30 março 2026 - 08:57
Da busca pela justiça à ruptura das normas: qual é o critério alavita?

O Comandante dos Fiéis, Ali ibn Abi Talib (a.s.), durante seu período de governo, enfrentou três fenômenos distintos na sociedade: protestos pacíficos, tumultos e fitnas (hā’ishāt) e ataques surpresa (ghārāt). A análise de como ele lidou com cada uma dessas situações revela um modelo de governo, baseado em princípios sólidos, que oferece lições valiosas para a sociedade contemporânea.

Agência Internacional AhlulBayt (A.S.) – ABNA Brasil: Durante seu califado, o Imam Ali (a.s.) enfrentou três desafios diferentes: protestos civis, tumultos (hā’ishāt) e ataques terroristas (ghārāt). Diferentemente de abordagens uniformes, ele adotava respostas específicas e proporcionais para cada situação — desde tolerância com os manifestantes até repressão firme contra os agitadores e defesa corajosa do povo. Esse modelo de governo não apenas preservava os direitos dos cidadãos, como também garantia a segurança pública, sendo ainda hoje uma referência para a gestão de crises.


Definição dos conceitos: protesto, tumulto e ataque — e suas diferenças

Protestos

São a expressão de oposição ou insatisfação individual ou coletiva em relação a políticas ou situações sociopolíticas. Geralmente são pacíficos, têm objetivos claros e buscam mudanças por meio do diálogo. Um exemplo são os slogans públicos dos kharijitas na mesquita, que o Imam tolerou.


Tumultos (hā’ishāt / fitna)

O tumulto ou fitna ocorre quando protestos populares se transformam em violência e caos. Na jurisprudência xiita, o termo “hā’ish” refere-se a situações em que, durante a desordem, alguém causa ferimentos ou morte a outro por medo repentino. No uso comum, também significa confusão, anarquia e desordem social.


Ataques (ghārāt)

São ataques armados e surpresa, geralmente com o objetivo de saquear, matar e espalhar terror. Diferentemente dos protestos, que possuem مطالب civis, os ataques não possuem conteúdo social legítimo e baseiam-se exclusivamente em violência e pilhagem. No tempo do Imam Ali, um exemplo desses ataques foram as investidas de Busr ibn Artat sob o comando de Muawiya ibn Abi Sufyan contra territórios sob seu governo.


De forma resumida, esses três fenômenos podem ser colocados em um espectro:
protesto (pacífico e civil) – tumulto/fitna (caótico e violento) – ataque (agressivo, armado e organizado).
A prática governamental do Imam Ali (a.s.) demonstra que a resposta a cada um desses cenários deve ser diferente.


Tolerância com os protestos civis

O Imam Ali (a.s.) protegia os manifestantes enquanto não recorressem à violência. Ele não reprimia aqueles que apenas criticavam suas políticas ou expressavam opiniões divergentes. Estava comprometido com a liberdade de expressão e com os direitos básicos dos cidadãos.

Por exemplo, quando um grupo de opositores — após as distorções políticas posteriores ao califado de عثمان — protestava abertamente contra ele na mesquita de Kufa e até se recusava a participar de suas orações الجماعة، ele nunca os prendeu nem os puniu. Além disso, ao contrário do esperado por alguns, nunca cortou seus direitos financeiros do tesouro público.

Ele fazia uma distinção clara entre oposição política e direitos civis. Enquanto não houvesse uso de armas ou derramamento de sangue, o grupo mantinha todos os seus direitos. Portanto, a prioridade era a segurança social, e os conflitos eram tratados por meio de diálogo e argumentação.

O Imam dialogou repetidamente com os líderes dos protestos e enviou figuras como Abdullah ibn Abbas para esclarecê-los. O objetivo sempre foi convencer por meio da razão, e não reprimir pela força.

Sua linha vermelha era clara:
“Enquanto vocês não levantarem a espada nem derramarem sangue, nada faremos contra vocês.”
Essa frase pode ser considerada uma verdadeira carta de liberdade de expressão em seu governo.


A conduta do Imam Ali (a.s.) diante dos tumultos e fitnas

Quando protestos pacíficos se tornavam violentos, a situação mudava. Com a formação de grupos armados e atos como o assassinato de inocentes — como o caso de Abdullah ibn Khabbab e sua esposa grávida — a situação deixava de ser um simples protesto e passava a ser uma fitna.

Nessas circunstâncias, o Imam Ali (a.s.), como líder, considerava sua principal responsabilidade proteger a vida e os bens da população. Os agitadores violavam o direito à segurança, e o governo não podia permanecer em silêncio.

Mesmo assim, antes do confronto, ele tentou evitar a guerra. Levantou uma bandeira branca e anunciou que qualquer um que abandonasse o conflito estaria seguro. Isso demonstra que seu objetivo era encerrar a violência com o menor custo possível.

Após o esgotamento das tentativas de paz e a insistência de alguns na guerra, o Imam enfrentou-os com firmeza na batalha de Nahrawan e reprimiu a fitna — não para silenciar opiniões, mas para restaurar a segurança.


A conduta do Imam Ali (a.s.) diante dos ataques (ghārāt)

Os ataques eram ofensivas militares organizadas, geralmente conduzidas pelas forças de Muawiya, como as de Busr ibn Artat, contra territórios do Imam. O objetivo não era conquistar, mas saquear, matar e espalhar terror — semelhantes aos ataques terroristas modernos.

Diante desse tipo de agressão, não havia espaço para tolerância ou negociação. A resposta do Imam era defesa total e reação proporcional.

Após o ataque à cidade de Anbar, no qual os agressores arrancaram à força os adornos de uma mulher, o Imam disse:

“Se um muçulmano morrer de tristeza por esse acontecimento, não há reprovação sobre ele.”

Isso demonstra seu profundo senso de responsabilidade. Em seguida, ele mobilizou suas forças para enfrentar os invasores, afirmando que a agressão não poderia ficar sem resposta.


Conclusão

O conjunto das ações do Imam Ali (a.s.) apresenta um modelo claro de governo baseado em princípios:
tolerância com protestos pacíficos, firmeza contra tumultos violentos e defesa decisiva contra ataques externos.

Esse modelo preserva simultaneamente os direitos dos cidadãos e a segurança da sociedade.


Fonte:

Site Tebyan

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