24 outubro 2026 - 15:58
Por que os centros de estudos estratégicos de Washington e Tel Aviv temem o mahdismo xiita mais do que o poderio dos mísseis?

Os conflitos em curso na região não seriam apenas confrontos militares, mas também, segundo a análise apresentada neste artigo, uma disputa civilizacional e ideológica centrada no mahdismo — a crença xiita no advento do Imam al-Mahdi. O autor argumenta que a preocupação de setores ocidentais com essa crença demonstra a importância da disputa de ideias e do papel dos educadores na formação de uma geração preparada para o advento e para a construção de uma civilização

A Agência Internacional de Notícias AhlulBayt (ABNA) informa:

Foi realizada a segunda sessão do seminário especializado “Mahdismo: da resistência ao advento — uma análise escatológica dos acontecimentos regionais”, ministrada pelo حجjatoleslam e muçulmano Zuhair Dehghani Arani, professor do Centro Especializado em Mahdismo do seminário islâmico de Qom. Apresentamos a seguir o conteúdo da sessão.

Três perspectivas para analisar os conflitos em curso

Como explicado nas sessões anteriores, diante das rápidas transformações e dos conflitos regionais, que podem voltar a se intensificar a qualquer momento e assumir novas dimensões, é possível considerar três perspectivas de análise:

  1. A perspectiva civilizacional ampla: esses conflitos são apenas disputas temporárias ou representam um confronto histórico e civilizacional capaz de alterar o rumo do mundo? Essa perspectiva está diretamente relacionada ao mahdismo e ao futuro da história.

  2. A perspectiva religiosa e a correspondência com os sinais do advento: consiste em examinar as narrações religiosas e os sinais do fim dos tempos, avaliando se os acontecimentos atuais correspondem a esses sinais e quais seriam as responsabilidades dos fiéis. Devido à amplitude e à complexidade do tema, o palestrante considera que essa análise deve ser conduzida por especialistas.

  3. A perspectiva das motivações ideológicas e religiosas profundas: uma análise mais detalhada, segundo o palestrante, revela que por trás de conflitos aparentemente políticos e militares também existem crenças e motivações religiosas. Ele menciona o regime sionista e, particularmente, a corrente do sionismo cristão presente em setores do governo dos Estados Unidos, que, segundo sua interpretação, utilizam os meios de comunicação e recursos financeiros expressivos para promover objetivos ideológicos.

O autor considera que, sem levar em conta essas dimensões, seria difícil compreender o apoio contínuo de setores ocidentais a Israel.

A referência ao versículo 54 da surata Al-Ma'idah: a promessa de um povo que substituirá os que abandonarem a fé

Para iniciar a exposição com uma passagem do Alcorão, o palestrante cita o versículo 54 da surata Al-Ma'idah:

“Ó vós que credes! Se algum de vós renegar sua religião, Deus fará surgir um povo a quem Ele amará e que O amará; humilde para com os crentes e firme diante dos descrentes; que lutará pela causa de Deus e não temerá a censura de nenhum censurador. Essa é a graça de Deus, que Ele concede a quem quer. Deus é Amplo, Onisciente.”

Segundo o palestrante, o versículo foi revelado em um contexto delicado, quando a luta contra os adversários era intensa e algumas pessoas de fé frágil demonstravam hesitação em defender a religião. A passagem ressalta que a religião de Deus não ficará desamparada: se alguns abandonarem suas responsabilidades, Deus poderá fazer surgir outro povo com características específicas:

  • É amado por Deus e ama o Senhor.

  • É humilde e afetuoso no relacionamento com os crentes.

  • Demonstra firmeza diante dos descrentes e dos opressores.

  • Empenha-se na luta pela causa de Deus.

  • Não se deixa intimidar pela censura de quem o critica.

A referência do Profeta à identidade desse povo e ao papel dos iranianos

Na interpretação desse versículo, o palestrante menciona uma tradição conhecida, transmitida em obras de exegese sunitas e xiitas. Segundo o relato, quando perguntaram ao Profeta Muhammad quem seria o povo mencionado na passagem, ele colocou a mão sobre o ombro de Salman al-Farsi e disse:

“Este homem e seu povo. Por Aquele em cujas mãos está minha alma, se a religião estivesse suspensa nas Plêiades, homens deste povo chegariam até ela.”

O palestrante interpreta a tradição como uma referência a Salman e aos persas, destacando a participação dos iranianos na história do Islã. Para ele, o versículo e a narração representam uma mensagem de esperança, mas também uma responsabilidade: preparar-se para a época do advento do Imam al-Mahdi.

A interpretação de que o conflito atual tem uma dimensão civilizacional

O palestrante sustenta que os conflitos atuais devem ser entendidos como uma disputa civilizacional, e não apenas como confrontos militares. Em apoio à sua interpretação, menciona declarações recentes de autoridades norte-americanas, entre elas o secretário de Estado Marco Rubio.

Segundo o artigo, Rubio fez referências a conflitos históricos entre os persas, a Grécia e a Roma antigas, procurando estabelecer uma relação entre essas disputas históricas e o Irã contemporâneo. Na interpretação do palestrante, esse tipo de discurso amplia a dimensão do conflito, apresentando-o como uma disputa histórica entre civilizações.

A análise de Vali Nasr: da islamofobia ao temor do Irã

O artigo menciona também Vali Nasr, pesquisador iraniano-americano e ex-conselheiro do governo de Barack Obama. Segundo o texto, Nasr publicou uma mensagem na qual interpretava o discurso de Rubio como uma referência a um possível “choque de civilizações — parte 2”.

O palestrante apresenta essa análise como evidência de uma mudança de enfoque em determinados setores ocidentais: da islamofobia para uma narrativa centrada no temor do Irã. Essa interpretação é utilizada pelo autor para sustentar sua tese de que a disputa envolve também a identidade, as ideias e a influência regional iraniana.

A teoria do “choque de civilizações” no pensamento estratégico ocidental

A expressão Clash of Civilizations (“choque de civilizações”) tem origem em debates intelectuais ocidentais sobre a ordem mundial após o fim da Guerra Fria.

O artigo destaca duas teorias:

  1. O “fim da história”, de Francis Fukuyama: em sua conhecida obra, o autor argumentou que a democracia liberal ocidental havia se tornado o modelo predominante para a organização política, após a derrota dos sistemas rivais. O palestrante observa que Fukuyama posteriormente reviu aspectos de sua interpretação.

  2. O “choque de civilizações”, de Samuel Huntington: essa teoria propõe que os conflitos futuros seriam marcados, em parte, pelas diferenças entre grandes civilizações, incluindo a ocidental, a chinesa confuciana e a islâmica.

O autor utiliza essas teorias como contexto para interpretar as tensões contemporâneas entre o Irã, os Estados Unidos e Israel.

Uma publicação de Alon Mizrahi sobre o declínio das civilizações

O texto também cita uma mensagem atribuída a Alon Mizrahi, que teria argumentado que diversas civilizações e tradições religiosas — entre elas a chinesa, o Islã sunita, as igrejas cristãs e as culturas latino-americanas — enfrentam dificuldades para oferecer novas perspectivas capazes de orientar o futuro da humanidade.

Segundo a citação reproduzida pelo artigo, Mizrahi afirma que o Irã e os xiitas duodecimanos seriam os únicos capazes de oferecer uma proposta centrada na ética e na humanidade no mundo contemporâneo.

O palestrante considera essa afirmação significativa, mas a apresenta como uma avaliação de Mizrahi, e não como uma conclusão demonstrada por uma análise comparativa de todas as culturas mencionadas.

Na perspectiva do autor, divulgar uma visão ética e espiritual do mundo seria tão importante quanto alcançar resultados militares, uma vez que o objetivo do Islã seria a transformação e a elevação do ser humano.

Ele relaciona essa ideia às orientações do falecido líder da Revolução Islâmica, que teria estabelecido dois grandes objetivos para o futuro do Irã:

  1. Alcançar uma nova civilização islâmica.

  2. Preparar a sociedade para o advento do Imam al-Mahdi.

O artigo atribui aos professores, educadores e agentes culturais uma responsabilidade central na transmissão dessa visão às novas gerações.

As motivações religiosas por trás dos conflitos

Outro ponto enfatizado pelo palestrante é a influência das crenças religiosas nas decisões políticas e militares. Segundo ele, embora nem todos os indivíduos envolvidos compartilhem sinceramente as mesmas convicções, as ideias religiosas podem exercer influência significativa sobre as políticas públicas e a opinião social.

O artigo destaca o papel do sionismo cristão, que reúne correntes cristãs que apoiam Israel por razões religiosas e interpretam determinados acontecimentos políticos à luz de suas crenças bíblicas.

O autor afirma que mudanças históricas nas atitudes de alguns grupos cristãos em relação aos judeus e ao Estado de Israel também foram influenciadas por campanhas de comunicação e por transformações ideológicas. Essa interpretação é apresentada como parte de seu argumento sobre a influência das crenças religiosas nos conflitos internacionais.

Como exemplos, o texto menciona declarações atribuídas a JD Vance, vice-presidente dos Estados Unidos, sobre suas referências religiosas e sua formação intelectual, bem como o movimento Send Me, ligado a setores das Forças Armadas norte-americanas e associado a uma interpretação religiosa da missão militar.

Segundo o artigo, essas referências ilustram a maneira pela qual determinadas correntes religiosas podem influenciar a percepção de uma missão política ou militar.

Por que Israel e setores ocidentais temeriam o discurso do mahdismo?

Na interpretação apresentada pelo palestrante, alguns adversários do Irã procuram retratar o conflito como uma disputa religiosa contra a crença xiita no Imam al-Mahdi.

O artigo menciona Mordechai Kedar, apresentado como uma figura acadêmica e religiosa israelense, que teria mostrado em um programa de televisão um livro xiita com uma imagem de uma bandeira associada ao Imam do Tempo. Segundo o relato, Kedar interpretou essa imagem como expressão da disposição dos xiitas de lutar e sacrificar suas vidas para entregar a bandeira ao décimo segundo Imam.

O texto também recorda um artigo publicado em 2016 pelo ex-ministro da Defesa israelense Moshe Ya'alon no Los Angeles Times, intitulado “Por que o Irã é muito mais perigoso do que o Estado Islâmico”. Segundo a interpretação apresentada pela ABNA, Ya'alon teria destacado três elementos do poder iraniano: sua capacidade militar, sua população e, acima de tudo, a crença no salvador e no Imam al-Mahdi.

O palestrante afirma que declarações de autoridades ocidentais também revelariam preocupação com a dimensão escatológica do xiismo. Essas afirmações, contudo, são apresentadas no artigo como parte da interpretação do palestrante sobre as motivações de seus adversários.

A responsabilidade de apresentar a verdadeira imagem do Imam al-Mahdi

Diante daquilo que considera uma tentativa de associar o mahdismo à violência, o palestrante defende a necessidade de explicar melhor a crença no Imam al-Mahdi.

Na tradição xiita, o Imam é associado à promessa de estabelecer a justiça em escala mundial e de pôr fim à opressão. O autor o descreve como uma figura de paz e tranquilidade cuja missão envolve enfrentar os opressores e estabelecer uma ordem justa.

Ele argumenta que as ferramentas digitais e as redes sociais oferecem oportunidades para transmitir essa mensagem a públicos de diferentes países. Como exemplos, menciona a divulgação do cântico “Salam Ya Mahdi” e uma carta atribuída ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica dirigida ao povo norte-americano.

O artigo afirma ainda que, na crença islâmica, Jesus Cristo retornará no fim dos tempos junto com o Imam al-Mahdi para contribuir para o estabelecimento da paz e da justiça. Para concluir esse argumento, cita o versículo 105 da surata Al-Anbiya:

“E, com efeito, escrevemos no Livro dos Salmos, depois da Mensagem: ‘A terra será herdada por Meus servos justos.’”

O palestrante considera que iniciativas culturais e educativas desse tipo são importantes para apresentar a doutrina mahdista e a visão de futuro que ela representa para os fiéis.

O papel dos professores na formação dos futuros apoiadores do Imam

Na parte final da palestra, o autor dirige-se aos professores, educadores e responsáveis por atividades culturais. Segundo ele, a responsabilidade dessas pessoas perante as novas gerações é especialmente importante.

Se um adolescente for educado para compreender a si mesmo como alguém comprometido com os valores associados ao Imam al-Mahdi, argumenta o palestrante, poderá encontrar um sentido para sua trajetória e suas responsabilidades.

O artigo menciona figuras iranianas que morreram em conflitos militares, entre elas Tehrani-Moghaddam, Ahmad Reza Ruzan e Haji Zadeh, como exemplos de pessoas que, na interpretação do autor, foram formadas por essa tradição ideológica e religiosa.

A tarefa dos educadores seria, portanto, manter viva na mente e no coração dos jovens a lembrança do Imam e transmitir os princípios éticos e espirituais relacionados à sua expectativa.

Esclarecimento: sinais do fim dos tempos e sinais do advento

Ao responder a perguntas do público, o palestrante também distingue os sinais gerais do fim dos tempos dos sinais específicos do advento do Imam al-Mahdi.

Sobre Gog e Magog — conhecidos no contexto islâmico como Ya'juj e Ma'juj —, ele afirma que são mencionados entre os acontecimentos associados ao fim dos tempos, mas não devem ser necessariamente considerados sinais definitivos e imediatos do advento.

Segundo a explicação apresentada, as referências a esse tema são mais recorrentes em algumas tradições sunitas, enquanto ocupam um lugar menos destacado nas narrações xiitas. O palestrante conclui que é importante distinguir as diferentes categorias de sinais escatológicos e evitar tratar todos eles como indicações de que o advento está prestes a ocorrer.

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