ABNA Brasil— A Carta nº 30 do Nahj al-Balāgha faz parte da resposta do Imam Ali (a.s.) a uma carta ofensiva enviada por Mu‘āwiya. Nessa carta, o Príncipe dos Crentes (a.s.), além de responder às palavras de Mu‘āwiya, dirige-lhe exortações morais, na esperança de impedir um desvio ainda maior dele próprio e de seus apoiadores no governo corrupto dos Banū Umayya.
Embora as fontes históricas não tenham preservado o texto da carta de Mu‘āwiya dirigida ao Imam Ali (a.s.), a análise da resposta do Príncipe dos Crentes (a.s.) permite concluir que o conteúdo da carta consistia em um conjunto de acusações e insultos, acompanhados de uma pretensa alegação de benevolência em favor do povo. Em sua resposta, o Imam (a.s.), ao mesmo tempo em que rejeita as acusações e responde às ofensas, expõe suas razões quanto à necessidade de atenção à orientação divina, ao afastamento das pessoas do mal e da feiura moral, bem como à expansão do ordenar o bem e proibir o mal.
A primeira parte desta carta não foi registrada por Sayyid al-Raḍī no Nahj al-Balāgha, mas foi transmitida por Sayyid Ṣādiq Mūsawī Shīrāzī na obra “Tamām Nahj al-Balāgha”. Já a segunda parte, que Sayyid al-Raḍī — como em muitos outros casos — transmitiu de forma seletiva, consiste majoritariamente em recomendações éticas e na explicitação de sinais claros da orientação divina.
Embora o destinatário histórico desta carta seja Mu‘āwiya, o tema central do texto são as exortações morais; por isso, qualquer pessoa pode considerar-se destinatária dessas palavras e tomar os ensinamentos do Imam Ali (a.s.) como guia ao longo da vida.
Exortações iniciais
O Imam Ali (a.s.) declara logo nas primeiras frases:
«فَاتَّقِ اللهَ فِیمَا لَدَیْکَ وَ انْظُرْ فِی حَقِّهِ عَلَیْکَ»
Ou seja: Teme a Deus no que está sob tua posse e reflete sobre o direito que Deus tem sobre ti.
Toda pessoa possui um conjunto de bênçãos divinas sobre as quais deve observar os direitos de Deus. Se, além dessas bênçãos comuns, alguém também detém autoridade administrativa ou bens públicos, é evidente que deve agir com ainda mais cautela e piedade, respeitando os direitos divinos no uso dessas responsabilidades e recursos para o serviço da religião e da sociedade.
Reconhecer os direitos divinos e seus resultados
Nas frases seguintes, o Príncipe dos Crentes (a.s.) explica o modo de reconhecer esses direitos divinos e os resultados de lhes dar atenção:
«وَ ارْجِعْ إِلَی مَعْرِفَةِ مَا لاتُعْذَرُ بِجَهَالَتِهِ، فَإِنَّ لِلطَّاعَةِ أَعْلاماً وَاضِحَةً وَ سُبُلاً نَیِّرَةً وَ مَحَجَّةً نَهْجَةً وَ غَایَةً مُطَّلَبَةً یَرِدُهَا الأَکْیَاسُ»
Isto é: Retorna ao conhecimento daquilo cuja ignorância não te serve de desculpa, pois a obediência (a Deus) possui sinais claros, caminhos luminosos, estradas evidentes e retas, e um fim desejável ao qual chegam os sábios.
O preço do afastamento da orientação
Se, apesar dessas «أَعْلاماً وَاضِحَةً وَ سُبُلاً نَیِّرَةً وَ مَحَجَّةً نَهْجَةً» — sinais claros, caminhos luminosos e via reta — alguém ainda se inclina para trajetos desviantes, avançando sem a luz da orientação e caindo na perdição e no erro, deve estar preparado para pagar um preço severo:
«یُخَالِفُهَا الأَنْکَاسُ؛ مَنْ نَکَبَ عَنْهَا جَارَ عَنِ الْحَقِّ، خَبَطَ فِی التِّیهِ، وَ غَیَّرَ اللهُ نِعْمَتَهُ، وَ أَحَلَّ بِهِ نِقْمَتَهُ»
Ou seja: Dela se afastam os vis e os insensatos. Quem dela se desvia, afasta-se da verdade, vagueia no deserto da perdição; e Deus lhe retira Sua bênção e faz descer sobre ele o castigo.
Essas punições incluem tanto a perda das bênçãos divinas quanto o envio de diversos tipos de provações. Contudo, o aspecto mais grave desse preço é expresso na frase «خَبَطَ فِی التِّیهِ», que pode ser compreendida como “vagar em confusão no deserto da ignorância e do extravio”.
Um exemplo corânico dessa errância pode ser encontrado na história dos Filhos de Israel no “Vale do Tīh” (وادی تیه), onde, segundo as tradições, esse estado de perplexidade e desorientação se estendeu como consequência de sua recusa à orientação divina.
Your Comment