Agência Internacional de Notícias Ahlulbayt (ABNA): A questão da relação entre fé e razão é um dos temas mais fundamentais na filosofia da religião e na teologia, e sempre foi formulada de diferentes maneiras nas várias tradições religiosas. Algumas tradições enfatizam a primazia da razão na formação da fé, enquanto outras consideram a fé como o ponto de partida de todo entendimento religioso. Uma das abordagens mais importantes nesse campo é o fideísmo, que encontrou especial destaque na teologia cristã e se manifestou em várias formas, desde a negação do papel da razão até a primazia da fé sobre o entendimento racional. Em contraste, na tradição islâmica, especialmente no kalam xiita, a razão ocupa uma posição central no conhecimento religioso, e a fé sem algum tipo de julgamento racional não é considerada válida. Portanto, examinar o conceito de fideísmo, suas raízes no cristianismo e sua crítica do ponto de vista islâmico pode mostrar claramente a diferença entre dois modelos de conhecimento religioso.
Primeiro Ponto: O Fideísmo na Teologia Cristã
O fideísmo (Fideism) é uma abordagem na filosofia da religião e na teologia segundo a qual a fé religiosa tem um papel mais fundamental do que a razão no conhecimento religioso. De acordo com essa visão, o acesso às verdades religiosas é basicamente independente da razão ou, pelo menos, impossível sem uma fé inicial. O fideísmo apareceu na tradição cristã em várias formas e graus.
Uma das formas de fideísmo na teologia cristã é a visão segundo a qual as proposições religiosas não estão sujeitas à avaliação e julgamento racional, e sua aceitação se baseia na confiança da fé, e não no raciocínio filosófico. Por exemplo, quando se diz “nós temos fé na existência de Deus e em Seu amor pela humanidade”, o significado é que essas crenças são aceitas puramente com base na fé, e não com base em provas racionais. Até mesmo tentar provar ou refutar essas crenças por meio da razão pode ser considerado algo que prejudica a fé. (1) Nessa abordagem, a fé é um compromisso existencial e pessoal no qual as avaliações racionais não desempenham um papel essencial na sua formação ou continuidade. (2)
Esse tipo de fideísmo pode ser observado nas obras de alguns pensadores cristãos primitivos, como Tertuliano, que em uma frase famosa disse: “O que Atenas tem a ver com Jerusalém?”; ou seja, que relação a razão filosófica grega tem com a fé cristã? (3) Nessa leitura, existe uma tensão ou até mesmo um confronto entre fé e razão.
Outra forma de fideísmo na teologia cristã, mais moderada e filosófica, é atribuída a Agostinho e seus seguidores. Agostinho, ao contrário dos fideístas radicais, não negava o papel da razão na religião e apresentava argumentos racionais para os ensinamentos cristãos; porém, ao mesmo tempo, acreditava que a razão, sem uma fé inicial, não é capaz de compreender os significados profundos da religião. Seu famoso lema “Creia para entender” refere-se exatamente a isso: o entendimento religioso se forma dentro de um horizonte de fé. (4)
Do ponto de vista de Agostinho, fé e razão estão em uma relação dialética: o ser humano começa com a fé e depois se esforça para tornar sua fé mais profunda e razoável por meio do pensamento racional. No entanto, em casos de conflito entre a razão filosófica e os ensinamentos da Bíblia, ele finalmente considerava a fé como a referência final. (5)
Em geral, pode-se dizer que a difusão do fideísmo no cristianismo está bastante relacionada à estrutura da teologia cristã e a alguns de seus ensinamentos fundamentais, como a Trindade, a Encarnação e a Redenção — doutrinas que, do ponto de vista de muitos teólogos cristãos, estão além da capacidade de prova ou compreensão completa pela razão humana e só são aceitáveis no horizonte da fé. (6)
Segundo Ponto: Crítica ao Fideísmo e a Abordagem Islâmica
Na tradição islâmica, especialmente no kalam xiita, a relação entre fé e razão é formulada de forma diferente. No Islã, a razão não está em oposição à fé, mas é reconhecida como uma das fontes válidas de conhecimento religioso, ao lado do Alcorão e da Sunna. Muitos versículos do Alcorão enfatizam o raciocínio, a reflexão e a contemplação (7), e nas tradições também a razão é apresentada como a “prova interior” do ser humano. (8)
Do ponto de vista islâmico, a fé é um ato voluntário e consciente (9), e o ser humano tem o dever de escolher sua religião por meio do pensamento e do conhecimento. Por isso, naquilo que diz respeito aos princípios da religião, a imitação (taqlid) não é aceita, e cada indivíduo deve chegar, de forma resumida e racional, à veracidade do Tawhid, da Profecia e da Ressurreição. (10) Portanto, o princípio da fé no Islã se baseia em um julgamento racional, e não em mera confiança ou compromisso sem razão.
É claro que no Islã também existem ensinamentos que a razão sozinha não é capaz de compreender em seus detalhes, como muitos atributos do mundo do Além ou a qualidade exata dos atributos divinos. Nestes casos, o ser humano aceita esses ensinamentos devido à confiança que previamente adquiriu de forma racional no Profeta e nas fontes da revelação; mas essa aceitação, ao contrário do fideísmo cristão, baseia-se em uma fé anterior racional, e não em oposição à razão.
Em outras palavras, no Islã existe uma hierarquia cognoscitiva: primeiro, a razão valida o princípio da religião e a fonte da revelação; depois, a fé na revelação prepara o terreno para a aceitação de ensinamentos supra-racionais. Essa situação é semelhante à confiança em um médico: primeiro, o ser humano verifica a competência do médico com critérios racionais e, depois, confia em seu diagnóstico nos detalhes do tratamento.
Portanto, a diferença fundamental entre o Islã e o fideísmo cristão é que, no Islã, a fé não está separada da razão e, mesmo em nível fundamental, não é considerada válida sem um julgamento racional; enquanto que em muitas interpretações cristãs, a fé é vista como o ponto de partida do conhecimento religioso e, às vezes, como oposta à razão.
Conclusão
O exame do fideísmo mostra que a diferença entre o cristianismo e o Islã nesse campo não é apenas uma diferença verbal ou superficial, mas tem raízes em dois modelos diferentes de conhecimento religioso. Em muitas interpretações cristãs, a fé é considerada o ponto de partida do conhecimento religioso e a condição para compreender a verdade, com a razão desempenhando um papel secundário ou complementar. Já na tradição islâmica, a fé desde o início deve se basear em um discernimento racional e, sem ele, não é considerada válida. Embora em ambas as tradições existam ensinamentos que estão além do alcance da razão, a diferença essencial está no fato de que, no Islã, a aceitação desses ensinamentos se baseia em uma fé que, por sua vez, se alimenta da razão. Por isso, pode-se dizer que o Islã não é contra a fé nem contra a razão, mas oferece um modelo de “fé racional” no qual razão e fé estão em uma relação complementar.
Fontes para estudo adicional:
- Peterson, Michael e outros. Razão e Crença Religiosa. Tradução de Ahmad Naraqi e Ebrahim Soltani. Teerã: Nashr-e Tarh-e Now, 6ª ed., 1388 sh, p. 78.
- Copleston, Frederick. História da Filosofia. Tradução de Dariush Ashuri. Teerã: Publicações Científicas e Culturais, 1367 sh, vol. 7, p. 85.
- Gottlieb, Anthony. O Sonho da Razão: História da Filosofia Ocidental da Grécia ao Renascimento. Tradução de Leila Sazgar. Teerã: Qoqnos, 1ª ed., 1384 sh, pp. 506 e 510.
- Russell, Bertrand. História da Filosofia. Tradução de Najaf Daryabandari. Teerã: Companhia de Livros de Bolso, 4ª ed., 1353 sh, vol. 2, pp. 93-94.
- Tabataba’i, Muhammad Husayn. Al-Mizan fi Tafsir al-Qur’an. Beirute: Mu’assasat al-A’lami lil-Matbu’at, 1352 sh, vol. 9.
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