Agência Internacional de Notícias Ahl al-Bayt (ABNA): Entre os tesouros preciosos das tradições (hadiths), uma palavra do Amir dos Crentes, Ali ibn Abi Talib (A.S.), se destaca, sendo tão profunda e instigante quanto todo o universo. Ele (A.S.) disse:
“Não passa um dia sobre o filho de Adão sem que esse dia lhe diga: ‘Ó filho de Adão! Eu sou um dia novo e sou testemunha contra ti. Portanto, profira em mim palavras de bem e pratique em mim boas ações, para que eu testemunhe a teu favor no Dia da Ressurreição. Pois tu nunca mais me verás depois disso.’” (1)
Este nobre hadith revela uma verdade surpreendente: a passagem do tempo não é apenas um processo natural; antes, observadores conscientes e eloquentes supervisionam-na. Cada dia, como um ser vivo e testemunha, registra nossas ações para, no tribunal da justiça divina, testemunhar a nosso favor ou contra nós.
Explicação do Nobre Hadith
1. “O testemunho do dia”: uma verdade corânica
À primeira vista, o testemunho de um “dia” sobre as ações do homem pode parecer um conceito simbólico ou metafórico. No entanto, o Sagrado Alcorão prova explicitamente o princípio do testemunho das coisas e dos tempos na Ressurreição. Deus Todo-Poderoso diz:
“Até quando, chegando ao fogo, contra eles testemunharão sua audição, sua visão e suas peles sobre o que faziam.” (2)
Este versículo retrata uma cena da Ressurreição em que os criminosos, surpresos, veem que os próprios membros do seu corpo, que no mundo lhes obedeciam, agora falam e revelam os detalhes de seus pecados. Isso mostra que todas as criaturas, até mesmo o próprio corpo do homem, com a permissão divina, tornam-se “testemunhas” e “eloquentes”. Ora, se a “pele”, que é materialmente inanimada, pode testemunhar, por que o “dia”, como recipiente do tempo das ações, não poderia?
Em seguida, o Alcorão esclarece a razão deste testemunho:
“E disseram às suas peles: ‘Por que testemunhastes contra nós?’ Disseram: ‘Fez-nos falar Deus, que faz falar toda coisa.’” (3)
Esta parte do versículo enuncia o princípio-chave: toda coisa tem a capacidade de falar e testemunhar, se Deus assim o desejar. Portanto, o “dia” não está isento desta regra.
E na sequência, Ele expõe a raiz da negligência humana:
“E não vos ocultáveis, temendo que vosso ouvido, vossos olhos e vossas peles testemunhassem contra vós; mas pensáveis que Deus não sabia muito do que fazíeis.” (4)
A raiz da negligência humana é a “suposição” incorreta acerca de Deus. Ou seja, o pecador imagina que Deus não está ciente dos detalhes de suas ações ou que não existem testemunhas.
2. A negligência do testemunho interior: a raiz da perdição
Por que os seres humanos, às vezes, cometem pecados? O Alcorão responde que o esquecimento do sistema de vigilância interior e exterior é o fator principal.
O Alcorão descreve o terror e a grandeza daquele dia na Ressurreição:
“O dia em que os homens se levantarão ante o Senhor do universo.” (5)
3. A solução do hadith: dois passos para o Paraíso
O Amir dos Crentes (A.S.), na sequência, oferece uma prescrição em duas etapas para a salvação:
Primeiro passo: “Profira em mim palavras de bem.”
Palavras de bem são um exemplo evidente de “dizer o que é reto” (qawlan sadīd). O Alcorão diz a este respeito:
“Ó vós que crestes! Temei a Deus e dizei palavras retas, para que Ele corrija vossas ações e vos perdoe vossos pecados.” (6)
“Dizer o que é reto” significa uma palavra que seja correta, firme, imparcial e centrada na verdade. Um ponto importante: o Alcorão considera duas coisas como resultado de dizer o que é reto:
- A correção das ações.
- O perdão dos pecados.
Ou seja, a boa palavra é a base do bom comportamento e o terreno para o perdão divino. Portanto, o hadith está em total harmonia com este versículo: o primeiro passo para beneficiar do testemunho do dia é o cuidado com a palavra.
Segundo passo: “E pratique em mim boas ações.”
A boa ação define a fronteira entre a fé e a hipocrisia. Deus diz:
“Em verdade, aqueles que creem e praticam as boas obras, terão por morada os jardins do Paraíso.” (7)
“Morada” (nuzul) significa local de acolhimento e honra. Este versículo mostra que o Paraíso não é apenas uma recompensa, mas o local de honraria especial para aqueles que reuniram fé e boa ação. O hadith do Amir dos Crentes (A.S.) aponta exatamente para esta combinação: “pratique boas ações” – boa ação. Sem a ação, a palavra de bem, por si só, não é suficiente.
O hadith exige estas duas coisas conjuntamente, pois a boa palavra sem a boa ação não beneficia, e a ação desprovida de fundamento científico e verbal é incompleta.
4. O testemunho do dia na Ressurreição
Na Ressurreição, tudo fala: a terra, o tempo, os membros e os órgãos. Sobre a terra, lemos:
“Nesse dia, ela narrará as suas notícias.” (8)
“Notícias” é o plural de “notícia”; ou seja, a terra relatará todos os acontecimentos que ocorreram em sua superfície ou em seu interior. Se a terra, que é o leito do espaço das ações, fala, então o dia, que é o leito do tempo das ações, com maior razão pode testemunhar. Este versículo confirma aquela parte do hadith que diz: “para que eu testemunhe a teu favor no Dia da Ressurreição” – o dia, na Ressurreição, testemunhará a teu favor ou contra ti.
O Imam al-Sādiq (A.S.) disse: “Não passa um dia sobre o filho de Adão sem que esse dia lhe diga: ‘Ó filho de Adão! Eu sou um dia novo e sou testemunha contra ti; pratica por meu intermédio o bem e realiza em mim boas ações, para que eu testemunhe a teu favor no Dia da Ressurreição. Pois tu nunca mais me verás depois disso.’” (9)
Naquele momento, testemunhas como os dias, as noites, os membros e até mesmo os anjos abrirão o processo e relatarão a verdade.
Portanto, o hadith do Amir dos Crentes (A.S.) nos convida a uma profunda autoconsciência:
A nossa vida são cenas separadas chamadas “dia”. Cada cena é filmada, e o roteiro é escrito por nós mesmos. É evidente que, se representarmos um bom papel e proferirmos belos diálogos, o nosso filme, na Ressurreição, testemunhará a nosso favor; caso contrário, testemunhará contra nós.
Para sermos bem-sucedidos nestas cenas da vida, não há outro caminho senão:
- Cuidado com a palavra: não acostumar a língua senão à recordação de Deus e à boa palavra.
- Planejar a ação: começar cada dia com uma boa ação, ainda que pequena.
- Atenção às testemunhas: saber que não somente Deus, os anjos e os membros do corpo, mas também os dias e os momentos são testemunhas de nossas ações.
O hadith do “dia testemunha” é, na verdade, a interpretação interior dos versículos do testemunho. O Alcorão expôs os princípios gerais, e Ahl al-Bayt (A.S.) elucidaram os exemplos e os detalhes. Portanto, agir segundo este hadith é agir segundo o Alcorão. Se começarmos cada dia com “dizer o que é reto” e “boa ação”, teremos, na Ressurreição, testemunhas a nosso favor que jamais nos esquecerão.
Ó Deus! Concede-nos o êxito de que cada dia que passe sobre nós testemunhe a nosso favor, e que vejamos aquele dia na Ressurreição com rosto branco (honrado). Pelas honras de Muhammad e da sua Purificada Família. Amém.
Notas:
- Amālī al-Sadūq, p. 95.
- Surat Fussilat 41:20.
- Surat Fussilat 41:21.
- Surat Fussilat 41:22.
- Surat al-Muṭaffifīn 83:6.
- Surat al-Aḥzāb 33:70-71.
- Surat al-Kahf 18:107.
- Surat al-Zalzalah 99:4.
- Biḥār al-Anwār, v. 7, p. 325/20. Em outra versão: “Dize em mim palavras de bem e pratica em mim boas ações.”
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