Agência de Notícias AhlulBayt (ABNA) – Em meio à intensificação das tensões políticas e de segurança no Oriente Médio e ao aumento das disputas em torno dos programas nuclear e de mísseis do Irã, os movimentos diplomáticos do regime sionista — especialmente a visita de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro desse regime, aos Estados Unidos — têm sido acompanhados com grande atenção por observadores regionais e internacionais.
A visita ocorreu em um momento em que parecia haver divergências entre Washington e Tel Aviv quanto à natureza, ao alcance e aos custos de uma eventual confrontação com o Irã. No entanto, após o encontro entre Trump e Netanyahu, o presidente dos Estados Unidos ameaçou que, caso o Irã busque retomar seu programa nuclear ou acelerar e desenvolver seu programa de mísseis, será submetido a um ataque militar.
Nesse contexto, a Agência de Notícias ABNA abordou o tema em um diálogo analítico com o professor Khaled Hussein, catedrático de Física Nuclear da Universidade Libanesa e presidente do Centro de Consultorias Estratégicas no âmbito da segurança da energia nuclear, renovável e solar no Líbano.
Com uma abordagem científica e estratégica, ele analisou os objetivos reais dessa visita, as alegações dos Estados Unidos e as transformações no equilíbrio de dissuasão após a chamada “guerra dos doze dias”.
Preocupações estratégicas de Israel e a visita de Netanyahu aos Estados Unidos
O professor Khaled Hussein afirmou que a visita de Benjamin Netanyahu aos Estados Unidos ocorre em um momento em que Israel enfrenta uma profunda preocupação estratégica — inquietação que, após a experiência da chamada “guerra dos doze dias” e a incapacidade de alcançar uma vitória decisiva ou estabelecer uma dissuasão duradoura, se intensificou de forma sem precedentes.
Ele explicou que o principal objetivo dessa visita não é uma ação diplomática rotineira, mas um esforço para reconectar a segurança de Israel à tomada de decisões diretas dos Estados Unidos, arrastando Washington a atuar como fiador ou até mesmo como parceiro indireto em qualquer possível confrontação com o Irã.
As declarações de Trump e a realidade do programa nuclear do Irã
Hussein acrescentou que as afirmações feitas por Donald Trump sobre a “revitalização” ou a “paralisação” do programa nuclear do Irã possuem muito mais apelo político do que respaldo técnico e científico. Segundo ele, a infraestrutura nuclear iraniana baseia-se em instalações diversas, dispersas e altamente protegidas, localizadas em profundidades geográficas e em estruturas geológicas complexas, o que torna irrealista falar em destruição completa ou em cessação definitiva desses programas.
Ele prosseguiu afirmando que o máximo resultado militar nesse âmbito seria causar danos superficiais e temporários, que o Irã é capaz de reparar em curto prazo.
Mudança de foco de Israel para o programa de mísseis do Irã
O especialista estratégico destacou que a mudança de foco de Israel do dossiê nuclear para o programa de mísseis do Irã constitui uma escolha calculada.
Segundo ele, Tel Aviv compreendeu que justificar um ataque ao programa nuclear — que, de forma relativa, está sob supervisão internacional — é difícil; por isso, enfatizar a suposta ameaça do programa de mísseis, especialmente seus alcances de longo alcance, facilita atrair a sensibilidade e o apoio político e jurídico dos Estados Unidos e da Europa.
Ele observou que essa abordagem foi concebida com o objetivo de induzir uma “ameaça transregional”, embora, em essência, a principal preocupação de Israel decorra da sinergia entre as capacidades de mísseis e nuclear do Irã no âmbito de uma equação unificada de dissuasão.
Limitações militares de Israel e as capacidades do Irã
Khaled Hussein acrescentou que os Estados Unidos, especialmente durante a era Trump, não demonstram grande disposição para assumir os custos de uma confrontação direta e de alto risco com o Irã, uma vez que tal enfrentamento provavelmente não permaneceria limitado e poderia se expandir em nível regional ou até mesmo transregional.
Segundo ele, Washington está plenamente ciente de que o Irã possui elevada capacidade de suportar pressões, prolongar o conflito e administrar uma guerra de desgaste, enquanto Israel, em razão de suas limitações geográficas, da fragilidade de seu front interno e da sensibilidade ao fator tempo, não dispõe dessa mesma capacidade.
Redução do papel do poder militar direto e a emergência de um novo ator na região
O catedrático universitário ressaltou que a admissão, por parte de alguns analistas e especialistas israelenses, da relativa ineficácia dos sistemas de defesa antimísseis diante de ataques amplos e simultâneos constitui um indicativo relevante da mudança gradual no equilíbrio de dissuasão.
Ele explicou que nenhum sistema defensivo, mesmo o mais avançado, é imune a um alto volume de lançamentos de mísseis em múltiplos eixos, e que os desenvolvimentos recentes demonstraram a vulnerabilidade da profundidade territorial de Israel diante de tais cenários.
Hussein enfatizou que a experiência da chamada “guerra dos doze dias” e a capacidade do Irã de reconstruir rapidamente suas capacidades de mísseis colocaram seriamente em dúvida a eficácia da opção militar israelense.
Segundo ele, qualquer nova ação militar teria um efeito de curta duração e poderia inclusive levar à ampliação do alcance da crise, em vez de contê-la. Precisamente essa realidade levou os Estados Unidos a incentivar Israel a limitar seus objetivos ao âmbito geográfico imediato e a evitar o ingresso em uma confrontação abrangente com o Irã.
Ele concluiu afirmando que, na etapa vindoura, o papel do poder militar direto nas equações regionais será reduzido, dando lugar à gestão de equilíbrios, pressões políticas e instrumentos econômicos.
Na avaliação desse analista estratégico, o Irã tornou-se um ator determinante na equação de dissuasão regional e até mesmo internacional, e qualquer erro de cálculo poderia abrir caminho para uma crise de grandes proporções, cujas consequências seriam extremamente difíceis de controlar.
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