Talvez uma das imagens mais estranhas da vida moderna seja esta: uma família sentada sob o mesmo teto, mas cada pessoa vivendo em um mundo diferente. O pai está ocupado com mensagens, a mãe percorre as redes sociais, o filho está entretido com jogos ou vídeos, e a conversa real, pouco a pouco, desapareceu da casa.
O problema não é simplesmente o celular. O problema começa quando, sem percebermos, entregamos a uma pequena tela o controle sobre nosso olhar, nossa atenção, nosso tempo e até nossos relacionamentos. O Islã não se opõe à tecnologia. A questão fundamental é: o que o ser humano está fazendo com sua vida e sua liberdade de escolha?
Se o Profeta Muhammad (A.S.) entrasse hoje em nossas casas, não podemos afirmar com certeza o que ele diria especificamente sobre os celulares, pois não há relatos sobre esse assunto. Entretanto, à luz dos princípios presentes no Alcorão, na tradição profética e nos ensinamentos dos Ahl al-Bayt (A.S.), podemos compreender que ele provavelmente nos advertiria não contra a ferramenta, mas contra a escravidão diante dela.
Quando o celular deixa de ser uma ferramenta e passa a controlar a casa
O celular é, originalmente, uma ferramenta. Pode ser utilizado para estudar, manter contato com a família, trabalhar, pesquisar, divulgar conhecimentos religiosos e realizar inúmeras atividades úteis. O problema começa quando a ferramenta passa a controlar a pessoa: quando já não somos nós que decidimos quando entrar ou sair das redes sociais, mas as notificações, as mensagens e o fluxo incessante de conteúdos que passam a decidir por nós.
O Alcorão Sagrado afirma: “Não sigas aquilo de que não tens conhecimento. Certamente, o ouvido, a visão e o coração serão todos questionados.” [1] Na era das redes sociais, esse versículo assume uma dimensão ainda mais significativa, pois todos somos expostos diariamente a uma enorme quantidade de imagens, notícias, rumores, análises e entretenimento.
Por isso, o crente não pode aceitar ou compartilhar de maneira irrefletida tudo aquilo que aparece na tela do telefone. Nem toda imagem, notícia ou frase merece entrar em nossa mente e em nosso coração. Às vezes, a piedade na era digital significa cuidar da alimentação da mente e da alma com o mesmo zelo com que cuidamos da alimentação do corpo.
“Aquilo que não lhe diz respeito”: um princípio profético para a era das redes sociais
Um dos ensinamentos mais precisos que podemos aplicar à vida digital contemporânea é a orientação do Profeta Muhammad (A.S.) sobre abandonar aquilo que não traz benefício. Em uma tradição transmitida pelo Imam Ja'far al-Sadiq (A.S.), através de seus ilustres antepassados até o Profeta Muhammad (A.S.), é dito:
“Entre as qualidades de um bom muçulmano está deixar aquilo que não lhe diz respeito.” [2]
Esse ensinamento tem uma mensagem particularmente atual. Muitas das coisas que ocupam nossa mente durante horas nas redes sociais não têm, de fato, nenhuma relação conosco: a vida privada de outras pessoas, discussões intermináveis na internet, polêmicas envolvendo celebridades, rumores, debates improdutivos e dezenas de conteúdos que, poucos minutos depois, sequer lembramos.
O problema é que aquilo que é “interessante” nem sempre é “importante”. Aquilo que tem muitos espectadores não necessariamente merece nossa atenção. E aquilo que ocupa nossa mente não necessariamente merece nosso tempo. Talvez uma das formas mais importantes de disciplina espiritual no mundo digital seja perguntar a nós mesmos: isso que estou vendo realmente diz respeito a mim?
O Imam Ali ibn Abi Talib (A.S.) também afirma: “Quem se ocupa com aquilo que não lhe diz respeito perde aquilo que lhe diz respeito.” [3] Essa frase talvez seja uma das descrições mais precisas de uma vida digital sem limites: cada minuto gasto em intermináveis assuntos secundários pode ser um minuto retirado da família, do estudo, da adoração, da educação dos filhos, da conversa ou da nossa própria tranquilidade.
Uma casa onde todos estão juntos, mas ninguém está realmente presente
Talvez o maior prejuízo do estilo de vida digital não seja a redução da leitura nem mesmo o aumento do tempo gasto na internet, mas a perda da “presença”. Estar presente significa realmente ouvir quando nosso cônjuge fala conosco. Significa tirar os olhos da tela quando nosso filho nos conta alguma coisa. Significa fazer com que nossos pais, quando estão ao nosso lado, não sintam que precisam competir com as pessoas presentes no mundo virtual.
O Profeta Muhammad (A.S.), em uma tradição também transmitida nas fontes imamitas, disse: “O melhor de vós é aquele que é melhor para sua família, e eu sou o melhor de vós para minha família.” [4] Essa tradição oferece um importante critério para reavaliarmos nosso estilo de vida.
Uma pessoa pode ser extremamente educada, ativa, sociável e prestativa fora de casa, mas seus familiares podem conhecê-la como alguém que nunca está verdadeiramente presente. Se reservamos nossas melhores palavras para o mundo virtual e nossa maior atenção para pessoas distantes, enquanto nossa família recebe apenas nosso cansaço, nosso silêncio e um olhar rápido para a tela do telefone, precisamos reconsiderar o significado de “ser bom para a família”.
Na visão do Profeta Muhammad (A.S.), a família não ocupa um lugar secundário na vida. O lar é espaço de afeto, tranquilidade e responsabilidade. Portanto, se a tecnologia, em vez de fortalecer os vínculos familiares, gradualmente substitui a conversa, o olhar e a escuta, o problema não está na tecnologia, mas na maneira como a utilizamos.
No mundo atual, “futilidade” também pode assumir a forma de uma rolagem infinita
O Alcorão Sagrado descreve uma das características dos crentes da seguinte maneira: “E aqueles que se afastam daquilo que é fútil.” [5] Na interpretação desse versículo, a futilidade é associada àquilo que é falso ou desprovido de benefício. [6]
No passado, a futilidade poderia significar passar horas em uma reunião sem propósito ou falando sobre assuntos improdutivos. Hoje, ela pode assumir outra forma: a rolagem infinita. Um conteúdo termina e imediatamente surge outro, sem que sequer saibamos por que abrimos determinado aplicativo.
Isso não significa que todo entretenimento seja fútil. O Islã não se opõe ao lazer e ao entretenimento lícito. A questão é a perda do controle. Se alguém entra conscientemente em uma rede social para se distrair e, depois de algum tempo, consegue deixá-la, a ferramenta está sob seu controle. Mas se entra sem objetivo e só consegue sair quando já perdeu a noção do tempo, é necessário refletir sobre seu estilo de vida.
Na verdade, a pergunta principal não é quantas horas por dia usamos o celular. A pergunta mais profunda é: o que ganhamos e o que perdemos durante essas horas? Adquirimos mais conhecimento ou apenas deixamos nossa mente mais agitada? Fortalecemos nossos relacionamentos ou apenas aumentamos o número de pessoas que nos seguem? Ficamos mais próximos da família ou permitimos que pessoas virtuais ocupem o lugar daqueles que estão mais próximos de nós?
Certamente, o Profeta (A.S.) não tiraria o celular das nossas mãos
Se o Profeta Muhammad (A.S.) estivesse hoje em nossa casa, não podemos colocar em sua boca a frase: “Deixem o celular de lado”. Uma afirmação desse tipo exigiria uma tradição autêntica, e não devemos atribuir ao Profeta palavras que ele não disse.
Mas podemos, com base em seus ensinamentos seguros, fazer outras perguntas: esse aparelho fez você se esquecer da sua família? Você está vendo algo que não deveria ver? Está compartilhando algo cuja veracidade não verificou? Está gastando horas da sua vida com coisas que não lhe trazem nenhum benefício? Quando as pessoas que ama falam com você, sua atenção está em outro lugar?
Talvez o nosso problema hoje não seja simplesmente olhar demais para o celular. Talvez seja que, por olhar tanto para a tela, às vezes deixamos de enxergar as pessoas que estão diante de nós.
A solução também não precisa ser abandonar a tecnologia. É preciso devolver ao ser humano o controle sobre ela: estabelecer momentos em família sem celulares, deixar o telefone de lado durante conversas importantes, eliminar sem hesitação conteúdos inúteis, verificar a veracidade de uma notícia antes de compartilhá-la e perguntar sempre a si mesmo: “Isso realmente me diz respeito?”
Talvez, se o Profeta Muhammad (A.S.) estivesse hoje em nossas casas, ele não tirasse os celulares de nossas mãos; talvez nos ensinasse novamente a olhar uns nos olhos dos outros.
Porque, no fim, um estilo de vida islâmico na era digital significa que a tecnologia esteja a serviço do ser humano, e não o ser humano a serviço da tecnologia; que a comunicação aumente, e não a solidão; que o conhecimento cresça, e não a confusão; e que o lar continue sendo o lugar onde, quando os membros da família estão juntos, estejam realmente juntos.
Notas
[1] Alcorão Sagrado, Surata Al-Isra, 17:36.
[2] Shaykh al-Mufid, Al-Amali, p. 34, quarta sessão, hadith 9.
[3] Allamah al-Majlisi, Bihar al-Anwar, vol. 73, p. 319.
[4] Shaykh al-Hurr al-Amili, Wasa'il al-Shi'a, vol. 20, p. 174, hadith 25337; com referência a Al-Kafi, vol. 5, p. 511.
[5] Alcorão Sagrado, Surata Al-Mu'minun, 23:3.
[6] Muhammad ibn Jarir al-Tabari, Jami' al-Bayan, comentário do versículo 3 da Surata Al-Mu'minun.
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