Hojatolislã Mohammad Hossein Amin, escritor e pesquisador religioso, escreveu especialmente para a ABNA sobre o olhar das tradições islâmicas a respeito da “bênção em tempos de aperto”. Confira:
Barakah: A alquimia invisível da vida
Para o crente, a vida não é apenas uma equação matemática entre o que entra e o que sai do bolso. Às vezes você vê alguém que tem muito e, num piscar de olhos, fica sem nada. Outro, porém, tem pouco, mas parece haver uma fonte jorrando dentro daquilo que possui. Esta é exatamente a significado de Barakah: estabilidade, crescimento e abundância no que, à primeira vista, parece limitado.
Barakah é o selo de Deus colocado sobre nossos bens modestos para que, no meio das dificuldades, não curvemos a cabeça.
No entendimento da Revelação, Barakah não significa necessariamente ter muito em quantidade física, mas possuir um bem permanente e abençoado. Como disse Imam Ali (a.s.): “A bênção está na riqueza de quem paga o zakat.” Ou seja, quando você separa uma parte do seu pouco para os outros, Deus concede ao que resta uma qualidade tão especial que cobre todas as suas necessidades. É como se o tempo e o espaço se submetessem à Barakah.
Em palavras simples, Barakah significa suficiência. Nos apertos econômicos, o que salva o ser humano não é necessariamente acumular bens, mas atrair o olhar generoso do Criador. A Barakah é um exército divino enviado para proteger o pouco que você tem contra perdas, gastos desnecessários e deterioração, e para lhe dar uma dimensão espiritual que nenhuma balança material consegue medir.
Mesas pequenas, sombra longa da graça divina
As narrativas de nossos Imames enfatizam que Deus distribui o sustento conforme as intenções, não apenas pelo esforço físico. O Profeta Muhammad (s.a.a.s.) disse: “A comida de uma pessoa basta para duas.”
Esta é uma orientação preciosa para tempos de crise: quando o espírito de generosidade e solidariedade domina uma sociedade, os recursos atuais — mesmo sob pressão — tornam-se suficientes para todos.
A dificuldade, no olhar dos Imames infalíveis, é uma oportunidade para a manifestação do poder de Deus. Quando o servo, no auge da dificuldade, em vez de reclamar, continua no caminho da obediência, Allah lhe envia o sustento de onde ele menos espera. Este é o sentido do versículo: “E Ele o sustentará por onde não imagina.” (Sura At-Talaq, 65:3)
Barakah, nesse estado, é ver brotar, no meio das pedras da pobreza, uma flor de tranquilidade e independência do coração — que protege a pessoa de se humilhar diante dos poderosos e dos ricos.
A experiência mostra que, em famílias que giram em torno da moderação e da lembrança de Deus, até um pão seco é comido com prazer e saúde. Já em palácios vazios da lembrança de Deus, a grande riqueza se gasta no tratamento de dores incuráveis e ansiedades sem fim.
As chaves celestiais para as aberturas terrenas
A pesquisa nos textos religiosos nos leva a uma verdade clara: a Barakah não chega por acaso. Uma das maiores chaves para atrair bênção em tempos de escassez é o istighfar (pedir perdão a Deus). Imam Ali (a.s.) diz: “Peçam perdão ao vosso Senhor, pois Ele é o mais Perdoador… Ele enviará do céu chuvas copiosas sobre vós.”
A segunda chave é acordar cedo e ter organização na vida. As tradições afirmam que a Barakah é distribuída ao amanhecer. Quem se levanta ao alvorecer em busca de um sustento lícito, coloca-se diante da brisa da misericórdia divina.
E por fim, a chave mais poderosa: a gratidão no momento da necessidade. O Sagrado Alcorão é claro: “Se sois gratos, certamente vos aumentarei.” (Sura Ibrahim, 14:7)
Esse “aumento” nem sempre significa mais números na conta. Muitas vezes significa maior proveito, durabilidade e qualidade do que já se possui. Quando o servo, mesmo na dificuldade, abre a boca para louvar seu Senhor, Allah se orgulha dele diante dos anjos e faz a Barakah correr nas veias de sua vida.
Em resumo: O pouco que tem a bênção de Deus vale mais que o muito que não a tem. Porque onde está a Barakah, há estabilidade, paz, suficiência e proteção — tesouros que o dinheiro sozinho jamais pode comprar.
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