21 setembro 2026 - 16:40
A tranquilidade depende da nossa vida ou da maneira como olhamos para ela?

A tranquilidade espiritual não depende apenas das condições externas da vida, mas também da maneira como interpretamos o mundo e compreendemos nossa própria existência. Diante das dificuldades, duas visões de mundo podem produzir percepções profundamente diferentes: uma que considera a existência limitada ao nascimento e à morte, e outra que entende o universo como uma criação dotada de propósito e a vida como um caminho de aperfeiçoamento.

A tranquilidade espiritual está relacionada, antes de tudo, à nossa maneira de pensar, à nossa visão de mundo e à forma como interpretamos o universo em que vivemos. A questão fundamental é saber se acreditamos que nossa existência está ligada, em ambos os lados, ao “nada” e ao silêncio absoluto, de modo que, depois da morte, todo o nosso ser desaparece e deixa de existir; ou se consideramos o universo como obra de uma Inteligência Suprema, que o criou com um propósito determinado e o conduz continuamente na direção desse propósito.

Por que algumas pessoas conseguem manter a serenidade mesmo diante das situações mais difíceis?

Essas perguntas não dão descanso à mente humana: por que algumas pessoas conseguem preservar a tranquilidade mesmo na prisão, diante da morte e até diante da forca ou da guilhotina, enquanto outras, vivendo em palácios luxuosos e dispondo de todos os recursos materiais, parecem inquietas e perturbadas?

Por que algumas pessoas, diante de pequenas adversidades, imediatamente recorrem ao suicídio, enquanto outras permanecem firmes como uma montanha diante dos acontecimentos mais difíceis da vida?

Por que algumas pessoas, mesmo tendo membros do corpo comprometidos ou enfrentando outras privações dolorosas, continuam alegres, enquanto outras, sem nenhuma dessas dificuldades e aparentemente sem motivo, vivem em sofrimento e angústia?

Todas essas perguntas — como muitas outras — parecem ter uma resposta fundamental: nossa tranquilidade espiritual está relacionada, antes de tudo, à nossa maneira de pensar, à nossa visão de mundo e à forma como interpretamos o universo em que vivemos.

Na filosofia, aprendemos que nossos “estados espirituais” e nossas “atividades externas” têm origem nas “imagens mentais” que formamos. Amor, ódio, preocupação, ansiedade, medo, tranquilidade e todos os tipos de atividade e esforço físico surgem depois que determinadas imagens aparecem em nossa mente.

Mesmo quando essas imagens mentais não correspondem exatamente à realidade objetiva, elas ainda podem produzir seus efeitos sobre nós. A realidade objetiva, por si só — quando não é refletida em nossa mente — não se transforma em causa de efeitos físicos ou de ações voluntárias.

Para compreender melhor essa relação entre nossa tranquilidade ou ansiedade espiritual e nossa maneira de pensar, podemos comparar duas visões de mundo.

A primeira visão

Uma pessoa materialista pode pensar da seguinte maneira: nossa existência está ligada, em ambos os lados, ao nada e ao silêncio absoluto. Antes de entrarmos nesta vida, não éramos mais do que um conjunto disperso de matérias orgânicas e minerais. E nosso destino futuro não será melhor, pois, depois da morte, todo o nosso ser desenvolvido — nosso cérebro poderoso, nossos pensamentos brilhantes, nossas emoções elevadas e nossos sentimentos intensos, que avançam como belas bolhas sobre o mar da vida e refletem em si o arco-íris do sol da existência — desaparecerá completamente.

O que restará de nós?

Nada. Simplesmente nada.

Apenas um punhado de terra e gases dispersos pelo espaço?

Diante da morte, seríamos como um comerciante que vê todo o seu patrimônio ser queimado diante de seus olhos e, depois, é ele próprio consumido pelas chamas.

Questões como túmulos luxuosos, boa reputação, placas de homenagem, monumentos, coroas de flores, estátuas de personagens históricos e coisas semelhantes seriam apenas criações destinadas a enganar a nós mesmos e produzir uma falsa sensação de permanência e continuidade da existência.

Afinal, quando nos tornarmos “nada”, que efeito essas coisas poderão ter sobre nós?

Depois da morte, o que seremos para poder sentir prazer, satisfação ou orgulho diante dessas cerimônias sem vida?

Talvez, enquanto estamos vivos, imaginar que tais títulos e homenagens existirão depois de nossa morte possa nos consolar. Mas, certamente, naquele momento, nada disso terá qualquer efeito sobre nós.

Esses títulos e homenagens parecem ter sido criados para iludir os vivos e levá-los a trabalhar, esforçar-se e fazer sacrifícios maiores, e não por causa de uma realidade ou como recompensa para aqueles que morreram. Afinal, os mortos podem receber alguma dessas recompensas?

É como colocar milhares de alimentos coloridos e utensílios de banquete ao redor de um cadáver. Que benefício ele poderá obter de tudo isso?

Francamente, nessa visão, nossa chegada a este mundo pareceria não compensar os sofrimentos enfrentados.

Passamos alguns anos sendo frágeis e ignorantes; antes mesmo de experimentar plenamente as alegrias da juventude, chegam a velhice, a fraqueza, as privações e as doenças, transformando-nos em alguém afastado da sociedade. E, finalmente, todo o conhecimento, toda a ciência e toda a riqueza que acumulamos precisam ser deixados para trás enquanto caminhamos rumo ao nada absoluto e desaparecemos nas ondas assustadoras desse “mar de trevas”, como um sonho que passa rapidamente pela mente de uma criança.

Além disso, durante os poucos dias em que temos consciência da existência, se possuirmos sensibilidade, estaremos sujeitos ao sofrimento ao testemunhar milhares de formas de injustiça e discriminação.

Uma pessoa não tem sequer alimento, enquanto outra, antes mesmo de nascer, já é cercada por milhares de cuidados para protegê-la das adversidades da vida.

Se existe algum tipo de ordem ou justiça, por que algumas pessoas morrem de fome ou perdem a vida diante das portas dos hospitais, enquanto outras possuem tanta riqueza que nem sabem como gastá-la?

Alguns chegam a realizar coisas absurdas apenas para se desfazer de suas fortunas, como comprar um selo postal por uma quantia exorbitante ou deixar grandes somas para seus cães e gatos de estimação, tornando-os donos de enormes riquezas.

Por que as doenças ceifam cruelmente crianças inocentes e pessoas que prestam serviços à sociedade, enquanto alguns ladrões e saqueadores vivem em meio a festas e celebrações?

A lei determinista de causa e efeito, segundo essa visão, governa todo o nosso ser — e, na realidade, todo o universo — com uma rigidez inflexível. O verdadeiro governante do mundo seria essa lei cega, surda, sem compaixão e sem justiça.

Não apenas nossa história individual, mas toda a história da humanidade pareceria ter sido escrita desde o princípio e executada como uma peça teatral sem qualquer alteração. Estaríamos presos nas garras desse destino, sem possuir a menor capacidade de escolha.

Ninguém sequer pergunta — e, se perguntar, não haverá quem responda — por que viemos para cá e por que partimos daqui.

Nossa chegada não foi consultada conosco, e nossa partida também não será.

Não. Nessa perspectiva, a natureza cega e surda não possui objetivo algum: iniciou um jogo sem sentido e, depois, simplesmente o encerra.

É difícil, dentro dessa concepção filosófica, imaginar uma pessoa materialista que não pense de alguma forma nos termos descritos acima.

O medo e a ansiedade provocados por esse tipo de pensamento são compreensíveis. Naturalmente, os adeptos dessa visão podem tentar pensar o mínimo possível sobre essas questões e manter-se constantemente ocupados com a vida e com diferentes formas de entretenimento, de modo que não tenham tempo para tais reflexões.

Mas, assim que encontram alguns momentos para pensar, as ondas intensas dessas ideias podem voltar a atingi-los.

A segunda visão

Existe, porém, uma segunda maneira de compreender a existência.

O belo projeto que chamamos de “universo” seria obra de uma Inteligência Suprema, que o criou com um propósito específico e o conduz continuamente na direção desse objetivo.

Essa Fonte maior, por ser a origem de toda existência e de todo poder, naturalmente não necessita de nós. Pelo contrário, teria criado o ser humano para um propósito elevado: o aperfeiçoamento.

Uma origem com essas características seria, naturalmente, infinitamente benevolente para conosco.

Não nos foram dadas inúmeras possibilidades para viver melhor? Não fomos cercados por incontáveis bênçãos?

Sim. Fomos criados para a vida e para o aperfeiçoamento, e também recebemos os meios necessários para alcançá-los.

Se enfrentamos dificuldades, isso pode ocorrer por não conhecermos adequadamente as leis da criação e as amplas possibilidades que nos foram concedidas, ou por não utilizarmos essas possibilidades.

Por exemplo, conhecendo as leis da natureza e utilizando os recursos disponíveis, podemos construir edifícios tão seguros que os terremotos tenham efeitos mínimos sobre eles.

Da mesma forma, utilizando princípios de higiene, recursos de saúde e propriedades terapêuticas dos medicamentos, podemos criar condições de vida nas quais doenças e deficiências possam ser amplamente prevenidas ou tratadas.

Assim, parte dessas destruições, tragédias e deficiências seria resultado de nossas próprias ações.

As injustiças sociais, por sua vez, poderiam estar relacionadas a sistemas inadequados de distribuição e organização social. Com a transformação desses sistemas, muitas dessas injustiças poderiam ser reduzidas ou eliminadas, permitindo que mais pessoas desfrutassem dos benefícios da vida.

Afinal, não somos como rodas e engrenagens de uma máquina, obrigados a executar movimentos determinados.

Somos nós que, dispondo de livre-arbítrio, traçamos planos corretos ou incorretos para nossa vida e fazemos uso adequado ou inadequado das oportunidades e bênçãos que recebemos.

O “destino”, entendido como um mecanismo rígido e automático, não seria correto. Da mesma forma, a ideia de um “determinismo histórico” nesse sentido também seria equivocada; caso se fale em destino ou determinismo, esses conceitos precisariam ser interpretados de outra maneira.

Nossa existência estaria ligada, em ambos os lados, à eternidade, e o processo de desenvolvimento de nossa existência não seria interrompido pela morte.

Em vez da palavra assustadora “morte”, poderíamos falar em “transição para um mundo mais amplo” — um mundo que estaria para este assim como este mundo está para o ventre materno.

Dessa maneira, a morte não significaria perder tudo.

Naturalmente, não conhecemos todos os mistérios da existência. Sabemos, porém, que, quanto mais avançamos no conhecimento e na ciência, mais claramente aparecem diante de nós a estrutura, a beleza e a delicadeza do universo.

Com base nisso, não haveria razão para supor que o habilidoso Criador desse sistema tivesse cometido a menor desordem ou injustiça contra nós.

Toda a existência dos seres humanos que vivem na Terra seria como uma gota de água no bico de um pássaro.

Se esse pássaro voasse e deixasse cair essa pequena gota em um oceano infinito, que diferença essa gota faria para o oceano?

Por isso, não teríamos sido criados para servir a uma necessidade da Fonte maior da existência. Pelo contrário, teríamos sido criados para alcançar nossa própria felicidade.

Qual visão proporciona tranquilidade?

Neste momento, não estamos discutindo qual dessas duas concepções é filosoficamente correta ou qual delas deve ser rejeitada.

A questão é outra: independentemente dos argumentos filosóficos, qual dessas duas maneiras de pensar pode proporcionar uma tranquilidade real, e qual delas pode mergulhar o ser humano em um mundo de pessimismo, desconfiança, ódio, desespero e sensação de solidão?

A resposta, segundo o texto, é clara.

Diante de uma escolha entre duas concepções de mundo capazes de exercer tamanha influência sobre nosso destino, podemos permanecer indiferentes? Ou não deveríamos, pelo menos, examinar cuidadosamente os argumentos apresentados pelos defensores de cada uma dessas visões sobre a existência?

A relação entre corpo, mente e fé

O texto termina citando uma declaração atribuída a Ernst Adolf, apresentado como um conhecido médico e cirurgião.

Segundo a citação, suas experiências o teriam levado à conclusão de que, além de tratar o corpo doente por meio da medicina e da cirurgia, seria necessário fortalecer a alma por meio da fé em Deus. Ele afirma que tanto sua confiança nos medicamentos e na cirurgia quanto sua fé em Deus estariam fundamentadas em bases científicas.

A experiência mencionada também é relacionada ao crescente interesse da medicina pelos fatores psicológicos envolvidos nas doenças.

O texto afirma, citando a obra A Prova da Existência de Deus, que uma parcela significativa dos pacientes que procuravam médicos nas grandes cidades dos Estados Unidos apresentava algum fator psicológico relevante. Afirma ainda que muitos desses pacientes não apresentavam manifestações físicas suficientes para explicar seus sintomas.

Segundo a fonte citada no artigo, isso não significaria que essas pessoas estivessem “fingindo” ou que suas doenças fossem imaginárias. Elas seriam consideradas realmente doentes, embora a origem de seus problemas estivesse relacionada a fatores psicológicos.

Entre os fatores mencionados estão a culpa, o ressentimento, a dificuldade de perdoar, o medo, a ansiedade provocada por fracassos e privações, a indecisão, a dúvida e a depressão.

O texto acrescenta que alguns profissionais, ao investigar as causas dessas enfermidades, poderiam deixar de considerar a fé em Deus por não compartilharem dessa crença.

Fonte: Compilação do livro O Enigma da Existência, de Nasser Makarem Shirazi, publicado pela Nasl-e Javan, em Qom, 1386 do calendário persa, 16ª edição, p. 56. O artigo também cita A Prova da Existência de Deus, de Monsma, John Clover, tradução de Ahmad Mojtahedi, Shafaq, Tabriz, 1345 do calendário persa, 3ª edição, p. 252.

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