A feitiçaria e a magia referem-se a um conjunto de crenças e práticas nas quais uma pessoa (geralmente chamada de mago ou feiticeiro) utiliza supostos poderes espirituais ou naturais para provocar mudanças no mundo ao seu redor. Essas mudanças podem incluir a influência sobre eventos naturais, a cura de doenças, a atração do amor ou até mesmo causar danos a outras pessoas.
A magia costuma basear-se em crenças e tradições culturais específicas e pode ser classificada em diferentes tipos, entre eles:
- Magia branca: o praticante utiliza supostos poderes mágicos para fins positivos, como cura, apoio e proteção.
- Magia negra: o praticante recorre à magia para fins negativos, como prejudicar outras pessoas ou controlá-las.
- Magia natural: envolve o uso de elementos da natureza, como plantas, pedras e outros recursos naturais, aos quais se atribuem propriedades mágicas.
Esses conceitos são interpretados de maneiras distintas na literatura, na arte e em diferentes culturas; em algumas sociedades são vistos com respeito, enquanto em outras geram medo e desconfiança.
Como fenômeno cultural, a feitiçaria e a magia, em certos contextos, ajudam as pessoas a lidar com o desconhecido e com dificuldades da vida, oferecendo-lhes uma sensação de controle sobre o destino. Contudo, ainda que ocasionalmente possam gerar efeitos psicológicos temporários, na maioria das vezes não produzem resultados positivos e acabam expondo os indivíduos a prejuízos materiais e morais, sobretudo pela atuação de pessoas oportunistas.
A feitiçaria e a magia na jurisprudência islâmica
Surge então a questão: qual é o significado da feitiçaria e da magia no fiqh islâmico? Na jurisprudência islâmica, o contato e o uso teórico ou prático de espíritos, gênios (jinn) e demônios são denominados, no sentido linguístico e jurídico, de siḥr (feitiçaria). A feitiçaria, a magia, os talismãs e práticas como “fechar a sorte” são considerados realidades existentes; contudo, a sua prática é proibida (ḥarām) no Islã.
A realidade da feitiçaria nas versículos do Alcorão
No Alcorão Sagrado, a feitiçaria e a magia são temas abordados de forma clara e explícita. Diversos versículos fazem referência a elas e analisam suas consequências. Entre eles:
1. Surata al-Baqarah (2), versículo 102
«وَاتَّبَعُوا مَا تَتْلُو الشَّيَاطِينُ عَلَىٰ مُلْكِ سُلَيْمَانَ ۖ وَمَا كَفَرَ سُلَيْمَانُ وَلَٰكِنَّ الشَّيَاطِينَ كَفَرُوا يُعَلِّمُونَ النَّاسَ السِّحْرَ»
“E seguiram o que os demônios recitavam no reino de Salomão. Salomão não descrera, mas os demônios descreram, ensinando a feitiçaria às pessoas.”
Em outra parte do mesmo versículo, aprender e praticar feitiçaria é equiparado à incredulidade:
«فَلَا تَكْفُرْ فَيَتَعَلَّمُونَ مِنْهُمَا مَا يُفَرِّقُونَ بِهِ بَيْنَ الْمَرْءِ...»
A separação entre marido e esposa é apresentada como uma obra satânica e algo que se aproxima da incredulidade.
2. Surata al-Falaq (113), versículo 4
«وَمِنْ شَرِّ النَّفَّاثَاتِ فِي الْعُقَدِ»
“E contra o mal das sopradoras nos nós.”
Um dos significados atribuídos às nafathāt (sopradoras) é a prática de feitiçaria; por isso, tanto o seu ensino quanto a sua prática são proibidos.
3. Surata Yūnus (10), versículo 77
«قَالَ مُوسَىٰ أَتَقُولُونَ لِلْحَقِّ لَمَّا جَاءَكُمْ أَسِحْرٌ هَٰذَا وَلَا يُفْلِحُ السَّاحِرُونَ»
Moisés (a.s.) disse: “Acaso chamais de magia a verdade que vos chegou? E saibam que os feiticeiros jamais prosperam.”
Um ponto importante é que, geralmente, a feitiçaria é praticada por pessoas moralmente desviadas, em busca de prestígio ou ganho material. Por isso, os inimigos dos profetas recorriam a essa acusação para desacreditá-los perante o povo.
No versículo 79 da mesma surata, menciona-se a convocação dos magos por Faraó:
«وَقَالَ فِرْعَوْنُ ٱئْتُونِي بِكُلِّ سَاحِرٍ عَلِيمٍ»
“E Faraó disse: trazei-me todo feiticeiro habilidoso.”
Ele pretendia, com a ajuda dos magos, neutralizar o movimento divino de Moisés (a.s.).
4. Surata Ṭā-Hā (20), versículos 68–69
«وَأَلْقِ مَا فِي يَمِينِكَ تَلْقَفْ مَا صَنَعُوا ۖ إِنَّمَا صَنَعُوا كَيْدُ سَاحِرٍ وَلَا يُفْلِحُ السَّاحِرُ حَيْثُ أَتَىٰ»
“Lança o que tens na mão direita: ela devorará o que eles fizeram. O que fizeram é apenas artimanha de feiticeiro, e o feiticeiro jamais terá êxito, onde quer que vá.”
Esses versículos demonstram que a feitiçaria existiu como uma realidade histórica, especialmente na época dos profetas, em particular do Profeta Moisés (a.s.), e evidenciam seus perigos, consequências e impactos sociais. No Alcorão, a feitiçaria é claramente apresentada como uma prática condenável e ilícita, da qual os seguidores do Islã são expressamente advertidos a se afastar.
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