A experiência de mais de duas décadas como muçulmana fez Vania Ghisolfi acompanhar mudanças significativas na maneira como o Islã é conhecido e compreendido pela sociedade brasileira.
Quando se converteu, há mais de 20 anos, ainda era comum que uma mulher usando hijab nas ruas de São Paulo fosse imediatamente identificada como estrangeira.
“A mudança é imensa, 20 anos atrás toda mulher que usava hijab em São Paulo era chamada de libanesa.”
Hoje, segundo Vania, a sociedade brasileira possui uma compreensão maior de que o Islã não pertence a uma única nacionalidade ou grupo étnico.
“Hoje o povo brasileiro sabe que qualquer pessoa, independente da raça, cor ou país pode se tornar um muçulmano.”
Para ela, a internet teve um papel importante nesse processo, ao ampliar o acesso às informações e aos conteúdos em português.
“A internet tem um enorme papel nessa mudança. As informações não param.”
Ao mesmo tempo, Vania considera que ainda existe uma grande lacuna na produção de trabalhos especificamente direcionados aos brasileiros.
“Porém ainda tem muito pouco trabalho direcionado aos brasileiros.”
Ela reconhece que o caminho é longo, mas percebe um interesse crescente.
“A estrada é longa, mas com a ajuda de Deus, o povo brasileiro está cada vez mais procurando o Islã.”
Na sua avaliação, acontecimentos internacionais também contribuíram para aumentar o interesse de parte da sociedade brasileira por questões relacionadas ao mundo islâmico e ao Oriente Médio.
“A causa Palestina abriu muito espaço para essa demanda, nada é em vão.”
Como apresentar o Islã aos brasileiros
Para Vania, o trabalho de apresentação do Islã precisa partir das características da própria sociedade brasileira.
“O povo brasileiro é um povo com uma fé imensa. Me orgulho muito disso.”
Diante desse perfil, ela considera que uma das primeiras questões a serem apresentadas é a unicidade de Deus.
“Primeiramente eu explicaria a unicidade de Deus aos meus conterrâneos. E mostraria como seguir os caminhos dos Ahl al Bayt a.s.”
Ela também acredita que os próprios brasileiros que encontraram o Islã podem desempenhar um papel importante nesse processo.
Para Vania, conhecer histórias reais de pessoas que passaram por uma transformação religiosa pode aproximar o público brasileiro do Islã.
“Sem dúvida, visualizar alguém que mudou totalmente para agradar e servir a Deus, seria um ótimo exemplo a seguir.”
Mas há outro aspecto que considera fundamental: mostrar que a conversão não significa abandonar a própria identidade cultural.
“E o mais importante, mostrar que não perdemos nossa essência uma vez que mudamos nossa religião.”
Ainda há muito espaço para atividades no Brasil
Na avaliação de Vania, o maior acesso à informação criou novas oportunidades para atividades culturais, educacionais e religiosas voltadas ao público brasileiro.
“Penso eu que uma vez que o povo brasileiro tem mais acesso às informações, o campo está mais aberto.”
Ao mesmo tempo, ela ressalta novamente a necessidade de ampliar o trabalho especificamente voltado aos brasileiros.
Para ela, esse processo pode incluir produção de conteúdo, tradução, atividades educativas e iniciativas culturais.
O papel das mulheres brasileiras muçulmanas
Vania considera que as próprias mulheres brasileiras muçulmanas possuem uma posição importante nesse processo.
Para ela, viver como muçulmana no Brasil já constitui uma forma de apresentar a religião à sociedade.
“Somente o fato de ser muçulmana e viver no Brasil já é um grande trabalho.”
Além disso, as mulheres podem colaborar diretamente na divulgação de iniciativas e na produção de conteúdo.
“Talvez ajudando na divulgação dos trabalhos que serão desenvolvidos, traduções e etc.”
Educação e desafios das novas gerações
Como pedagoga e mãe, Vania também chama atenção para os desafios enfrentados pelas famílias na educação das crianças e dos jovens.
Na sua avaliação, os pais precisam manter um diálogo aberto com os filhos e ajudá-los a compreender as ideias e valores que encontram na sociedade.
Ela considera que existe uma disputa de narrativas em torno da formação dos jovens e defende que os pais muçulmanos não devem deixar os filhos sem orientação.
“A luta é explícita.”
Para Vania, é necessário conversar abertamente com os jovens e apresentar-lhes uma compreensão crítica das ideias que recebem.
“Nós, pais muçulmanos temos que ter um diálogo mais que aberto com nossos filhos.”
Questionada sobre um possível projeto educacional para crianças e jovens brasileiros, ela destaca especialmente aqueles que enfrentam situações de abandono e falta de apoio familiar.
“Na minha opinião qualquer que seja o projeto, o jovem e criança precisam sempre de apoio.”
Entre as possibilidades, ela menciona iniciativas relacionadas a orfanatos e a crianças e adolescentes abandonados pela família.
“Mostrar que sem um caminho ninguém chega a lugar algum.”
Um conselho para quem busca respostas
Para uma jovem brasileira que esteja procurando respostas espirituais e tentando compreender melhor o sentido da vida, Vania oferece uma mensagem baseada na perseverança.
“Diria para não desistir, a trajetória é árdua, mas Deus honra no final.”
Ela também recomenda que essas pessoas procurem apoio em outros muçulmanos.
“Diria também para se apoiar em outros muçulmanos, todos estão prontos para ajudar, e ter muita paciência.”
Essa recomendação está diretamente relacionada à própria experiência de Vania, que considera sua trajetória uma longa caminhada de aprendizado.
O que aprendeu vivendo entre diferentes povos
Depois de viver no Brasil, na Turquia e atualmente no Irã, Vania afirma ter aprendido muito com as pessoas que encontrou ao longo do caminho.
Ela conheceu pessoas que se tornaram exemplos positivos e outras cuja conduta lhe ensinou aquilo que não deveria seguir.
“Vi pessoas que tomei como exemplo e decidi ser como eles, e ao mesmo tempo encontrei pessoas das quais me ensinaram o que realmente é mal.”
Para ela, até mesmo as experiências negativas podem produzir aprendizado.
“Nisso há uma grande lição.”
Sua atitude diante dessas experiências é procurar aprimorar o próprio caráter e a própria religião.
“Tento olhar para as facilidades que tenho, aprimorar meu caráter e religião.”
O que diria à jovem Vania de 2001
Se pudesse voltar ao ano de 2001, quando tinha apenas 17 anos e entrou pela primeira vez na Mesquita Muhammad Rasul'Allah, Vania não diria àquela jovem que deveria ter feito escolhas diferentes, mas que deveria ter aprendido mais cedo o valor da paciência.
“Eu cometi vários erros por não ter tido paciência.”
Naquele período, acreditava que poderia resolver qualquer situação desde que estivesse preparada.
“Sempre achei que eu poderia resolver tudo se estivesse preparada.”
A experiência, entretanto, ensinou-lhe outra coisa: confiar no tempo e na vontade de Deus.
“Mas ao longo dessa jornada percebi que existe um destino que Deus já preparou muito antes de nascermos.”
E resume o aprendizado:
“Aprendi a esperar em Deus e aceitar o que Ele tem pra mim.”
“Eu encontrei no Islã o código de vida que eu precisava”
Ao final da entrevista, Vania é convidada a olhar para toda a sua trajetória: a jovem brasileira que buscava respostas, a conversão aos 17 anos, o casamento, a maternidade, os anos vividos na Turquia e a atual vida em Mashhad.
Sua resposta é marcada pela gratidão.
“Sou sem dúvida imensamente abençoada.”
Ela compara a mulher que é hoje com aquela jovem que pegava um ônibus lotado, chegava atrasada ao trabalho e carregava dúvidas e desilusões.
“Há uma enorme diferença naquela menina que pegava o ônibus lotado e sempre chegava atrasada no serviço, cheia de dúvidas e desilusões, na serva que visita o Imam a.s sete dias na semana.”
Mas a trajetória também foi marcada por experiências extremamente difíceis.
Vania relata ter enfrentado separações, doenças, traições e decepções. Entre as experiências mais dolorosas, menciona a perda de quatro filhos.
Ela também conta que, no ano passado, passou 23 dias em uma UTI e esteve perto da morte.
“A vida me mostrou separações, doenças, traições, decepções, perdi 4 filhos, fiquei 23 dias na UTI no ano passado e quase morri.”
Diante de tantas experiências, Vania afirma que não sabe como teria conseguido superar tudo sem a base religiosa que procurava desde muito jovem.
“Eu nunca conseguiria superar se não tivesse essa base religiosa que eu procurava desde sempre.”
A resposta final de sua trajetória, portanto, não está apenas na conversão religiosa, mas na maneira como passou a compreender a própria existência.
“Agradeço à Deus por tudo.”
Para Vania, o Islã lhe ofereceu aquilo que procurava desde a juventude: uma estrutura para compreender a vida, as dificuldades, o sofrimento e o próprio destino.
“Eu encontrei no Islã o código de vida que eu precisava.”
Hoje, ela afirma compreender melhor por que veio a esta vida, por que passou e continua passando por determinadas experiências e qual é seu destino depois da morte.
“Hoje eu sei porque vim para essa vida, entendo porque passei e passo por tantas coisas, e o melhor, sei para onde irei quando morrer.”
E encerra sua trajetória com uma frase que resume o sentido de toda a entrevista:
“Aprendi o valor da vida.”
14 setembro 2026 - 15:56
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Depois de mais de duas décadas como muçulmana, Vania Ghisolfi avalia as transformações na percepção do Islã no Brasil, fala sobre educação e o papel das mulheres brasileiras muçulmanas e relembra as experiências mais difíceis de sua vida. Para ela, o Islã tornou-se o “código de vida” que lhe permitiu compreender sua existência e enfrentar as adversidades.
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