do Imam Inerrante, assumir sua sucessão e até mesmo apresentar o próximo Imam à comunidade.

A Agência Internacional de Notícias Ahl al-Bayt (que a paz esteja sobre eles) — ABNA: Após o martírio do Imam Hasan al-Askari (que a paz esteja sobre ele), no ano 260 da Hégira, a comunidade xiita encontrou-se num dos períodos mais delicados de sua história. O Imam da Era (que Deus apresse sua chegada) tinha apenas cinco anos, e muitos xiitas sequer sabiam de sua existência. Por outro lado, os abássidas empenhavam-se intensamente em encontrar o filho do Imam para eliminá-lo. Nessa conjuntura crítica, quem assumiu a bandeira da orientação?

Foi "Jiddah" — ou Susana, a Magrebina — mãe do Imam Hasan al-Askari (que a paz esteja sobre ele) e avó do Imam da Era (que Deus apresse sua chegada). Uma mulher que, após o martírio de seu filho, assumiu a gestão dos assuntos da comunidade xiita, conduzindo com sabedoria e perspicácia a comunicação com os fiéis. Foi ela quem, na ausência do Imam da Era (que Deus apresse sua chegada), orientou a comunidade e preparou o terreno para a apresentação do décimo segundo Imam.

1. Susana: A Mulher que Transcendeu as Fronteiras do seu Tempo

Susana, também conhecida pelos nomes de Hadith, Salil e Samanah, entrou inicialmente como serva na casa do Imam al-Jawad (que a paz esteja sobre ele) e, posteriormente, tornou-se esposa do Imam al-Hadi (que a paz esteja sobre ele). O que a distinguia das demais não era sua origem aparente, mas sua pureza, piedade e excelsas qualidades morais.

O Imam al-Hadi (que a paz esteja sobre ele), em seu primeiro encontro com ela, declarou: "Salil está pura e isenta de maldades, impurezas e imundícies." E, em seguida, anunciou a boa-nova: "Em breve, Deus concederá, através de seu ventre e de sua descendência, Sua prova sobre a criação, que encherá a terra de justiça e equidade." O mais surpreendente é que o Imam al-Hadi (que a paz esteja sobre ele) lhe disse: "Tu és a mãe de dois Imames Inerrantes" — um deles, o Imam Hasan al-Askari (que a paz esteja sobre ele), e o outro, o Imam da Era (que Deus apresse sua chegada), que descenderia dela. Essa posição elevada revela a capacidade ímpar desta senhora para atuar nos mais altos níveis de orientação da comunidade.

2. A Gestão da Comunidade: A Estratégia Silenciosa de Jiddah

Na conjuntura crítica que se seguiu ao martírio do Imam al-Askari (que a paz esteja sobre ele), foi Jiddah quem se tornou a testamentária (responsável pelos bens dotados e esmolas) do Imam. Ela assumiu a responsabilidade de guiar e administrar os xiitas, atuando como intermediária entre o povo e o Imam da Era (que Deus apresse sua chegada) e confrontando Ja'far, o Mentiroso (irmão do Imam al-Askari), para preservar a herança do Imamato.

As fontes históricas relatam que, quando Ja'far, o Mentiroso, reivindicou o Imamato e toda a herança, Jiddah, com toda a sua perspicácia, administrou a situação de forma a não revelar aos abássidas a existência do filho do Imam al-Askari. Finalmente, após sete anos, a herança foi dividida entre ela e Ja'far. Mas o mais surpreendente de tudo foi sua estratégia singular para anunciar o nascimento do Imam da Era (que Deus apresse sua chegada). Jiddah, juntamente com Hakimah Khatun (tia do Imam al-Askari), geriu o parto e, até que as condições estivessem preparadas, guardou esse segredo divino. Foi ela quem, após o nascimento, mostrou o recém-nascido ao Imam al-Askari (que a paz esteja sobre ele) e preparou o terreno para que ele fosse apresentado à elite dos xiitas.

3. O Reconhecimento dos Eruditos: Testemunhos de uma Grandeza Inquestionável

Sheikh Tusi, em seu livro Al-Ghaybah, registra que o Imam al-Askari (que a paz esteja sobre ele) nomeou sua mãe como testamentária para que o nascimento de seu filho permanecesse oculto, comparando essa ação à do Imam Hussein (que a paz esteja sobre ele), que, aparentemente, nomeou sua irmã Zainab (que a paz esteja sobre ela) como testamentária para preservar a vida do Imam Sajjad (que a paz esteja sobre ele).

Allamah Majlisi, em Jala' al-'Uyun, descreve-a como "uma mulher casta, generosa e de suma retidão, piedade e devoção". Sheikh Abbas Qomi, por sua vez, qualifica-a como "a mais pura, a mais piedosa e a mais excelsa senhora de seu tempo".

Hakimah Khatun (tia do Imam al-Askari) disse a um interrogador: "O Imam al-Askari (que a paz esteja sobre ele) escreveu à sua mãe... [perguntando] a quem os xiitas deveriam recorrer? E ela respondeu: à sua avó, a mãe de Abu Muhammad (que a paz esteja sobre ele)." Essa frase demonstra claramente que, ainda em vida do Imam al-Askari (que a paz esteja sobre ele), Jiddah já havia sido indicada como referência e refúgio para os xiitas.

4. Zainab (que a paz esteja sobre ela) e Jiddah: Um Mesmo Arquétipo de Protagonismo Feminino

Talvez possamos comparar esse papel ao de Zainab (que a paz esteja sobre ela) — a mulher que, em Karbala, embora o Imam Sajjad (que a paz esteja sobre ele) estivesse vivo e fosse o Imam Inerrante, assumiu o papel principal na transmissão da mensagem e na preservação da corrente do Imamato. Na verdade, numa conjuntura em que o inimigo buscava aniquilar completamente a mensagem de Ashura, foi Zainab quem proferiu os discursos, administrou os cativos e inclinou a história a favor da frente da verdade. O Imam Sajjad (que a paz esteja sobre ele), descrevendo Zainab (que a paz esteja sobre ela), afirmou: "Tu és, graças a Deus, uma sábia a quem ninguém ensinou, e uma compreensiva a quem ninguém fez compreender" — o que atesta o conhecimento e a perspicácia de uma mulher no momento histórico mais crucial.

O ponto notável é que, em ambos os casos — Zainab (que a paz esteja sobre ela) e Jiddah —, estas mulheres, mesmo na presença de um Imam Inerrante vivo, assumiram, na prática, o papel principal na gestão da comunidade e na preservação da corrente do Imamato. Isso demonstra que, na escola da Ahl al-Bayt (que a paz esteja sobre eles), o gênero nunca foi um obstáculo para o desempenho de papéis sociais e políticos de grande envergadura.

5. As Mulheres e a Autoridade Religiosa no Xiismo: Uma Tradição Viva

Na tradição xiita, as mulheres, ao longo da história, desempenharam papéis diversos no âmbito da autoridade religiosa. Desde Hakimah, filha do Imam al-Jawad (que a paz esteja sobre ele), que foi uma das narradoras de hadith, até mulheres que atuaram como representantes das fontes de emulação. A história xiita está repleta de nomes de mulheres que foram narradoras de hadith, alcançaram o grau de ijtihad, foram representantes dos Imames Inerrantes (que a paz esteja sobre eles) e desempenharam papéis-chave em crises políticas. Essa realidade oferece uma imagem diferente do Islã — uma imagem na qual as mulheres não são figuras marginais, mas elementos centrais no tecido social e no fluxo do pensamento político.

6. Lições para o Presente: O Protagonismo Feminino como Herança Histórica

A história de Jiddah e de Zainab (que a paz esteja sobre ela) não são meras narrativas históricas; são partes constitutivas de nossa identidade histórica que precisam ser redescobertas. Essas narrativas demonstram que:

Primeiro: As mulheres muçulmanas, desde o início, estiveram presentes nos mais altos níveis de orientação da comunidade. O fato de uma mulher poder suceder um Imam Inerrante e apresentar outro à comunidade revela sua posição elevada no sistema de crenças xiita.

Segundo: Essa presença não se deu por necessidade, mas com base em mérito, ciência, perspicácia, piedade e capacidade. Jiddah não assumiu a responsabilidade por ser mãe do Imam, mas por ser a pessoa mais qualificada para esse papel.

Terceiro: O Islã xiita, ao contrário de algumas percepções, possui uma rica tradição de mulheres sábias, mujtahidas e gestoras — um modelo claro para o nosso tempo. Se hoje as mulheres brilham em diversas esferas sociais, políticas e científicas, esse brilho tem raízes em modelos que se formaram há séculos na história do Islã.

Quarto: A visão do Islã sobre as mulheres baseia-se em capacidades e méritos, não no gênero. Sempre que uma mulher demonstrou competência, esteve presente nas mais altas posições.

Considerações Finais

Jiddah foi sepultada em Samarra, junto ao santuário dos dois Imames (Askariyayn), e seu nome ficou gravado para sempre na história. Mas sua narrativa — e a de mulheres como Zainab (que a paz esteja sobre ela) — não existe apenas para ser registrada nos livros; existe para ser um modelo para o nosso hoje e o nosso amanhã.

A geração atual, especialmente as mulheres muçulmanas, deve saber que sua história está repleta de modelos fortes, prudentes e capazes — modelos que demonstram que a mulher muçulmana pode, ao mesmo tempo em que permanece fiel aos valores religiosos, estar presente nos mais altos níveis de gestão e orientação da sociedade.

Autora: Zahra Salehi Far
Mestre em Alcorão e Hadith e Mestre em Gestão de Mídia.

Fontes:

  1. Al-Ghaybah, de Sheikh Tusi: Refere-se ao papel fundamental de Jiddah (Susana) na preservação do Imamato e na gestão dos xiitas após o martírio do Imam al-Askari (que a paz esteja sobre ele).

  2. Muntaha al-Amal, de Sheikh Abbas Qomi: Uma das fontes que menciona os nomes e títulos desta senhora (Susana, Salil, Hadith e Jiddah).

Obras importantes para estudo aprofundado:

  1. Jala' al-'Uyun, de Allamah Majlisi: Nesta obra, o autor descreve Jiddah como uma mulher de retidão, piedade e devoção.

  2. Rayahin al-Shari'ah, de Dhabihullah Mahallati: Uma enciclopédia valiosa sobre mulheres sábias e proeminentes da história do Islã.

  3. Sar bar Daman-e Mah (A Cabeça no Colo da Lua), de Fatemeh Dowlati: Um romance documental que narra a vida e o papel de tutela de Jiddah sobre a comunidade.

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