ABNA Brasil — Entre as fontes narrativas islâmicas, existem três cartas de compromisso atribuídas ao Imam Ali (a.s.). A mais extensa e famosa é a Carta a Mālik al-Ashtar, registrada como a Carta nº 53 do Nahj al-Balāgha.
A segunda carta consiste em um conjunto de diretrizes éticas e políticas, redigidas por ocasião da nomeação de Muhammad ibn Abi Bakr como governador do Egito, no início do ano 37 da Hégira, sendo identificada como a Carta nº 27 do Nahj al-Balāgha.
A terceira carta foi dirigida a Makhnif ibn Sulaym no momento de sua designação para a arrecadação de impostos, constando como a Carta nº 26 do Nahj al-Balāgha. As três cartas, além de citadas em fontes históricas, também foram reunidas no sétimo volume da coleção “Tamām Nahj al-Balāgha”.
Um ponto histórico relevante é que a carta dirigida a Muhammad ibn Abi Bakr, escrita de próprio punho pelo Imam Ali (a.s.), juntamente com outras cartas enviadas a ele, foi levada ao Egito após o martírio de Mālik al-Ashtar. Mu‘āwiya, considerando esses escritos como diretrizes “científicas e úteis”, atribuiu-os falsamente a Abu Bakr, o primeiro califa, alegando que teriam sido escritos por ele para seu filho. Esses documentos permaneceram nos arquivos governamentais até que, durante o governo de ‘Umar ibn ‘Abd al-‘Azīz, foram colocados à disposição dos estudiosos.
Conteúdo geral da carta
O conteúdo desta carta pode ser dividido, de modo geral, em duas categorias principais:
diretrizes éticas e diretrizes governamentais.
1. Diretrizes éticas
Na parte ética da carta, o Imam Ali (a.s.) enfatiza a transitoriedade da vida mundana, a lembrança constante da morte, o temor do fogo do Inferno, a piedade diante de Deus e a centralidade da oração.
Como exemplo, o Imam (a.s.) afirma:
«صَلِّ الصَّلاةَ لِوَقْتِهَا الْمُوَقَّتِ لَهَا، وَلا تُعَجِّلْ وَقْتَهَا لِفَرَاغٍ، وَلا تُوَخِّرْهَا عَنْ وَقْتِهَا لاِشْتِغَالٍ. وَاعْلَمْ أَنَّ کُلَّ شَیْءٍ مِنْ عَمَلِکَ تَبَعٌ لِصَلاتِکَ»
Ou seja: Cumpre a oração em seu tempo determinado; não a antecipes por causa do ócio, nem a retardes devido à ocupação, e sabe que todas as tuas ações estão subordinadas à tua oração.
Essa passagem demonstra que a oração é o eixo regulador de toda a conduta pessoal, social e administrativa do governante.
2. Diretrizes governamentais
Nos trechos iniciais da carta, o Imam Ali (a.s.) enfatiza a brandura, a tolerância social, a cordialidade, o bom caráter e até mesmo o equilíbrio no modo de olhar e tratar as pessoas. O resultado dessa conduta deve ser tal que nem os poderosos se sintam encorajados a praticar injustiça, nem os fracos desesperem da justiça do governante:
«واخْفِضْ لَهُمْ جَنَاحَکَ، وَأَلِنْ لَهُمْ جَانِبَکَ، وَابْسُطْ لَهُمْ وَجْهَکَ، وَآسِ بَیْنَهُمْ فِی اللَّحْظَةِ وَالنَّظْرَةِ، حَتَّی لا یَطْمَعَ الْعُظَمَاءُ فِی حَیْفِکَ لَهُمْ، وَلایَیْأَسَ الضُّعَفَاءُ مِنْ عَدْلِکَ عَلَیْهِمْ»
Ou seja: Estende sobre eles as asas da misericórdia, sê afável no trato, mostra um semblante aberto e trata a todos com igualdade, até mesmo no olhar, para que os poderosos não cobicem tua injustiça em favor deles, nem os fracos percam a esperança na tua justiça.
O critério da atenção ao povo: a satisfação divina
É evidente que o eixo dessa atenção ao povo deve ser a busca da satisfação de Deus, limitada pelo respeito aos mandamentos divinos, para que o governante não sacrifique os princípios religiosos em troca da aprovação popular.
Nesse sentido, o Imam Ali (a.s.) adverte no final da carta:
«وَلا تُسْخِطِ اللهَ بِرِضَی أَحَدٍ مِنْ خَلْقِهِ، فَإِنَّ فِی اللهِ خَلَفاً مِنْ غَیْرِهِ، وَلَیْسَ مِنَ اللهِ خَلَفٌ فِی غَیْرِهِ»
Ou seja: Jamais provoques a ira de Deus para agradar a alguém de Suas criaturas, pois em Deus há substituição para tudo, mas nada pode substituir Deus.
Sayyid Ali-Asghar Hosseini
ABNA
Your Comment