Agência Internacional AhlulBayt (A.S.) – ABNA Brasil: Hojjatoleslam Mohammad Hossein Amin, escritor e pesquisador religioso, em um artigo exclusivo para a ABNA, explica o papel da confiança em Deus na era das guerras modernas:
No caos dos acontecimentos e na turbulência das notícias preocupantes, entre o medo do amanhã e a esperança de alívio, existe apenas uma âncora capaz de conduzir o espírito agitado à tranquilidade. Este texto é um convite à releitura do conceito de “tawakkul”, não como uma palavra fria, mas como um caminho claro para transformar ansiedades instintivas em confiança divina no coração das crises contemporâneas.
O surgimento da tranquilidade no horizonte das inquietações
O mundo sempre gira em torno da mudança e da transformação, e não há como escapar de seus acontecimentos inevitáveis. Em uma época em que a sombra da guerra e as oscilações econômicas tiram o sono de muitas pessoas, encontrar um sentido para a vida que vá além do material não é uma escolha, mas uma necessidade vital.
O ser humano sem apoio é como uma palha diante de um vendaval: treme a cada notícia e desmorona diante de cada rumor.
Mas na rica cultura do islamismo xiita não existe impasse, porque “Ele” existe.
Confiar em Deus não significa isolamento ou passividade, mas sim conectar a vontade limitada do ser humano ao poder ilimitado do Criador.
Quando sabemos que o “Administrador” do universo é um Deus sábio e misericordioso, uma chama de tranquilidade se acende dentro de nós — uma chama que nenhuma tempestade pode apagar.
O Imam Ja'far al-Sadiq disse:
“A riqueza e a dignidade estão em busca de um lugar; quando encontram o lugar da confiança em Deus, ali permanecem.”
Ou seja, a verdadeira tranquilidade não está nas contas bancárias, mas no coração que confia em Deus.
A fronteira entre o medo natural e o desespero
É necessário distinguir entre “medo natural” e “desespero”.
Sentir medo diante de explosões ou preocupação com a inflação é uma reação humana natural, presente até mesmo nos servos mais próximos de Deus. O que é condenável é perder a esperança em Deus e sentir que não há saída.
O crente pode se preocupar, mas nunca perde a esperança, porque sabe que a solução está nas mãos de Deus.
O Alcorão afirma:
“Isso é apenas o Satanás que tenta amedrontar seus seguidores; não temam a eles, mas temam a Mim, se forem crentes.”
Assim, a confiança em Deus significa que, mesmo agindo com responsabilidade e planejamento, o coração não deve se apegar apenas às causas materiais, mas sim ao Criador de todas as causas.
Se os preços aumentam ou a guerra se intensifica, não devemos esquecer que o verdadeiro Sustentador e Protetor está além de todos os cálculos humanos.
O desespero é, na verdade, uma negação do poder de Deus — e isso é o maior perigo em tempos de crise.
Confiança em Deus: sabedoria prática ou isolamento passivo?
Alguns pensam, erroneamente, que confiar em Deus significa abandonar o esforço e esperar milagres. No entanto, na prática dos Imames (a.s.), a confiança está sempre ligada à ação.
O Profeta Muhammad (s.a.a.s.) disse a um homem que havia deixado seu camelo solto:
“Amarre o camelo e depois confie em Deus.”
Ou seja, a confiança não substitui o عقل e o esforço, mas os completa e orienta.
Em tempos de crise econômica, confiar em Deus nos ensina a viver com moderação, evitar o desperdício e ajudar uns aos outros, sem nos consumirmos pela ansiedade do futuro.
Essa visão reduz significativamente a pressão psicológica causada pelo medo do fracasso.
O Alcorão afirma:
“E quem confia em Deus, Ele lhe é suficiente.”
Quem acredita nisso não sacrifica sua dignidade por ganhos materiais.
A confiança em Deus é, na verdade, uma forma de gestão espiritual das crises, que fortalece o ser humano diante das dificuldades.
O segredo da permanência em tempos difíceis
A história do xiismo está repleta de momentos em que seus seguidores enfrentaram as maiores pressões, mas permaneceram firmes graças à confiança em Deus.
Hoje, em meio às guerras midiáticas e econômicas que afetam a mente das pessoas, retornar a esse princípio pode salvar a sociedade do desespero e da depressão.
A tranquilidade é o bem mais perdido do ser humano moderno — e só pode ser encontrada na lembrança de Deus.
O Alcorão nos lembra:
“Não é Deus suficiente para Seu servo?”
Essa não é uma pergunta de reprovação, mas um convite aberto para todos aqueles que estão sobrecarregados pelas dificuldades.
Se realmente nos entregarmos a Deus, Ele será suficiente para tudo — na paz e na guerra, na riqueza e na dificuldade.
Conclusão
A confiança em Deus é uma habilidade espiritual que precisa ser praticada.
A cada oração, a cada caridade em tempos difíceis, a cada sorriso em meio às dificuldades com esperança na graça divina, estamos fortalecendo essa dimensão espiritual.
O refúgio da confiança em Deus é uma porta sempre aberta — e nenhuma sanção ou crise pode impedir nossa entrada nesse espaço de segurança.
Fontes
- Al-Kafi, vol. 2, p. 65
- Alcorão, Surata Aal Imran, versículo 175
- Makarim al-Akhlaq, p. 448
- Alcorão, Surata At-Talaq, versículo 3
- Alcorão, Surata Az-Zumar, versículo 36
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