Agência Internacional de Notícias AhlulBayt (ABNA): Em um mundo onde os muros da desconfiança, do racismo e do nacionalismo extremista se tornam cada vez mais altos, Arbaeen surge como um reflexo completo da unidade e da fraternidade humana. Milhões de pessoas de diferentes partes do mundo, com diferentes cores de pele, línguas e culturas, reúnem-se no caminho entre Najaf e Karbala, criando uma cena extraordinária de convivência pacífica.¹ O Alcorão Sagrado, séculos atrás, explicou de maneira clara tanto a filosofia dessa diversidade quanto o caminho para alcançar a unidade.
A escola do conhecimento: das diferenças à empatia
“Ó humanidade! Nós vos criamos de um homem e de uma mulher e vos fizemos povos e tribos para que vos conheçais uns aos outros. Certamente, o mais nobre de vós perante Deus é o mais piedoso. Em verdade, Deus é Onisciente e Bem-Informado.”²
Este versículo constitui uma verdadeira carta de princípios da igualdade e do conhecimento mútuo no Islã. Ao dirigir-se a “ó humanidade”, Deus se dirige a todos os seres humanos sem qualquer discriminação. Ao recordar a origem comum de todos em “um homem e uma mulher”, rompe com o orgulho racial. Em seguida, apresenta a diversidade dos povos e das tribos não como um defeito, mas como um meio para o conhecimento mútuo.
Allameh Tabatabaei, em Al-Mizan, ao comentar este versículo, afirma que a divisão em povos e tribos tem como finalidade promover o conhecimento e as relações humanas, e não a vanglória ou a divisão.³ Fakhr al-Din al-Razi também enfatiza que o versículo rejeita qualquer superioridade baseada em raça ou tribo e estabelece a espiritualidade e a moralidade como verdadeiro critério de excelência.⁴
Em Arbaeen, esse versículo se manifesta de uma maneira particularmente impressionante. Peregrinos afegãos caminham ao lado de peregrinos paquistaneses; iranianos, ao lado de iraquianos; turcos, ao lado de indianos; e até cristãos e yazidis convivem ao lado de muçulmanos xiitas, todos percorrendo o mesmo caminho sem que nacionalidade ou origem racial sejam obstáculos.⁵
Nos postos de acolhimento, um iraquiano oferece sua comida a um iraniano, enquanto um paquistanês conserta os calçados de um turco, mesmo quando não compartilham a mesma língua. Nesse ambiente, o conhecimento mútuo transforma-se em empatia e as falsas hierarquias raciais perdem seu significado.
Pesquisadores da área de sociologia consideram Arbaeen um dos maiores exemplos contemporâneos de solidariedade humana, no qual a ideia de igualdade é vivenciada sem imposição política ou econômica.⁶ O critério que permanece é a piedade e o altruísmo, valores profundamente presentes na experiência de cada peregrino de Imam Husayn (A.S.).
O firme laço de Deus: uma unidade que rompe as divisões
“E apegai-vos todos juntos ao laço de Deus e não vos dividais. E recordai a graça de Deus sobre vós: quando éreis inimigos, Ele uniu vossos corações e, por Sua graça, vos tornastes irmãos.”⁷
Este versículo apresenta um mandamento de unidade e um alerta contra a divisão. O “laço de Deus” é interpretado como o Alcorão, o Mensageiro de Deus e os princípios divinos comuns que unem os crentes. O versículo recorda que, antes dessa união concedida por Deus, os seres humanos eram inimigos uns dos outros; então Deus aproximou seus corações e os transformou em irmãos. Os exegetas consideram este versículo um dos mais importantes mandamentos do Alcorão para preservar a coesão da comunidade islâmica e condenar qualquer forma de divisão.⁸
Arbaeen é uma manifestação concreta desse “laço divino” no mundo contemporâneo. Que outro fator poderia reunir milhões de pessoas de dezenas de nacionalidades, apesar das divergências políticas e das campanhas negativas da mídia? A resposta está no amor por Imam Husayn (A.S.), que representa plenamente esse vínculo com Deus e dá continuidade ao caminho do Mensageiro de Deus.
Ao percorrer esse caminho, os peregrinos se apegam, na prática, ao laço divino e superam a dispersão. Os postos de acolhimento mantidos pelo povo são elos desse firme laço: por meio de um serviço desinteressado, aproximam corações que, à primeira vista, pertenciam a pessoas estranhas umas às outras.⁹
Aquele que ontem era um desconhecido torna-se hoje um irmão à mesma mesa da generosidade. É essa união dos corações em escala global que muitas vezes os políticos são incapazes de alcançar. Relatos de campo indicam que, ao longo do percurso, divergências políticas e étnicas dão lugar à empatia e à bondade, e os peregrinos vivenciam formas de fraternidade que ultrapassam os laços de sangue e de origem.¹⁰
Fraternidade universal: quando a fé supera os laços de sangue
“Os crentes são verdadeiramente irmãos. Portanto, reconciliai vossos irmãos e temei a Deus, para que possais alcançar Sua misericórdia.”¹¹
Este versículo apresenta uma das mais elevadas e belas definições de fraternidade. Aqui, a fraternidade não é definida pelo sangue ou pela linhagem, mas pela fé e pelas convicções compartilhadas. Sob essa fraternidade, todos também recebem a responsabilidade de promover a reconciliação entre os irmãos, para que a comunidade dos crentes permaneça em paz e harmonia.
Sheikh Tabarsi, em Majma al-Bayan, ao comentar este versículo, afirma que Deus estabeleceu os crentes como irmãos para que o rancor e a hostilidade desaparecessem entre eles e fossem substituídos pelo amor e pela união.¹²
Na caminhada de Arbaeen, essa fraternidade espiritual manifesta-se em seu nível mais elevado. Peregrinos que até ontem não se conheciam passam a considerar-se “irmãos e irmãs na fé”. As fronteiras geográficas, linguísticas e até religiosas — com a presença de muçulmanos sunitas e cristãos — perdem sua força diante dessa fraternidade abrangente.
As cenas de ajuda mútua entre os peregrinos, desde ajudar alguém a calçar os sapatos e massagear seus pés até compartilhar o último gole de água, são expressões concretas de “os crentes são irmãos”.¹³ Nesse ambiente fraterno, os ressentimentos e conflitos mundanos dão lugar à bondade e ao afeto, enquanto os peregrinos, por meio da piedade, criam as condições para que a misericórdia divina alcance a si mesmos e aos outros.
Arbaeen, manifestação dos versículos da unidade
Arbaeen não é apenas uma caminhada; é uma escola dinâmica e viva que ensina ao mundo a unidade e a fraternidade. O princípio de “para que vos conheçais uns aos outros” nos ensina a transformar as diferenças em pontes de conhecimento. O mandamento de “apegar-vos todos ao laço de Deus” nos ordena a fortalecer o vínculo divino comum e evitar a divisão. E “os crentes são irmãos” nos oferece o mais elevado grau de solidariedade: a verdadeira fraternidade espiritual.
No caminho de Arbaeen, esses três princípios não permanecem apenas nos livros; eles se manifestam nas atitudes de milhões de pessoas e demonstram que viver lado a lado, apesar de todas as diferenças, não apenas é possível, mas pode ser uma das formas mais belas de convivência humana.
Esta é a mensagem eterna de Karbala: sob a força do amor, a geografia e as fronteiras perdem seu poder de separar as pessoas, e a humanidade contempla a possibilidade de uma comunidade unida em torno de valores comuns.
Notas
Comitê Central de Arbaeen do Irã. Relatório Anual de Atividades de 2023. Teerã, 2023, p. 15.
Alcorão Sagrado, Surata Al-Hujurat, versículo 13.
Tabatabaei, Sayyid Muhammad Husayn. Al-Mizan fi Tafsir al-Qur'an, vol. 18. Qom: Publicações da Sociedade dos Professores do Seminário de Qom, 1984, p. 332.
Razi, Fakhr al-Din. Al-Tafsir al-Kabir (Mafatih al-Ghayb), vol. 7. Beirute: Dar al-Fikr, 1984, p. 140.
Zavare'i, Mohammad Javad. Geografia da Epopeia: Análise Espacial da Caminhada de Arbaeen. Teerã: Instituto de Pesquisa sobre Hajj e Peregrinação, 2017, p. 45.
Rezaei, Ahmad. “Sociologia da Caminhada de Arbaeen”. Revista de Ciências Sociais, nº 45, 2016, p. 125.
Alcorão Sagrado, Surata Al Imran, versículo 103.
Makarem Shirazi, Naser et al. Tafsir Nemuneh, vol. 2. Teerã: Dar al-Kotob al-Islamiyah, 1974, p. 520.
Qaemi, Ali Akbar. A Epopeia de Arbaeen. Qom: Publicações Dar al-Hadith, 2011, p. 112.
Organização do Hajj e Peregrinação do Irã. Relatórios Anuais sobre as Estatísticas dos Peregrinos de Arbaeen. Teerã, 2023, p. 34.
Alcorão Sagrado, Surata Al-Hujurat, versículo 10.
Tabarsi, Fadl ibn Hasan. Majma al-Bayan fi Tafsir al-Qur'an, vol. 9. Beirute: Dar al-Ma'rifah, 1986, p. 240.
Karimi, Mohammad Hossein. Arbaeen: Solidariedade Social na Era da Globalização. Qom: Instituto de Ciências e Cultura Islâmica, 2022, p. 85.
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