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Brasil deve voltar à responsabilidade fiscal ou será 'duplamente penalizado', opina analista

Hoje, o Brasil está no terceiro lugar entre as maiores inflações do mundo. Em vista desse fato, a Sputnik Brasil falou com um economista sobre os motivos porque os brasileiros parecem estar sofrendo mais da alta nos preços.

Os dados, recentemente divulgados pelo CNN Brasil, mostram que as principais economias mundiais sofrem os efeitos da pandemia da COVID-19 com inflação crescente, e o Brasil está entre os três países com o pior índice de inflação, após a Argentina e Turquia.
A Sputnik Brasil teve uma conversa com Alexandre Espírito Santo, economista na Órama Investimentos e professor de Macroeconomia e Finanças do Ibmec RJ, que comentou os passos necessários para amenizar a situação e deu sua projeção sobre quando as coisas vão voltar a andar nos trilhos.
Alexandre Espírito Santo confirma que a inflação é um fenômeno mundial, nesse momento muito por conta da pandemia, que desestruturou as cadeias produtivas afetando a cesta de consumo. A inflação do Brasil está no nível de 11%, no acumulado em 12 meses. Além do mais, aponta ele, existe uma perspectiva de que a inflação vai ser muito provavelmente um fenômeno global no ano de 2022.
Fatores agravantes no Brasil

Analisando a situação, o economista pontuou as questões que fizeram o Brasil ter aumentos nos preços já neste ano de 2021 e que pesam no bolso das famílias brasileiras. A primeira é a crise hídrica devido à escassez de chuvas. Isso faz com que o governo brasileiro criasse uma nova bandeira da crise hídrica e o preço de energia subisse.

O segundo fator é a subida do preço do petróleo no mercado, que afetou os preços dos combustíveis, o que por sua vez impactou o preço do transporte público. Por fim, os preços dos alimentos, que têm subido muito fortemente desde 2020, têm muito peso na composição do índice da inflação brasileira.

"Então, é um choque de preço que veio por conta do cenário internacional, mas que acaba batendo aqui."

Mecanismos de combate à inflação
Como podemos ver, a grande parte da inflação tem vindo com choque de preços, o principal deles está associado à energia, o que acontece no mundo inteiro.
Porém, no caso brasileiro, aponta o professor, há uma história de inflação muito alta, ao longo da qual o Brasil criou diversos instrumentos para tentar mitigar esses efeitos da inflação. Um expediente a que recorre o governo é a chamada correção monetária, aperfeiçoada ao longo dos anos.
Foram criados mecanismos de tentar replicar a inflação passada na inflação do futuro, uma medida tecnicamente chamada inércia inflacionária, quando os preços passados acabam sendo reproduzidos no futuro porque os agentes econômicos querem se proteger da alta da inflação passada, explica o economista.

Em que forma isso acontece: os trabalhadores querem um reajuste de salário, as empresas querem reajustar os seus preços porque o custo acaba subindo, e aí têm que repassar isso para o preço final, esclarece ele.
"Então, fica cachorro correndo atrás do rabo: você, infelizmente, tem um processo que se replica, por isso a gente precisa quebrar essa inércia."
O Banco Central tem um instrumento para interromper esse processo: ele pode subir a taxa de juros para combater a inflação, mas, nas palavras do economista, é um "remédio amargo" que afeta a atividade econômica e prejudica as famílias. Com a subida do juro, os consumidores tendem a reduzir seu consumo, o que acaba impactando as empresas que na sequência vão vender menos.

"Nesse aspecto, era importante que o governo cortasse os gastos, porque isso também alimenta o processo inflacionário. Por conta da pandemia não tivemos isso, já que o governo tem que aumentar seus gastos para auxiliar os mais vulneráveis."

Auxílio Brasil: algo supostamente transitório corre risco de acabar perpetuando
Quando o governo começa a dar sinais para os investidores, por exemplo, que não vai conseguir controlar suas contas, isso tem consequências sobre a economia. Uma delas é sobre a taxa de câmbio: nossa moeda se desvaloriza e isso bate de alguma maneira na inflação.
"Seria muito importante que o governo mostrasse que está buscando uma responsabilidade fiscal ao longo do processo", enfatizou o professor. Nesse contesto, ele se refere à decisão política problemática do novo programa social Auxílio Brasil para substituição do Bolsa Família.
Em termos disso, até 2022 as famílias vão receber um valor que é quase o dobro do valor recebido antes – em torno de R$ 400. Mas o economista duvida que no início de 2023 o novo governo consiga dizer a essas famílias que vão receber um valor inferior porque era uma medida temporária. Assim, algo supostamente transitório corre o risco acabar perpetuando, avisa ele.

"Isso é uma sinalização ruim sobre o aspecto da política fiscal e, consequentemente, os investidores internacionais começam a comprar dólar para voltar para país de origem, porque não querem correr tanto risco aqui e a gente acaba caindo no círculo vicioso."
Nesse contexto, é de importância crucial resgatar essa questão fiscal, mas, sendo uma tarefa desafiadora, o Banco Central precisa de uma colaboração por parte do governo, opina o professor.
Inflação nos EUA também vai aumentar

Os preços aos consumidores nos Estados Unidos subiram 6,2% de novembro de 2020 a outubro de 2021, no ritmo mais elevado dos últimos 31 anos, segundo o jornal Poder 360. Quanto a isso, o economista cita o FED, o Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos, que declarou que a inflação é um problema transitório. O economista duvida desse fato e acredita que a inflação vai mudar de patamar nos Estados Unidos, sugerindo que o atual índice de 2% ficará mais para 4%.
Isso vai fazer que o FED tenha que agir subindo a taxa de juro, em seu cenário, no segundo semestre do ano que vem. Isso tornará o ambiente global mais desafiador, porque o mundo provavelmente vai crescer menos e, ao crescer menos, os investidores começam a ficar seletivos.

"Por isso, é importante que nós aqui voltássemos a fazer o nosso dever de casa: precisamos voltar às reformas, precisamos voltar à responsabilidade fiscal, para que na hora em que essa seletividade comece a se tornar mais evidente, os investidores olhem para o Brasil com melhores olhos, como um país que não ofereça tanto risco, porque se não, nós vamos ser duplamente penalizados."
Projeção: menos oferta, demanda aquecida e inflação muito alta
Na opinião do economista, se efetivamente as vacinas estão funcionando no caso brasileiro, esse cenário é um cenário bastante encorajador. Nesse cenário, ao longo do ano de 2022 o país poderá voltar a uma vida parecida com aquela que havia antes da pandemia.

Pelo cálculo dele, o mercado de trabalho nos países centrais tende a voltar a uma certa normalidade ao longo do primeiro semestre de 2022.
Porém, se isso acontecer, existe mais um motivo para ficarmos preocupados com a inflação, porque os trabalhadores voltam a ter uma vida relativamente normal e isso aquece a demanda. Consequentemente, haverá uma demanda maior com um cenário de oferta ainda prejudicado, porque a cadeia produtiva vai levar minimamente dois anos para voltar a apresentar um quadro de normalidade.
"Então, teremos menos oferta, uma demanda aquecida, e isso no cenário de inflação mais alta. Por isso, os bancos centrais vão precisar agir subindo a taxa de juro. É um cenário bastante desafiador em relação à inflação do mundo", resumiu ele.

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