Agência Internacional AhlulBayt (A.S.) – ABNA Brasil: O cheiro de pólvora ainda não havia desaparecido. Eram três da madrugada quando as bombas começaram a cair. Uma casa residencial. Não era um alvo militar. Apenas uma casa. Com paredes que um pai havia pintado, com janelas para as quais uma mãe havia costurado cortinas para o dia de festa.
Quando nos permitiram entrar, já não era mais uma casa. Apenas aberturas profundas como sonhos destruídos. Uma cratera cheia de tijolos quebrados, livros rasgados, roupas queimadas e coisas que já não lembravam a vida.
Encontramo-la sob uma viga de concreto. Uma jovem. Cerca de trinta anos. No meio da fumaça e da pólvora, aquele simples cheiro de vida partiu meu coração.
Seu rosto estava voltado para a qibla. Como se, nos últimos segundos, estivesse rezando. Suas mãos estavam presas sobre o ventre. Ali onde o feto de três meses... não estava. Estava. Tinha coração. Tinha pulso. Tinha nome. “Nazanin.”
Retiramos o exame de ultrassom de sua mão direita. Estava amassado. Havia manchas marrons. Talvez lágrimas. Talvez sangue. Talvez ambos.
Na outra mão, havia a boneca. Rosa. Costura grosseira. O algodão saía de seu ventre. Um botão faltando no olho. Uma orelha queimada. No peito, escrito: “Para minha Nazanin, da mamãe.”
Ali mesmo, sobre as cinzas da casa, ajoelhei-me. Beijei a boneca. Coloquei o ultrassom ao lado. Disse:
“Ó Deus, eles não tinham armas. Eles não eram soldados. Essa mulher só queria que sua filha nascesse. Queria ensiná-la a costurar uma boneca. A sorrir. A viver sob um céu azul, não sob um teto de fogo.”
Retiramos o corpo. Permaneci em silêncio. Um colega disse: “Você não está bem, vá descansar.”
Fui para trás de um muro destruído. Tirei a boneca do bolso. Olhei para ela. Disse:
“Nazanin... sua mãe nunca soltou você. Até o último suspiro, sua mão estava sobre você. Mesmo quando ferro e fogo caíam do céu. Agora... agora vocês estão com Deus, que é mais misericordioso do que todos nós. Vá com Ele. Diga a Ele: aqui embaixo, há um socorrista que guarda sua boneca no bolso. Até que a guerra acabe. Até que nenhuma mãe precise costurar uma boneca para seu bebê, sabendo que talvez não haja amanhã.”
As bombas começaram novamente. A terra caiu sobre mim. Coloquei a boneca no bolso do peito. Perto do coração.
Levantei-me. Voltei aos escombros. Talvez ainda houvesse alguém vivo. Talvez ainda houvesse uma mãe que tivesse perdido sua boneca. Talvez ainda...
Mas Nazanin e sua mãe haviam partido. Foram para um lugar onde nenhuma bomba chega. Um lugar onde não existem ataques a casas.
Só uma coisa ficou:
Uma boneca rosa, com um olho de botão, que permanecerá para sempre no bolso de um socorrista coberto de poeira — lembrança de um crime que talvez nenhum tribunal jamais julgue.
Your Comment