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Cúpula Rússia-EUA: Putin e Biden conseguiram tirar relação entre os países do 'ponto mais baixo'?

Na quarta-feira (16), os chefes de Estado dos EUA e da Rússia, Joe Biden e Vladimir Putin, respectivamente, estiveram em Genebra para um diálogo bilateral. A Sputnik Brasil explica os resultados da cúpula mais esperada do ano e como a cúpula poderia ajudar no melhoramento das relações entre as duas potências.

Durante o encontro, os líderes abordaram assuntos abrangendo armas nucleares, crises diplomáticas, segurança cibernética, direitos humanos, mídias estrangeiras e o futuro das relações entre os dois países.

Gustavo Oliveira, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp, PUC-SP) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU), comentou à Sputnik Brasil as questões mais relevantes sobre a cúpula entre as duas potências.

Cúpula mais esperada do ano
A cúpula entre Putin e Biden em Genebra em formato estendido durou 1,5 hora. No total, as negociações entre os líderes na cidade suíça duraram 4,5 horas, incluindo um intervalo.

"A impressão geral é que [a cúpula] ocorreu dentro das expectativas", afirmou Gustavo Oliveira, ressaltando que o possível fator diferencial tenha sido a maneira franca e positiva, sendo considerada pelos dois líderes como um encontro construtivo.
A cúpula marcou a primeira viagem de Biden à Europa, em meio às crescentes tensões entre a Rússia e os países ocidentais.

Durante o encontro, Putin agradeceu a Biden pela iniciativa, já que havia "muitas questões acumuladas nas relações russo-americanas".

Para Gustavo Oliveira, "a questão do controle de armas e algumas iniciativas sobre a questão de cibersegurança, bem como a questão das relações diplomáticas", foram os pontos de maior destaque tratados durante o encontro.

Após a cúpula, Anatoly Antonov, embaixador russo em Washington, e John Sullivan, chefe da missão diplomática norte-americana em Moscou, devem retornar ao desempenho de suas funções.

Cibersegurança
Durante a cúpula, os dois líderes discutiram a questão da cibersegurança, com Biden afirmando que se houver violação das regras básicas por parte da Rússia, os EUA certamente responderão.

Por sua vez, Putin negou a participação russa nos recentes ataques cibernéticos contra as instituições norte-americanas, afirmando que "iniciaria as consultas sobre o assunto [segurança cibernética], já que acredita que isso seja de grande importância".

Além disso, o líder russo recordou, citando fontes americanas, que o maior número de ataques cibernéticos no mundo é realizado a partir dos EUA.

Controle de armas
Vladimir Putin lembrou a especial responsabilidade da Rússia e EUA na preservação da estabilidade estratégica mundial.

"Os Estados Unidos e a Federação da Rússia têm uma responsabilidade especial pela estabilidade estratégica no mundo, baseada, mais que não seja, no fato de sermos as duas maiores potências nucleares, tanto pelo número de munições, ogivas e veículos de entrega, quanto pelo nível, qualidade e modernidade das armas nucleares", observou.
Por sua vez, o presidente norte-americano também afirmou que a relação entre os dois países "precisa ser estável e previsível".

Vale ressaltar, que o Novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas (New START), assinado em 2010 e que limita o número de ogivas nucleares estratégicas, bombardeiros e mísseis foi recentemente estendido.

Direitos humanos e Aleksei Navalny
O presidente norte-americano afirmou ter abordado a questão dos direitos humanos na Rússia, especialmente o caso envolvendo a prisão do blogueiro Aleksei Navalny, condenado por fraude, que violou o prazo original para se apresentar às autoridades do país.

Gustavo Oliveira falou sobre o embate relacionado à questão dos direitos humanos, algo que os norte-americanos sempre fazem questão de citar quando se trata de outros países.

"Estas posições vão permanecer irreconciliáveis, com cada um interpretando de uma maneira os assuntos domésticos, então os EUA vão continuar achando que a situação na Rússia é, de certa maneira, um desrespeito, não tendo espaço para uma oposição política no país [...] E os EUA não têm moral para comentar o assunto, pois eles mesmos tomariam certas políticas questionáveis, como Guantánamo, bombardeios no Afeganistão, sendo assim, dificilmente os dois países chegariam em um denominador comum quanto a isso", explicou.
Como de costume, o líder norte-americano se preocupou apenas com a situação russa, ignorando os problemas enfrentados dentro de seu país que, por sinal, não são poucos e englobam os protestos do grupo Black Lives Matter, a invasão do Capitólio e a prisão de Guantánamo, como citado pelo presidente Putin.

Tanto que, em meio à exagerada preocupação dos EUA com relação aos direitos humanos de outros países, Putin comentou o assunto e citou a atual existência da prisão norte-americana de Guantánamo.

"Sobre os direitos humanos. Vejamos, Guantánamo ainda opera, não está de acordo com absolutamente nada, nem com as leis internacionais, nem com as leis americanas, com nada. E ainda existe", enfatizou Putin.

Biden mostra 'fraqueza' ao se recusar a participar de coletiva de imprensa com Putin
O presidente norte-americano, Joe Biden, se recusou a participar em uma coletiva de imprensa conjunta com o líder russo após a cúpula.

Para o ex-secretário de Estado dos EUA Mike Pompeo, a recusa de Biden demonstra a "enorme fraqueza" do chefe da Casa Branca.

Contudo, Gustavo Oliveira acredita que Biden tenha tentado criar um ambiente mais controlado, para evitar alguma questão que motivasse novas tensões entre os dois países.

"Os dois foram muito francos e diretos, expondo o que ocorreu [durante o encontro], bem como os pontos de vista deles sobre as questões tratadas", explicou.
Para Gustavo, a participação de Putin foi mais aberta, inclusive contando com a participação de jornalistas estrangeiros, enquanto Biden tinha uma pré-lista dos jornalistas presentes.

"O Putin teve um formato mais aberto, respondendo abertamente às questões sobre a Rússia [...]", afirmou o especialista, ressaltando a experiência do líder russo em lidar com as questões tratadas.

China vira assunto de Biden na cúpula
Durante a coletiva de imprensa, Biden novamente voltou a citar a China, bem como um jornalista que, ao final do evento, tocou no mesmo assunto.

Ao ser questionado sobre a obsessão norte-americana com relação à China, Gustavo Oliveira afirmou acreditar que "a presença da China na fala de Biden tem a ver com a posição dos chineses em relação à política externa norte-americana".

"O país [EUA] vê a China como a concorrente mais forte a longo prazo, como já foi citado na cúpula da OTAN, mostrando a importância que o assunto tem para os EUA e, por isso, seria interessante para os norte-americanos ter uma relação estável com a Rússia, de modo que possam lidar com os chineses", ressaltou.

Saldo da cúpula entre Biden e Putin
Para ambos os líderes a cúpula foi eficaz, construtiva e positiva, eles parecem ter chegado a um consenso sobre a tentativa de determinar áreas de cooperação entre os dois países e defender os interesses mútuos.

Contudo, apesar de reconhecerem a importância da aproximação e do encontro como primeiro passo, ambos os lados não criaram grandes expectativas de obter resultados.

"Nos EUA, a visão prevalecente é bastante negativa quanto à Rússia, de que é uma concorrente, um desafio para os EUA, que deve ser tratada de maneira adequada, e conforme esta visão norte-americana, através de sanções, repressões, tenta de certa forma conter a Rússia", afirmou Gustavo Oliveira.

O especialista também ressalta que acredita que o governo norte-americano continuará sofrendo uma pressão dentro do país para que siga pressionando a Rússia, "algo muito comum no sistema político dos EUA, e que vai dificultar muito uma aproximação entre as duas potências".

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