ABNA Brasil — A Carta nº 31 do Nahj al-Balāgha foi escrita pelo Imam Ali (a.s.) no retorno da Batalha de Ṣiffīn, durante uma permanência temporária na região chamada “Ḥāḍirīn”. Sayyid al-Raḍī registrou partes desse longo testamento na Carta nº 24 e outra parte na Carta nº 31 do Nahj al-Balāgha.
Este trecho, conhecido como “o testamento do Imam Ali (a.s.) a seu filho Imam Hasan (a.s.)”, é considerado uma das mais extensas cartas do Nahj al-Balāgha, ficando atrás apenas do pacto de Mālik al-Ashtar. Outra característica relevante desse testamento é sua transmissão em numerosos livros de hadith e tradição, como Uṣūl al-Kāfī e Tawḥīd al-Ṣadūq entre as fontes xiitas, bem como o Musnad de Ahmad ibn Hanbal entre as fontes sunitas.
Se colocarmos as palavras afetuosas e o tom paternal presentes nesse testamento — frequentemente iniciadas com «أَیْ بُنَیَّ» (Ó meu filho) — ao lado do famoso hadith no qual o Mensageiro de Deus (s.a.a.s.) afirmou:
«أَنَا وَ عَلِیٌّ أَبَوَا هَذِهِ اَلْأُمَّةِ»
(Eu e Ali somos os pais desta comunidade),
podemos considerar esse texto como o testamento do Imam Ali (a.s.) para todos os seus filhos espirituais, especialmente os xiitas, ao longo da história. Assim, qualquer pessoa pode se reconhecer como destinatária dessas palavras e lê-las como o testamento de seu próprio pai, sobretudo porque muitos de seus conteúdos são recomendações fundamentais que todo pai amoroso e preocupado faz a seu filho.
Embora não seja possível analisar todos os aspectos dessa carta neste texto, ao observarmos seus eixos principais de forma sintética, podemos dizer que ela constitui um curso completo de monoteísmo, compreensão da religião, ética, escatologia e caminhada espiritual rumo a Deus. O estudo da história dos povos anteriores, a reflexão profunda sobre a religião, a necessidade de paciência e perseverança diante das dificuldades, acompanhadas da confiança em Deus e da entrega dos assuntos a Ele, estão entre os temas fortemente enfatizados nesse testamento.
A necessidade de contato constante com o Livro de Deus, o conhecimento do lícito e do ilícito divinos, a imitação da tradição dos crentes, o afastamento das ambiguidades religiosas, juntamente com advertências contra qualquer tipo de desvio da verdade, e a ênfase em seguir o Profeta do Islã (s.a.a.s.) — destacando sua posição singular na orientação da humanidade, de modo que “ninguém chega a lugar algum sem segui-lo” — são outros temas centrais desta carta.
As recomendações éticas baseadas na consciência individual nas relações sociais, expressas em frases como “tomar a si mesmo como critério de julgamento” e “desejar para os outros o que se deseja para si”, bem como o afastamento do egocentrismo e a ênfase no serviço às pessoas como provisão essencial para a Outra Vida, também constituem partes importantes desse testamento paternal.
A importância da súplica (du‘ā’) é outra das recomendações do Imam Ali (a.s.), expressa nesta passagem:
«وَ سَأَلْتَهُ مِنْ خَزَائِنِ رَحْمَتِهِ مَا لَا یَقْدِرُ عَلَی إِعْطَائِهِ غَیْرُهُ، مِنْ زِیَادَةِ الْأَعْمَارِ وَ صِحَّةِ الْأَبْدَانِ وَ سَعَةِ الْأَرْزَاقِ ثُمَّ جَعَلَ فِی یَدَیْکَ مَفَاتِیحَ خَزَائِنِهِ بِمَا أَذِنَ لَکَ فِیهِ مِنْ مَسْأَلَتِهِ، فَمَتَی شِئْتَ اسْتَفْتَحْتَ بِالدُّعَاءِ أَبْوَابَ نِعَمِهِ»
Ou seja: Tu Lhe pedes, dentre os tesouros de Sua misericórdia, aquilo que ninguém além d’Ele é capaz de conceder, como o prolongamento da vida, a saúde dos corpos e a ampliação do sustento. Deus colocou em tuas mãos as chaves de Seus tesouros, ao permitir que Lhe dirijas pedidos; assim, sempre que quiseres, poderás abrir, por meio da súplica, as portas de Suas bênçãos.
Em seguida, o Imam (a.s.) enfatiza a preservação dos direitos das pessoas e a bondade para com os irmãos muçulmanos. Depois, apresenta importantes orientações sobre não ser excessivamente ávido pelo sustento, preservar a dignidade das mulheres e tratá-las corretamente, bem como sobre a administração da vida e a divisão equilibrada de responsabilidades no âmbito familiar e social.
A recomendação final é a entrega total de si mesmo a Deus, com o pedido pelo bem tanto neste mundo quanto no Além.
Your Comment