11 junho 2017 - 00:28
Tempestade no Golfo Persico ou a mais perigosa crise desde a invasão do Kuwait em 1990

"A colocação do Qatar numa lista negra pelos sauditas é um sinal da desordem do novo mundo do presidente Trump", escreve o The Economist.

1. Encoberta pelos “casos” de Trump e pelas eleições europeias, forma-se no Golfo Pérsico uma tempestade, a mais grave desde a invasão do Kuwait em 1990-91 e a guerra que se seguiu contra Saddam Hussein. À primeira vista, é um confronto entre a Arábia Saudita e o Qatar, ambos sunitas; por trás dele, reconhece-se a disputa de hegemonia da região entre sauditas e iranianos, ou seja, entre a potência sunita e a potência xiita. Os americanos têm tido um comportamento dúplice: Donald Trump atira fósforos para o “petróleo”, enquanto o secretário de Estado, Rex Tillerson, procura evitar o incêndio.

No dia 5, a Arábia Saudita, o Egipto, os Emirados Árabes Unidos (EUA), o Bahrein e o Iémen cortaram relações diplomáticas com o Qatar e impuseram um agressivo bloqueio: fecharam-lhe as fronteiras terrestres, as águas territoriais e o espaço aéreo, com sugestões veladas de apelo a um “golpe de Estado”.

Seria, noutras circunstâncias, um casus belli. Por si só, o pequeno Qatar não tem meios para desafiar as potências árabes. Por outro lado, o verdadeiro alvo dos sauditas é o Irã, o que torna as coisas verdadeiramente perigosas. De resto, basta ter em conta a geografia. É no Golfo que estão as maiores jazidas e por lá passam as principais rotas do petróleo e do gás.

2. Os sauditas querem a hegemonia do Golfo e passaram a agir agressivamente. Acusam o emir do Qatar, xeque Tamim al-Thani, de financiar a Irmandade Muçulmana (inimiga histórica da Casa de Saud), o Hamas e o Hezbollah pró-iraniano. E, sobretudo, de contrariar a sua política de cerco ao Irã. Riad suspeita que o Qatar deseja um Irã poderoso para equilibrar o peso saudita. Tudo isto parece verdade. Mas a grande acusação pública é a do apoio ao terrorismo. Não será falsa, mas pode virar-se também contra Riad e outras monarquias do Golfo Persico, com pesado cadastro na matéria.

Doha (capital do Qatar) sempre procurou manter a aliança americana — abriga a maior base dos EUA no Médio Oriente — sem prejudicar as boas relações com Teerã. Os dois países partilham a maior reserva de gás natural do mundo, nas águas do Golfo Persico. Em resposta ao bloqueio, Teerã pôs dois portos à disposição do Qatar, que importa 90% dos alimentos.

Desde que se emancipou da tutela saudita, o Qatar segue uma política externa independente. Serve-se da sua extraordinária riqueza. Financia terroristas, tal como investe maciçamente na Europa e nos EUA. E não só. A televisão Al-Jazira funcionou como instrumento de desestabilização das monarquias do Golfo Persico e outras ditaduras durante as “primaveras árabes”. Já era uma arma de agitação anti-israelita e antiamericana. Uma das exigências sauditas é o encerramento da Al-Jazira. O Qatar também está em conflito com o Egipto do general Al-Sissi, por continuar a proteger a Irmandade Muçulmana.

O conflito com os sauditas remonta aos anos 1990, quando o xeque Hamad al-Thani fez um golpe de Estado contra o pai e assumiu o poder. Em 2013, Hamad abdicou a favor do filho Tamim, o que provocou um misto de alívio e preocupação em Riad, que esperava que o novo e inexperiente xeque fosse mais manejável, mas, por outro lado, via na abdicação um convite ao derrube dos velhos monarcas árabes. E Doha continuou a desafiar Riad, designadamente na Síria, onde apoiou grupos jihadistas antagónicos.

3. O Qatar não percebeu a tempo que os ventos mudaram e, com eles, as relações de força, dizem analistas. O desaire saudita na Síria, o seu impasse no atoleiro do Iémen e o crescente declínio do Daesh favoreceram o Irã, incitando Riad a radicalizar a sua política. Entretanto, saiu Obama e entrou Trump, arvorando uma nova era de hostilidade perante o Irã. Não é que Trump seja muito credível no mundo árabe: é tido como instável e pouco fiável. Mas o seu apoio à manobra anti-iraniana dos sauditas foi para estes um maná.

O Presidente americano chegou a Riad a 20 de Maio, na primeira etapa da sua digressão diplomática. Teve uma recepção imperial. Fez um discurso de louvor dos sauditas e atacou o Irã. Sonhou com uma espécie de “NATO árabe” antiterrorismo. Os sauditas prometeram comprar 110 mil milhões de dólares de armas americanas.

Disse-se que Trump “vendeu” a família Al-Thani aos sauditas pelos US$ 110 bilhões . “Fake news”, responde Bruce Ridel, analista da Brookings Institution. Parte dessa “encomenda” remonta ao mandato de Obama. De facto, os sauditas não compraram quase nada e, desta vez, voltaram a fazer “declarações de intenções” e não é previsível nenhum contrato. O libanês americano Mohamad Bazzi aponta outra pista: os sauditas depressa perceberam que Trump quer “lisonja e respeito” e por isso “apostaram no seu ego”. O certo é que Trump lhes deu uma “luz verde”.

A “NATO árabe” não chegou a nascer e no dia 5 de Maio é declarado o bloqueio ao Qatar. Tillerson, que como patrão do petróleo conhece a região como poucos, tenta acalmar o jogo e evitar que os Estados Unidos se embrulhem nesta crise, em que vislumbrará todos os perigos. Entretanto Trump não parou: escreveu dois tweets a animar os sauditas e a apontar o dedo ao Qatar. Simon Henderson, do Washington Institute for Near East Policy, faz um tenebroso paralelo histórico: “Sarajevo 1914, Doha 2017?” Teme “um confronto entre uma força saudita e dos emirados com o Irã”. Apela a que Washington “trave a marcha para uma guerra antes que a carnificina comece”. Henderson parece exagerar — aliás, os “mercados” não se agitaram —, mas há engrenagens que por vezes fogem ao controlo dos atores.

4. O Qatar parece encurralado. Pode não ter outra saída senão ceder: fechar a Al-Jazira e alinhar a sua política externa por Riad. Mas tentará resistir. Conta com o apoio do Irã e da Turquia. Diz Ancara que um ataque ao Qatar será considerado um ataque à Turquia. Pode ser retórica. Mas é muito difícil que Teerã deixe cair o Qatar. Não é segredo para ninguém que o Irã é o verdadeiro alvo da operação saudita.

A natureza tem horror ao vazio. Entram em cena outros actores. O emir do Kuwait tenta uma mediação. A Rússia precisa do Qatar, por negócios e por razões da “estabilização” da Síria, pela sua influência sobre alguns grupos de milicias, mas também não quer alienar os sauditas. Pôs a sua diplomacia em marcha. Resume o The Economist: “A colocação do Qatar numa lista negra é um sinal da desordem do novo mundo do presidente Trump.”

No Médio Oriente não há uma potência hegemónica, mas rivais a lutar por isso. Os EUA desempenhavam um papel de força estabilizadora no Golfo Persico, mantendo os equilíbrios estratégicos e evitando tomar partido na “guerra entre sunitas e xiitas”. Vão retomar esse papel ou abdicar dele?

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