19 outubro 2026 - 00:45
X: uma plataforma para espalhar ódio antimuçulmano?

A plataforma americana X deixa de remover 62% das publicações de ódio antimuçulmano denunciadas, e contas pagas têm taxas de remoção menores.

Quase dois terços das publicações em redes sociais que ameaçam com violência os muçulmanos ou os retratam em termos desumanizantes continuaram acessíveis no X mesmo depois de denunciadas, segundo um novo estudo que evidencia grandes lacunas na aplicação das políticas de discurso de ódio da empresa.

O relatório, divulgado na quarta-feira pelo Centro para o Estudo do Ódio Organizado (CSOH), com sede em Washington, e pela Iniciativa Bridge, da Universidade de Georgetown, examinou 464 publicações feitas por contas sediadas nos EUA entre 10 de janeiro e 9 de setembro de 2026.

O estudo surge em meio a um forte aumento da intolerância e da incitação contra muçulmanos americanos nas redes sociais, além de um aumento documentado de crimes de ódio. Em 2025, o Conselho de Relações Americano-Islâmicas (CAIR) registrou 8.683 queixas de direitos civis em todo o país, incluindo 555 incidentes de ódio diretos e 33 casos de vandalismo, danos, assédio, intimidação ou disputas de zoneamento envolvendo instituições islâmicas, como mesquitas, centros comunitários e espaços de oração, o maior total anual desde que o CAIR começou a publicar relatórios de direitos civis, em 1996.

Os pesquisadores identificaram 270 publicações que defendiam explicitamente a violência, incluindo 160 que pediam que mesquitas fossem incendiadas e 110 que pediam que muçulmanos fossem mortos. Outras 194 publicações descreviam os muçulmanos com termos desumanizantes como “vermes”, “baratas”, “parasitas” e “infestação”.

Depois de denunciar as 464 publicações pelo sistema oficial de denúncias do X, os pesquisadores verificaram seu status sete dias depois.

Constataram que 200 publicações, ou 43%, permaneciam totalmente acessíveis, enquanto outras 89, ou 19%, tinham restrições de visibilidade, mas ainda podiam ser vistas. Apenas 171 publicações foram removidas pela plataforma, e quatro foram apagadas por seus autores.

No total, 62% do conteúdo antimuçulmano denunciado continuou acessível, o que levanta preocupações sobre a capacidade do X de aplicar suas políticas contra ameaças violentas e condutas de ódio.

As conclusões se somam ao crescente escrutínio das práticas de moderação da plataforma, que também foram alvo de ações regulatórias na Europa.

A aplicação foi particularmente fraca em relação à linguagem desumanizante. Das 194 publicações dessa categoria, apenas seis, ou 3%, foram removidas, enquanto 168 permaneceram publicamente acessíveis sem nenhuma restrição.

Os pesquisadores também documentaram moderação inconsistente de ameaças quase idênticas contra mesquitas. Algumas publicações foram removidas, outras receberam restrições de visibilidade e outras foram deixadas intactas.

O estudo encontrou disparidades entre assinantes pagos e usuários comuns.

As publicações de contas X Premium foram removidas a uma taxa de 26%, contra 41% das contas não verificadas. Os assinantes pagos também tinham maior probabilidade de publicar conteúdo abusivo repetidamente: cerca de 20,5% das contas com selo azul fizeram várias publicações infratoras, contra 9% das contas comuns.

O relatório alertou que retratar os muçulmanos como subumanos pode contribuir para um ambiente em que a violência contra minorias religiosas se torna cada vez mais normalizada.

As conclusões surgem em meio a preocupações mais amplas com a islamofobia nos Estados Unidos. O relatório citou um tiroteio em maio de 2026 no Centro Islâmico de San Diego, que matou três pessoas, seguido por um aumento de 183%, segundo relatos, nos incidentes contra mesquitas nos três meses seguintes.

Os pesquisadores relacionaram em parte os problemas de aplicação das regras do X às mudanças introduzidas depois que Elon Musk adquiriu a plataforma, em outubro de 2022. O quadro global de confiança e segurança da empresa diminuiu cerca de 30%, enquanto sua equipe dedicada de engenharia de segurança caiu 80%, segundo números citados no estudo.

Os próprios dados do X mostraram que as suspensões por conduta de ódio caíram cerca de 98% entre o fim de 2021 e o primeiro semestre de 2024.

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