Agência Internacional AhlulBayt (A.S.) – ABNA Brasil: No mundo complexo de hoje, por vezes o termo “jihad” se encontra envolto em distorções e mal-entendidos, de modo que o Islã é apresentado como uma religião agressiva e belicista. No entanto, o Sagrado Alcorão, este livro de orientação, traça fronteiras claras entre “defesa legítima” e “agressão”, e considera a verdadeira vitória pertencente aos defensores oprimidos que não iniciam a guerra, mas se mantêm firmes diante da agressão.
Explicação do jihad defensivo
1. O princípio fundamental: “Não transgridam”
O ponto central dessa visão é o versículo 190 da Surata Al-Baqara:
“E combatam, no caminho de Deus, aqueles que vos combatem, e não transgridam; certamente Deus não ama os transgressores.”
Este versículo estabelece uma regra fundamental: combater só é permitido contra quem inicia o combate. Ao mesmo tempo, qualquer forma de transgressão, mesmo no campo de batalha, é considerada reprovável diante de Deus. A expressão “não transgridam” constitui uma linha vermelha que impede o muçulmano de se tornar agressor. Nessa visão, a vitória só tem valor quando é alcançada no caminho da defesa da verdade, e não por meio do início de uma nova injustiça.
2. A lei da reciprocidade: o limite entre justiça e agressão
O Alcorão enfatiza a justiça mesmo diante do inimigo:
“Portanto, quem vos agredir, agredi-o na mesma medida em que vos agrediu.”
Aqui, a expressão “responder na mesma medida” significa uma resposta dentro dos limites da defesa, sem ultrapassar o limite. Este versículo ensina a lógica da resistência proporcional: não iniciar a agressão e não ultrapassar os limites ao se defender. Tal abordagem não transforma a guerra em instrumento de dominação ou demonstração de poder, mas a mantém no âmbito da defesa da vida e da integridade.
(Nossa nação, graças à prática do Islã puro de Muhammad (s.a.a.s.), tanto no campo do jihad político quanto no campo do jihad militar, possui coesão, iniciativa, ordem e princípios corretos.)
3. A primeira autorização para a guerra foi defensiva
Outro ponto importante é que o Alcorão concedeu a primeira permissão para a guerra não para ataque, mas para defesa:
“Foi concedida permissão àqueles que são combatidos, porque foram injustiçados; e certamente Deus é capaz de auxiliá-los.”
Nesta passagem, o termo “são combatidos” demonstra claramente que o início da guerra partiu do outro lado, e que os crentes apenas assumem a posição de defesa. Deus afirma que Seu auxílio acompanhará esses defensores oprimidos. Portanto, a promessa divina de vitória está vinculada à defesa legítima, e não à agressão.
4. As tradições dos Imames: rejeição ao início da guerra
Esse ensinamento corânico também se reflete amplamente na prática e nas palavras dos Imames:
1. Proibição de desejar o confronto com o inimigo
O Mensageiro de Deus (s.a.a.s.) disse:
“Não desejem encontrar o inimigo e peçam a Deus proteção; porém, quando o encontrarem, permaneçam firmes, lembrem-se muito de Deus, e se eles gritarem e fizerem alarde, mantenham o silêncio.”
Este hadith demonstra claramente que a cultura islâmica se baseia na paz e na evitação da guerra, e que apenas diante de uma agressão inevitável recomenda-se firmeza.
2. A prática de Imam Ali (a.s.)
O Comandante dos Fiéis, Ali (a.s.), disse:
“No passado, eu não combatia o povo de Nahrawan até que eles iniciaram o combate contra mim.”
Isso demonstra que, mesmo diante de opositores internos, ele evitava iniciar a guerra e só combatia após a agressão.
3. A rejeição da injustiça
Em outro hadith do Imam Ja’far al-Sadiq (a.s.), lemos:
“Deus ama o perdão e detesta a agressão e a injustiça.”
Esse ensinamento mostra que a rejeição da agressão tem origem nos próprios atributos divinos, e que a cultura islâmica é baseada na moderação e na rejeição da injustiça.
(O inimigo, quando percebe fraqueza, é incentivado a atacar; quando percebe força, mesmo que pretenda atacar, é obrigado a reconsiderar. Por isso o Alcorão diz: “Preparai-vos para causar temor ao inimigo de Deus e vosso inimigo”; essa preparação tem como objetivo garantir a segurança do país. Por isso, por um período diziam repetidamente que “a opção militar está sobre a mesa”; hoje, essa frase já não se repete com a mesma força, tornou-se fraca e sem valor, pois perceberam que não tem sentido — e isso se deve às vossas capacidades.)
Conclusão
O conjunto dos versículos e das tradições apresenta uma imagem clara da lógica defensiva do Islã. Nessa visão, aquilo que tem valor diante de Deus é a firmeza diante da injustiça e a defesa dos oprimidos, e não o início da agressão ou a expansão da guerra. O Alcorão, por meio de expressões como “não transgridam” e “combatam aqueles que vos combatem”, estabelece claramente os limites, e a tradição profética e alida os concretiza na prática.
Portanto, quando o Alcorão fala de jihad, refere-se à defesa legítima diante de agressores, e a verdadeira vitória pertence àqueles que trilham esse caminho. Sim, a vitória pertence ao defensor, não ao agressor — e este é o segredo da permanência da mensagem do Islã ao longo da história.
Referências
- Alcorão, Surata Al-Baqara, versículo 190
- Alcorão, Surata Al-Baqara, versículo 194
- Declarações do Líder Supremo da Revolução Islâmica, o mártir Ayatollah Ali Khamenei (1997/03/03)
- Alcorão, Surata Al-Hajj, versículo 39
- Kanz al-‘Ummal, hadith nº 10905
- Nahj al-Balagha, sermão 122
- Al-Kafi, vol. 2, p. 108
- Declarações do Líder Supremo da Revolução Islâmica, o mártir Ayatollah Ali Khamenei (2023/08/17)
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