Qual é o objetivo da criação do ser humano? Deus, que é rico, autossuficiente, ilimitado e infinito, e que não necessita de nada — nem mesmo da criação de qualquer ser — por que criou o ser humano? Que necessidade teria da sua criação?
Se dissermos que a criação do ser humano não teve nenhum objetivo, teríamos de concluir que sua criação foi inútil e sem propósito. Entretanto, a própria natureza do Criador do universo está acima de qualquer atribuição desse tipo.
Por outro lado, se imaginarmos que Deus criou o ser humano para alcançar determinado objetivo ou finalidade, isso pareceria implicar que o Criador do universo realizou a criação para suprir alguma necessidade, enquanto Deus está livre e acima de qualquer tipo de necessidade.
A abertura desse mistério e a resposta fundamental e clara a essa questão dependem, segundo o texto, da compreensão de dois pontos, cada um dos quais desempenha um papel importante na solução do problema.
1. A questão muda quando aceitamos a existência da vida após a morte
Em primeiro lugar, devemos observar que essa pergunta se transforma em um problema aparentemente insolúvel quando limitamos a existência ao mundo material, restringimos a realidade aos sistemas materiais e fenômenos naturais, consideramos a morte como o fim da vida humana e não aceitamos a existência da Ressurreição e de uma vida no Além.
Nesse caso, a questão assume uma forma extremamente complexa, e o ser humano pergunta a si mesmo:
Qual é o segredo da criação humana?
Por que o ser humano entra neste mundo e, depois de alguns anos de vida — muitas vezes acompanhados de sofrimento, amargura, fracasso e frustração — seu tempo de vida chega ao fim e seu arquivo existencial é encerrado?
“De onde veio e para que veio?”
Qual é o objetivo de toda a agitação de alguns poucos dias de vida? Qual é a filosofia dessa existência temporária? Por que o ser humano entrou neste mundo?
Depois de consumir certa quantidade de água e alimento, sua respiração começa a diminuir, seu coração para de bater, ele é colocado sob toneladas de terra, seu corpo se decompõe e se transforma em pó, como se nunca tivesse existido e como se nenhum ser humano tivesse pisado neste vasto cenário da existência.
Segundo o texto, a doutrina do materialismo não consegue responder satisfatoriamente a essa questão, porque limita o universo à matéria e aos fenômenos materiais e não reconhece Deus nem a existência de outro mundo.
Nesse caso, quando alguém procura dentro dos limites do mundo material um objetivo para a criação — especialmente para a criação do ser humano — encontra apenas perplexidade, espanto, desorientação e, eventualmente, a negação da própria questão.
Por outro lado, aqueles que consideram a vida material apenas uma das etapas da existência humana e acreditam que, depois deste mundo, existe outra realidade, compreendem este mundo como uma preparação para o próximo.
Para eles, a morte não é o fim da existência humana, mas uma janela para outro mundo e uma ponte em direção à eternidade.
Dentro dessa visão, a resposta à pergunta torna-se mais simples: se o objetivo da criação humana não puder ser encontrado apenas nas características da vida terrena, deve-se procurá-lo no mundo seguinte e na vida eterna.
Assim, o objetivo da criação do ser humano neste mundo seria prepará-lo para uma vida eterna e permanente, que constituiria o objetivo e a finalidade última.
2. O objetivo das ações de Deus não é suprir uma necessidade Sua
Há outro ponto que deve ser considerado e que, na realidade, constitui a segunda base para responder à questão.
Toda pessoa racional, quando realiza alguma ação, geralmente o faz em busca de um objetivo de que necessita. O ser humano é uma criatura repleta de necessidades e, naturalmente, trabalha e age para se desenvolver e satisfazer suas necessidades.
Ele come, bebe água, veste roupas e estuda para suprir diferentes necessidades materiais e espirituais.
Até mesmo quando pratica boas ações — por exemplo, ajuda pessoas necessitadas, gasta dinheiro na educação dos filhos ou constrói um grande hospital — normalmente existe alguma motivação relacionada a uma necessidade interior.
Essa motivação pode ser a expectativa de recompensas nesta vida ou na vida futura, conforme anunciadas pelos profetas; pode ser também o desejo de aliviar a dor e o sofrimento provocados pela visão da situação difícil dos necessitados, buscando dessa maneira alcançar tranquilidade de consciência; ou ainda o desejo de conquistar reconhecimento e honra, considerados pela pessoa como parte de seu próprio desenvolvimento.
Em resumo, o ser humano normalmente realiza ações em busca de seu próprio benefício ou para evitar um prejuízo que percebe como consequência da inação.
Em todas essas atividades, busca seu próprio benefício e desenvolvimento. São relativamente raros os casos em que uma pessoa realiza algo exclusivamente pela própria ação, sem que, consciente ou inconscientemente, considere algum tipo de desenvolvimento físico ou espiritual.
É natural, portanto, que as necessidades estejam presentes em todos os aspectos da vida humana e que a pessoa seja obrigada a realizar diferentes atividades para preservar sua existência e alcançar seu desenvolvimento.
Agora que compreendemos as motivações das ações humanas e ficou claro que elas são realizadas em busca de determinado objetivo, cujo resultado é, em última análise, o desenvolvimento físico ou espiritual da própria pessoa, precisamos analisar o significado de “objetivo nas ações de Deus”.
É correto afirmar que Deus está acima de qualquer ação inútil ou sem propósito e que Ele possui um objetivo em todas as Suas ações, criando cada ser por uma determinada finalidade.
Mas é necessário compreender: o que significa “objetivo” quando falamos das ações de Deus?
Dizer que o Criador do universo criou cada ser para um determinado objetivo não significa que o objetivo tenha o mesmo sentido que possui nas ações humanas. A natureza do objetivo nas ações de Deus é completamente diferente daquela que atribuímos às ações humanas.
A diferença fundamental entre Deus e o ser humano — Deus é rico e autossuficiente, enquanto o ser humano é completamente dependente e necessitado — mostra claramente que “objetivo nas ações de Deus” possui outro significado, praticamente oposto à interpretação aplicada às ações humanas.
O ser humano é necessitado e, mesmo por um instante, não deixa de depender de fatores externos à sua própria existência. Por isso, precisa trabalhar continuamente para viver, satisfazer suas necessidades e deficiências e alcançar desenvolvimento material e espiritual.
Deus, porém, é um Ser ilimitado e infinito. Não se pode imaginar pobreza ou necessidade em Sua essência, pois não existe perfeição que Lhe falte.
Nesse caso, o objetivo de Suas ações deve ser proporcionar benefício a outro ser.
Em outras palavras, Deus é um Ser perfeito e infinito em todos os aspectos e não possui qualquer necessidade. Ao mesmo tempo, sabemos que Suas ações são realizadas de acordo com sabedoria e propósito e que Ele está acima de qualquer ação inútil.
Portanto, conclui o texto, o objetivo da criação do ser humano não foi satisfazer uma necessidade de Deus. O resultado da criação retorna necessariamente ao próprio ser humano.
O objetivo seria conduzi-lo à perfeição que lhe é própria, sem que levar o ser humano aos mais elevados graus de desenvolvimento produza qualquer benefício ou necessidade para a essência divina.
O desenvolvimento no mundo natural
Uma breve observação do mundo da criação revela uma realidade clara: todo o universo é um ambiente de desenvolvimento e crescimento dos seres, e o desenvolvimento de cada ser contribui para o desenvolvimento de formas superiores de existência.
Por exemplo, os raios e o calor do sol atingem a superfície dos mares e oceanos, fazendo com que parte da água se transforme em vapor e suba.
Os ventos e as tempestades empurram o vapor em direção às regiões terrestres. Depois de uma série de processos naturais, o vapor transforma-se em gotas cristalinas de chuva e flocos de neve, que caem sobre a terra e devolvem vida à superfície aparentemente sem vida.
A terra, por meio de seus movimentos tranquilos, revela seus segredos interiores. As planícies e os desertos se transformam em extensos tapetes verdes. Flores surgem em todos os lugares; plantas e árvores crescem; o murmúrio dos riachos, o som das cachoeiras, o canto alegre dos pássaros e o perfume das flores silvestres dão uma nova dimensão à vida.
Segundo o texto, observar esse capítulo do “livro da existência” constitui uma das maiores lições sobre o conhecimento de Deus. Ao mesmo tempo, conduz à compreensão da sabedoria presente nas leis divinas.
Podemos observar que cada ser — mineral, vegetal ou animal — avança em direção ao desenvolvimento seguindo um programa próprio. Todos os seres do universo percorrem, de uma maneira particular, um caminho de aperfeiçoamento, passando diariamente e anualmente de formas mais simples para formas mais desenvolvidas.
Uma árvore majestosa começou sua existência como uma única célula e, depois de atravessar diversas etapas, tornou-se uma das maiores árvores do mundo.
Da mesma maneira, um grande animal esteve inicialmente na forma de uma célula no útero materno ou permaneceu encerrado dentro de um ovo. Posteriormente, sob a ação da ordem e da sabedoria do Criador do universo, alcançou, partindo das etapas mais elementares da vida, o nível máximo de desenvolvimento próprio de sua espécie.
É como se este mundo fosse um grande ambiente destinado ao desenvolvimento das capacidades ocultas das plantas e dos animais, permitindo que cada ser alcance o grau de perfeição que lhe é próprio.
O ser humano, que é parte do universo e um de seus frutos mais valiosos, também está sujeito a essa mesma lei.
Seu objetivo e o segredo de sua criação, segundo o texto, não são diferentes daqueles observados nos vegetais e nos animais: alcançar a perfeição que lhe é própria e desenvolver suas capacidades latentes.
A diferença é que o ser humano percorre esse caminho por meio de sua própria vontade e liberdade de escolha.
Pode-se dizer ainda que o universo, ou muitos de seus elementos, foi criado para o ser humano, de modo que ele possa utilizá-los para suprir suas necessidades e alcançar o desenvolvimento que lhe é próprio.
Portanto, Deus não criou o ser humano para suprir uma necessidade Sua ou eliminar alguma deficiência própria.
Ele criou o ser humano para que este percorresse o caminho em direção à sua própria perfeição e, com liberdade, buscasse seu desenvolvimento e felicidade.
Em termos mais claros: Deus criou o ser humano para conduzi-lo ao mais elevado grau de desenvolvimento possível.
Uma criatura inicialmente pequena e limitada — uma célula humana — percorre um processo de desenvolvimento até tornar-se um ser capaz de conhecer, compreender, exercer vontade e utilizar sua razão.
Por meio dessas perfeições limitadas, o ser humano pode, segundo essa perspectiva, refletir as perfeições ilimitadas e infinitas de Deus.
Deus criou o ser humano e depositou nele capacidades e talentos próprios. Enviou profetas e mestres divinos para educá-lo, para que, por meio da adoração a Deus e da obediência aos Seus mandamentos que conduzem à felicidade, ele pudesse alcançar um desenvolvimento integral e preparar-se para uma vida mais completa em um mundo mais amplo.
O objetivo final da criação segundo o Alcorão
O Alcorão e as tradições islâmicas fazem referência, de maneira geral, às ideias apresentadas acima.
O Alcorão apresenta como objetivo último da criação humana sua vida e felicidade eternas em um mundo mais amplo:
“Acaso pensais que vos criamos sem propósito e que não retornareis a Nós?”
(Alcorão, Surata Al-Mu'minun, 23:115.)
O significado, segundo o texto, é que o objetivo da criação humana não pode ser encontrado exclusivamente dentro dos limites da vida material. É preciso buscá-lo no mundo futuro e compreender que, mesmo depois da morte, o ser humano continuará seu processo de desenvolvimento, avançando em direção à perfeição absoluta, isto é, em direção a Deus.
Quando o Alcorão afirma:
“Não criei os gênios e os seres humanos senão para que Me adorem.”
(Alcorão, Surata Adh-Dhariyat, 51:56.)
isso não significa que Deus necessite da obediência de Seus servos.
A interpretação apresentada no texto é que o ser humano, por meio da adoração, da obediência aos mandamentos divinos e do conhecimento de Deus, alcança sua própria perfeição — uma perfeição que resulta da obediência às orientações divinas.
Por esse caminho, ele alcança a felicidade eterna e permanente, que é apresentada como consequência da obediência aos mandamentos de Deus.
Ter uma vida eterna acompanhada de felicidade constitui, nessa concepção, o objetivo final. Depois de alcançar essa perfeição, não seria necessário perguntar novamente: “E qual é o objetivo dessa perfeição?”
Por que Deus não concedeu todas as perfeições ao ser humano desde o início?
Pode surgir outra pergunta:
Por que Deus não concedeu ao ser humano todas essas perfeições de uma só vez? Por que o criou necessitado, fazendo com que precisasse desenvolver-se por meio de suas próprias atividades para alcançar a perfeição desejada?
A resposta apresentada é que uma qualidade moral só é realmente digna de elogio e considerada uma forma de perfeição quando o ser humano a conquista por sua própria liberdade, escolha e vontade.
Se uma determinada perfeição surgisse dentro de uma pessoa de maneira obrigatória e involuntária, ela não poderia ser considerada uma virtude moral nem um critério de superioridade.
Por exemplo, ajudar pessoas necessitadas ou construir um hospital só constitui sinal de desenvolvimento espiritual quando a pessoa realiza essas ações livremente e por sua própria vontade.
Se alguém fosse obrigado a entregar seu dinheiro e outra pessoa o utilizasse para ajudar os necessitados ou construir um hospital, isso não constituiria prova da virtude moral daquele que forneceu o dinheiro, nem sua ação seria digna de elogio ou reconhecimento.
Portanto, para alcançar o desenvolvimento espiritual, o ser humano precisa percorrer livremente, por seus próprios passos, o caminho da virtude.
Nota
O texto observa ainda que grandes personalidades espirituais podem elevar-se acima da busca por qualquer benefício material ou espiritual e realizar uma boa ação simplesmente porque a consideram boa.
Como exemplo, é citada uma conhecida declaração atribuída ao Imam Ali (A.S.):
“Não Te adoro por medo do Teu Fogo nem por desejo de Teu Paraíso; mas Te adoro porque Te considero digno e merecedor de adoração.”
Segundo o texto, pessoas desse nível, profundamente apaixonadas pela adoração e absorvidas pela perfeição de Deus, esquecem a si mesmas durante o culto e adoram porque reconhecem Deus como digno de adoração.
O texto acrescenta que, às vezes, até mesmo o amor materno pode atingir um grau tão puro que, diante de uma situação de perigo, a mãe se entrega completamente ao amor pelo filho, esquecendo-se de si mesma e sacrificando sua própria vida pela criança.
Referências:
- Alcorão, Surata Al-Mu'minun, versículo 115.
- Alcorão, Surata Adh-Dhariyat, versículo 56.
- Compilado da obra Respostas a Perguntas Religiosas, de Ayatollahs Nasser Makarem Shirazi e Jafar Sobhani, Escola Imam Ali ibn Abi Talib, 2ª edição, p. 75.
Your Comment