O pensamento moderno: confronto aparente ou verdadeira contradição?
Na era atual, algumas correntes intelectuais surgiram sob o título de “pensamento moderno”. À primeira vista, essa expressão remete a uma abordagem dinâmica, racional e compatível com as exigências do tempo. Entretanto, determinadas correntes apresentadas como “renovação do pensamento religioso” ou como “pensamento crítico” podem, em alguns casos, afastar-se de seu propósito e chegar a uma situação em que tanto a razão saudável quanto a tradição religiosa confiável sejam sacrificadas em nome das paixões ou de uma imitação cega do Ocidente.
O Islã, ao contrário dessas abordagens superficiais, é uma religião que, com a revelação do Alcorão, promoveu uma profunda transformação no pensamento humano e conduziu o ser humano das trevas da imitação cega à luz da reflexão e da contemplação.
O Alcorão, o primeiro grande chamado à racionalidade
Um ponto fundamental no enfrentamento das correntes do chamado “pensamento moderno” que se opõem à razão é recorrer à fonte revelada do Islã. Em numerosos versículos, o Alcorão não apenas convida o ser humano a refletir, mas também relaciona a própria humanidade à capacidade de raciocinar e compreender.
O Alcorão utiliza expressões contundentes ao descrever aqueles que se afastam da verdade, comparando-os aos animais e considerando-os ainda mais extraviados:
«Certamente, as piores criaturas perante Deus são os surdos e mudos que não raciocinam.» (Alcorão, 8:22)
O versículo mostra claramente que o uso da razão e da capacidade de reflexão constitui um dos critérios fundamentais da humanidade e da superioridade existencial do ser humano.
As correntes intelectuais que, em nome da modernidade, conduzem o ser humano à aceitação de afirmações sem fundamento ou consideram a razão incapaz de conhecer as verdades acabam, na prática, por conduzi-lo de volta a uma condição inferior à própria humanidade, pois uma humanidade sem razão e reflexão torna-se uma forma vazia.
A reflexão sobre a natureza: um caminho para a verdade
Um dos principais chamados do Alcorão é à reflexão sobre os sinais presentes tanto no mundo exterior quanto no interior do próprio ser humano.
Ao mencionar os grandes sinais presentes na criação dos céus e da Terra, na alternância entre a noite e o dia, nos navios que atravessam os mares e na chuva que dá vida, o Alcorão afirma:
«Certamente, nisso há sinais para um povo que raciocina.» (Alcorão, 2:164)
O Alcorão jamais pede ao ser humano que aceite algo de maneira cega e sem provas. Ao contrário, convida-o a compreender a ordem harmoniosa da criação e as relações de causa e efeito existentes no mundo, para que, por meio dessa ordem extraordinária, reconheça a existência do Criador Sábio.
Questionar e buscar conhecimento: essência da fé
Ao contrário da ideia de que a religião seria contrária ao questionamento e à dúvida metodológica, o próprio Alcorão orienta o ser humano a consultar aqueles que possuem conhecimento:
«Perguntai aos que possuem conhecimento, se não sabeis.» (Alcorão, 16:43)
Esse versículo estabelece como princípio religioso a necessidade de recorrer aos especialistas e de perguntar para superar a ignorância.
O Alcorão também adverte o ser humano contra seguir aquilo sobre o qual não possui conhecimento e o orienta constantemente em direção ao conhecimento seguro, e não a suposições infundadas ou emoções passageiras, fenômenos que podem ser observados em algumas correntes contemporâneas denominadas “pensamento moderno”.
O coração saudável e os véus que impedem o conhecimento
Talvez o maior obstáculo ao pensamento correto não seja a deficiência da razão, mas a cegueira do coração. O Alcorão afirma:
«Não são os olhos que ficam cegos, mas os corações que estão nos peitos que ficam cegos.» (Alcorão, 22:46)
Esse versículo apresenta uma crítica fundamental às correntes intelectuais que, apoiando-se exclusivamente nas aparências do conhecimento empírico, acabam negando realidades transcendentes.
Na visão islâmica, a razão saudável, quando acompanhada por um coração purificado, pode alcançar níveis profundos de compreensão. O “pensamento moderno” desprovido de conhecimento e de purificação espiritual pode, nessa perspectiva, transformar-se em uma forma de aprisionamento nos véus das paixões e nos ídolos intelectuais da modernidade.
A crítica ao antirracionalismo do pensamento moderno
O que atualmente é apresentado no Ocidente sob conceitos como “pós-modernismo” ou crítica à razão instrumental, embora tenha surgido inicialmente como uma abordagem crítica da modernidade, pode, em alguns casos, conduzir ao relativismo absoluto e à negação de qualquer verdade universal.
O Alcorão reconhece a dimensão suprarracional da fé, uma vez que a razão humana, sozinha, não é suficiente para compreender o mundo do invisível. Contudo, isso não significa rejeitar a razão.
Segundo a interpretação de Allameh Tabataba'i, o Alcorão utiliza tanto a razão teórica para demonstrar os princípios da religião quanto a razão prática para a purificação da alma. Portanto, a rejeição da racionalidade não constitui um caminho de orientação no Islã, mas contradiz a tradição dos profetas.
O equilíbrio entre razão e revelação: o caminho do Islã
O Islã, fundamentado nos princípios da racionalidade e da reflexão, apresenta à humanidade um caminho intermediário no qual razão e revelação interagem.
O Alcorão orienta os muçulmanos a percorrer a Terra e a extrair lições com olhos atentos e ouvidos dispostos a ouvir. Essa abordagem ativa do conhecimento está em completa oposição às correntes que apresentam a religião como essencialmente contrária à razão ou que reduzem o conhecimento científico exclusivamente ao sensorialismo.
Se “pensamento moderno” significa revisar de maneira sistemática a compreensão da religião, aproveitando as conquistas do conhecimento humano, então essa abordagem é desejável e compatível com o espírito do Alcorão.
Porém, correntes que, sob o pretexto da modernização, marginalizam a racionalidade religiosa e convidam o ser humano a aceitar indiscriminadamente afirmações modernas ou a abandonar a revelação não apresentam verdadeira inovação. Segundo essa perspectiva, acabam presas ao dogmatismo moderno e aos novos ídolos intelectuais da época.
O Alcorão continua sendo uma luz para o ser humano racional e apresenta o caminho da felicidade como dependente da adesão à razão saudável e à revelação autêntica.
Nenhum pensamento que esteja em conflito com os princípios sólidos da racionalidade corânica merece ser seguido, seja ele apresentado sob a forma de uma tradição antiga, seja sob a aparência de um pensamento moderno sem raízes.
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