ABNA Brasil — No fundo do meu coração, eu torcia para que ninguém o advertisse. Claro, quem sabia que ele era “filho do sheik” não dizia nada. Meu medo eram aqueles que não sabiam.
De uma ponta à outra da hussainiya, ele corria rindo com seu novo amigo.
Ninguém sabia o quanto eu tinha sonhado com momentos como aqueles.
Até ontem mesmo, quando íamos à hussainiya, ele ficava deprimido. Sentava num canto e começava a ladainha do “vamos embora, vamos embora”.
Isso, quando aceitava ir. Porque quase sempre, quando eu dizia:
— “Mohammad Hassan, vamos à hussainiya?”
ele se opunha. E se fosse, quem ousaria cumprimentá-lo? Ele gritava e chutava.
Eu já tinha ultrapassado a fase da vergonha. Aos poucos, todos entenderam que era melhor não falar com ele.
Uma vez fomos por necessidade. Eu queria que o pai dele rezasse a oração para depois nos levar para casa. Na porta, ele disse:
— “Mamãe, vamos pra casa!”
E começou a chorar. Jogou-se no chão, colou o rosto no piso e fez o maior escândalo.
No fim, prometi que ele poderia ver carros no celular para convencê-lo a entrar.
Mesmo assim, passou toda aquela meia hora reclamando e andando sobre os meus nervos.
Desde aquela época, muitas vezes eu tinha vontade de ir, mas Mohammad Hassan não queria — e eu havia reconhecido a soberania do meu filho de três anos. Não íamos. Ficávamos em casa. Principalmente agora que a irmã mais nova estava ameaçando o seu “reinado”, eu cuidava ainda mais do coração dele.
No começo, eu insistia bastante. Olhava para o meu próprio desejo. Até que, um dia, pensei: por que ele não gosta de ir?
O mundo das pessoas é muito complexo — mesmo quando são crianças.
O que concluí foi o seguinte: desde que ele tinha um ano, nós o levávamos lá. Ele é uma criança clara. Olhos, sobrancelhas, nariz, até os lábios — tudo muito harmonioso. Tem cílios longos como os das meninas e lábios vermelhos.
Desde pequeno vivia no mundo dele, mas todos os olhares se voltavam para ele. Algo que sua personalidade não aceitava. Até os dois anos, ele não entendia. Mas depois, quando entrava e era recebido por inúmeros olhares encantados, beijos e abraços, algo agressivo se ativava dentro dele.
Além disso tudo, pensei comigo mesma: ele é uma criança. E criança vai aonde se diverte.
Então, sem drama, eu o deixei em paz.
Mas naquela noite era a noite do nascimento de Qamar Banī Hāshim.
Com a desculpa do chocolate, ele aceitou ir. Eu tinha dito que era festa, que teria doces e chocolates.
Eles mesmos ajudaram. Estávamos na oração quando um menino chegou com um carrinho na mão, e Mohammad Hassan, espontaneamente, trocou o carrinho dele com o do menino.
O gelo se quebrou. Aos poucos, com mais duas meninas, formaram um grupo de quatro e a brincadeira de carrinhos começou. Mesmo com toda a minha atenção voltada para ele, eu me ocupei conversando. Por isso, quando as crianças pegavam o carrinho dele e ele vinha sentar ao meu lado chateado, eu não reagia. Nem olhava. Ele resolveu a situação sozinho — e foi ali que começou a verdadeira diversão.
Fomos duas noites seguidas.
Brincava tanto que à noite caía de cansaço.
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