4 abril 2026 - 13:37
Ética na sala de guerra do xiismo: da genealogia dos mísseis de precisão às bombas cegas

Em um tempo em que as consciências despertas do mundo sofrem ao ver os escombros de hospitais e o lamento de mães em Gaza, a releitura da escola defensiva do xiismo revela a diferença fundamental entre um poder libertador e a barbárie de uma dominação opressiva.

Agência Internacional AhlulBayt (A.S.) – ABNA: Hojjatoleslam Mohammad Hossein Amin, escritor e pesquisador religioso, em um artigo exclusivo, analisa os princípios jurídicos e éticos da guerra no Islã e explica as diferenças fundamentais entre a doutrina defensiva do Irã e as ações do regime sionista.


Princípios celestiais no campo de batalha: o Profeta proibiu até cortar árvores

O Islã é uma religião de paz, segurança e convivência. Contudo, quando a espada dos opressores é levantada e não resta alternativa senão a defesa legítima, o Islã estabelece, mesmo no campo de batalha, os mais nobres e humanos códigos de ética.

O Profeta Muhammad (s.a.a.s.), ao enviar os exércitos, antes de tudo estabelecia um padrão de humanidade e dignidade, para que a coragem jamais se confundisse com crueldade. Ele definia claramente os limites de uma guerra justa, para que a vitória não ultrapassasse os limites da justiça divina.

Nesta escola divina, ao contrário das estratégias modernas de “terra arrasada”, a agressão contra a natureza e contra civis é uma linha vermelha intransponível.

O Profeta disse:

“Não matem idosos, nem crianças, nem mulheres… e não cortem árvores, exceto se for absolutamente necessário.”

Essa visão misericordiosa contrasta fortemente com os bombardeios indiscriminados que hoje sufocam a vida humana e a própria terra em Gaza.

Seguindo essa mesma linha, o Imam Ali ibn Abi Talib (a.s.), durante a batalha de Siffin, ordenou a seus companheiros que jamais iniciassem o combate e que, após a vitória, não perseguissem fugitivos nem atacassem feridos, concedendo-lhes segurança.

Essa prática demonstra que, na jurisprudência xiita, o objetivo nunca justifica os meios, e que nem mesmo diante dos piores inimigos é permitido ultrapassar os limites da ética e dos direitos fundamentais.


A diferença entre nossos mísseis e as bombas deles

O mundo atual testemunha um contraste evidente no campo de batalha.

De um lado, há um regime que, com armas avançadas fornecidas pelo Ocidente, atinge deliberadamente hospitais, escolas e abrigos de refugiados, sem qualquer consideração ética. O regime sionista demonstrou, em Gaza e no Líbano, que não reconhece limites morais, religiosos ou internacionais, baseando-se apenas na lógica da violência e da destruição.

Do outro lado, está uma das maiores potências de mísseis e drones da região — a República Islâmica do Irã — que, segundo aliados e adversários, possui armas altamente precisas, mas jamais direcionou essas armas contra civis.

A fatwa histórica que proíbe a produção e o uso de armas nucleares e de destruição em massa está enraizada nessa tradição ética. O Irã não busca tais armas, não por incapacidade, mas porque sua doutrina considera o assassinato indiscriminado de inocentes um pecado imperdoável.

A diferença entre um míssil de precisão que atinge alvos militares e bombas que caem sobre crianças é a diferença entre duas visões de mundo opostas:
uma baseada em racionalidade, cálculo e responsabilidade ética;
outra baseada em violência, brutalidade e ausência de limites morais.

Os mísseis representam dissuasão e resposta ao agressor;
as bombas indiscriminadas refletem incapacidade e covardia diante do confronto direto.

Essa distinção expõe ainda mais a contradição dos discursos de direitos humanos no cenário internacional.


Racionalidade revolucionária: poder para libertar, não para dominar

Os adversários frequentemente tentam apresentar o fortalecimento defensivo do Irã como “expansionismo” ou “dominação”. No entanto, o conceito real é o de racionalidade revolucionária.

Nesse modelo, o poder militar não é utilizado para dominar territórios ou explorar nações, mas para criar um equilíbrio e impedir a agressão de forças opressoras.

O fortalecimento não é um instrumento de dominação, mas uma forma de proteção da dignidade e da independência.

A defesa da Palestina e o apoio aos oprimidos de Gaza não são apenas estratégias políticas, mas princípios fundamentais dessa visão.

O Imam Ali ibn Abi Talib disse:

“Sejam inimigos do opressor e aliados do oprimido.”

Esse ensinamento é o eixo da política e da visão estratégica dessa doutrina: não é possível permanecer indiferente diante do sofrimento dos oprimidos.


Conclusão

A racionalidade revolucionária ensina que, em um mundo marcado pela força e pela dominação, a verdadeira paz só pode ser garantida pela força baseada em princípios.

O fortalecimento militar, nesse contexto, não visa expandir conflitos, mas impedir guerras e proteger a sociedade.

Essa força não representa ameaça para os povos da região, mas sim um fator de equilíbrio e segurança contra projetos de destruição e instabilidade.

É um poder construído não para dominar, mas para resistir —
não para oprimir, mas para defender.

Fontes e referências

[1] Al-Kulaini, Muhammad ibn Ya‘qub, Al-Kafi, Teerã: Dar al-Kutub al-Islamiyya, 4ª edição, 1407 H., vol. 5, p. 29, hadith 1 (narração do Imam Ja‘far al-Sadiq sobre o Profeta Muhammad a respeito da ética na guerra).

[2] Al-Sharif al-Radi, Muhammad ibn al-Husayn, Nahj al-Balagha (edição de Subhi al-Salih), carta 14 (das recomendações do Imam Ali ibn Abi Talib aos seus soldados antes do confronto em Siffin: “Não matem quem foge, não ataquem os incapacitados e não acabem com os feridos…”).

[3] Al-Sharif al-Radi, Muhammad ibn al-Husayn, Nahj al-Balagha (edição de Subhi al-Salih), carta 47 (testamento do Imam Ali ibn Abi Talib a Hasan ibn Ali e Husayn ibn Ali após ser ferido).

Tags

Your Comment

You are replying to: .
captcha