Segundo a Abna Brasil, ninguém pode determinar um início histórico preciso para a hipocrisia e para os hipócritas. Nas sociedades onde existiram pessoas corruptas e corruptoras, enquanto possuíam poder para um combate aberto, continuavam lutando; mas quando eram derrotadas, vestiam o manto da hipocrisia e transformavam-se em organizações clandestinas, continuando por esse meio seus objetivos malévolos. Exteriormente demonstravam submissão e declaravam fidelidade, unindo-se aparentemente ao povo; porém, internamente, continuavam perseguindo seus propósitos com planejamento cuidadoso.
A característica essencial dos hipócritas é possuir uma personalidade dupla: duplicidade entre o exterior e o interior, entre discurso e comportamento, entre reuniões privadas e públicas — enfim, duplicidade em tudo. Essa realidade foi descrita com grande precisão por Ali ibn Abi Talib no sermão 194 de Nahj al‑Balagha.
Eles se apresentam como reformadores, enquanto na verdade são os verdadeiros corruptores. Consideram-se inteligentes e perspicazes e julgam os outros como ingênuos e ignorantes, quando na realidade são tolos de natureza satânica. São ao mesmo tempo parceiros do ladrão e amigos da caravana, companheiros do povo e agentes do estrangeiro, aparentam preocupar-se com o país enquanto servem ao colonialismo.
Quando surgem tempestades e chega o momento do sacrifício, retiram-se do campo com pretextos frágeis, dizendo: “إِنَّ بُيُوتَنَا عَوْرَةٌ” (“Nossas casas estão desprotegidas”).[1] Geralmente é nesse momento que, sob a pressão dos acontecimentos, o véu da hipocrisia cai de seus rostos e eles são reconhecidos.
Ao contrário do que pensam alguns ingênuos entre os sunitas — que consideram que qualquer pessoa que tenha encontrado o Muhammad, ouvido suas palavras e visto seu rosto, entra automaticamente numa aura de santidade chamada “companheiro (ṣaḥābī)”, tornando-se necessariamente justo e confiável — a realidade é diferente. Entre os contemporâneos do Profeta havia hipócritas perigosos, mencionados explicitamente no Alcorão, especialmente na Surata Al‑Munāfiqūn, e ainda mais claramente nas Surata Al‑Aḥzāb e Surata At‑Tawbah, bem como em outras passagens. O Profeta adotou uma posição firme contra eles.
Quem examinar cuidadosamente essas suratas compreenderá que a onda de hipocrisia era forte até mesmo nos últimos anos da vida do Profeta. Entretanto, a influência e o poder do Profeta, juntamente com a clara vitória dos verdadeiros crentes, haviam tirado deles a iniciativa.
Após a morte do Muhammad, eles voltaram a se movimentar e, através de planos extremamente secretos, trabalharam tanto que, durante a era da Dinastia Omíada, chegaram a ocupar o lugar do Profeta sob o título de “califa do Mensageiro de Deus”. Assim, alguém que havia aceitado o Islã apenas no final da vida do Profeta e que era filho do maior inimigo do Islã — Abu Sufyan — sentou-se no lugar do Mensageiro de Deus e passou a ser chamado de “tio dos crentes”. Esta é uma história longa que deixamos de lado aqui.
No mundo atual, a hipocrisia aparece mais do que em qualquer outro período da história. Os hipócritas atuam com planejamento cuidadoso, grandes recursos financeiros e numerosos agentes em todo o mundo, utilizando inclusive meios modernos para expandir suas intrigas.
Os governos coloniais, cuja sobrevivência depende de explorar e sugar o sangue de outras nações, cometem os piores crimes sob títulos como “direitos humanos”, “liberdade” e “democracia”. Se em um país que não lhes agrada ocorre a menor violência contra um prisioneiro, levantam grandes protestos; porém, em prisões como Prisão de Abu Ghraib no Iraque e Campo de Detenção de Guantánamo, cometem crimes sem precedentes na história, cujos relatos chocantes se espalharam pelo mundo.
Sob o pretexto de liberdade, retiram a liberdade de ação e de pensamento de todos os que se opõem a eles e procuram instalar governos dependentes em diferentes partes do mundo. Às vezes dizem abertamente que a melhor opção para eles é um governo que proteja seus próprios interesses.
Falam em governos populares, mas sempre que, em qualquer parte do mundo, um povo estabelece um governo que não protege seus interesses, fazem todo o possível para derrubá-lo.
Às vezes entram através de ajuda financeira, empréstimos ou doações; porém, seu objetivo principal é tornar as nações dependentes, pois quando um país se torna dependente, é obrigado a aceitar tudo o que lhe é imposto.
A única forma de libertar-se das garras desses hipócritas perigosos e de múltiplas faces é a união das nações oprimidas. Elas devem primeiro revelar a verdadeira face desses agentes e depois enfrentá-los de maneira coordenada. Certamente, como os hipócritas buscam apenas objetivos materiais e não possuem espírito de sacrifício, no final serão derrotados e recuarão.[2]
Notas
[1] Alcorão, Surata Al‑Aḥzāb, versículo 13.
[2] Adaptado de: Payām-e Imām Amīr al-Mu’minīn (a.s.), de Naser Makarem Shirazi, vol. 7, p. 617.
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