Senhora Zaynab, paz esteja com ela, é um símbolo de paciência consciente, discernimento e responsabilidade na história do Islã. Sua paciência não foi apenas suportar a calamidade, mas uma paciência acompanhada de gestão, esclarecimento e resistência diante da injustiça, que, após o evento de Ashura, manteve vivo o movimento do Imam Hussein (a). Seus sermões contundentes em Kufa e Damasco revelaram a verdadeira face do governo omíada e despertaram uma sociedade adormecida. A frase eterna «ما رأیتُ إلّا جمیلا» Não vi nada além de beleza expressa o ápice de sua satisfação e submissão à vontade divina e sua compreensão profunda da filosofia do martírio para a preservação do Islã. Com base nisso, para conhecer melhor essa grande senhora, conversamos com Hujjat al-Islam wal-Muslimin Alam al-Hoda, professor do seminário islâmico, cujo conteúdo segue abaixo.
• Em que a paciência de Senhora Zaynab (a.s.) difere da paciência comum das pessoas?
Na explicação da paciência de Senhora Zaynab, paz esteja com ela, é necessário atentar para o significado preciso e profundo da paciência. No entendimento religioso, paciência não significa apenas suportar o sofrimento ou uma tolerância passiva; trata-se de uma perseverança consciente acompanhada da gestão da crise. Esse tipo de paciência transforma o ser humano em uma personalidade culta, amadurecida e responsável.
Assim, a paciência de Senhora Zaynab, paz esteja com ela, não foi comum, mas um exemplo ímpar de paciência aliada à consciência, responsabilidade e gestão de condições críticas. No dia de Ashura, ela testemunhou a perda de dezoito jovens dos Bani Hashim, cada um com laços próximos com ela — irmãos, filhos, sobrinhos e parentes próximos.
Além do martírio de figuras como Hazrat Abbas e Hazrat Sayyid al-Shuhada (a), Senhora Zaynab, paz esteja com ela, ofereceu também seus dois filhos no caminho de Deus e testemunhou o martírio dos filhos de seu irmão, entre eles Ali Akbar, Qasim ibn Hasan e Abdullah ibn Hasan. Esse volume de tragédias, somado à pesada pressão da propaganda do governo omíada, criou condições extremamente difíceis.
Apesar disso, Senhora Zaynab, paz esteja com ela, assumiu a responsabilidade de liderar a caravana dos cativos de Karbala e administrou com dignidade, firmeza e sabedoria mais de oitenta mulheres e crianças durante o cativeiro, de tal forma que não apenas sua honra foi preservada, como ninguém ousou insultá-las ou sequer se aproximar delas.
Mesmo em meio ao luto profundo, quando viu a cabeça sagrada de seu irmão erguida sobre a lança, recitou versos dolorosos expressando a profundidade de sua dor, mas jamais se afastou do cumprimento de sua missão. A entrada da caravana dos cativos em Kufa ocorreu enquanto a cidade estava tomada por alegria e festejos — um ambiente que foi completamente transformado pela presença e pelos sermões esclarecedores de Zaynab al-Kubra, paz esteja com ela.
• Como Senhora Zaynab (a.s.) manteve sua lucidez política e social nas condições mais difíceis?
Senhora Zaynab, paz esteja com ela, ao compreender corretamente a situação social de Kufa, buscou transmitir a mensagem de Ashura por meio das mulheres da cidade, pois os homens de Kufa já haviam sido interpelados anteriormente pelo Imam Hussein (a) e haviam se omitido de seu dever. Com um sermão direto e contundente, ela confrontou o povo de Kufa por sua traição, engano e deslealdade, levando-os a um choro prolongado e a um profundo arrependimento.
O impacto desse sermão foi tal que, segundo os relatos históricos, um silêncio pesado tomou conta da cidade, e até o som dos sinos dos camelos cessou. Ubaydullah ibn Ziyad, governador de Kufa, diante dessa grandeza espiritual, chegou a dizer: parecia que a alma de Ali havia revivido no corpo de sua filha.
Esses sermões despertaram a opinião pública, e antes mesmo de os homens retornarem às suas casas, a mensagem de Ashura tocou os corações das pessoas, transformando Kufa em uma cidade enlutada, e fazendo com que as mulheres de Kufa percebessem a profundidade do crime cometido por seus maridos.
Tudo isso ocorreu à sombra da paciência consciente e administrada de Senhora Zaynab, paz esteja com ela — uma paciência que englobava paciência na obediência, paciência diante do pecado e paciência perante a calamidade — capaz de transformar uma sociedade negligente. Espera-se que, tomando essa grande senhora como exemplo, possamos aumentar nossa tolerância e capacidade de gestão nos diversos aspectos da vida, incluindo dificuldades econômicas, calamidades individuais e sociais, e no cumprimento dos deveres religiosos.
• Que análise da fé de Senhora Zaynab (a.s.) a frase famosa «ما رأیتُ إلّا جمیلا» nos oferece?
A famosa frase «ما رأیتُ إلّا جمیلا», atribuída a Senhora Zaynab, paz esteja com ela, expressa claramente a profundidade de seu مقام رضا (estado de satisfação e submissão), aprendido na escola espiritual de seu nobre irmão, Hazrat Aba Abdillah al-Hussein (a). Não se trata de uma frase comum, mas de uma declaração singular, cuja grandeza só pode ser compreendida ao se conhecer corretamente o contexto da assembleia em que foi pronunciada.
Essa assembleia era a corte de Yazid, organizada para exibir a suposta vitória do governo omíada, com a presença de indivíduos corruptos e figuras decadentes da época. Yazid, ao saber do impacto causado por Senhora Zaynab em Kufa, decidiu, tomado por derrota e ira, tentar humilhá-la dizendo: “Viste o que Deus fez com teu irmão?”. Em resposta, Senhora Zaynab, paz esteja com ela, declarou: «ما رأیتُ إلّا جمیلا» — não vi nada além de beleza.
Essa afirmação revela sua profunda satisfação interior, conhecimento divino e elevada posição espiritual. Para ela, a beleza não se limitava à aparência; era uma verdade profunda enraizada na essência e no conhecimento. O significado é que Deus escolheu seus irmãos, filhos e jovens dos Bani Hashim para que seu sangue fosse derramado aos pés da árvore do Islã, preservando a religião e o Alcorão.
Não há beleza maior do que sentir que o sangue dos entes queridos foi digno de ser derramado no caminho de Deus e de fazer história. Com essa visão, Senhora Zaynab, paz esteja com ela, via o martírio não como derrota, mas como a manifestação da beleza divina.
• Que lições esses episódios luminosos da história islâmica oferecem para os dias atuais?
Essa verdade pode ser observada no comportamento das famílias dos mártires, quando uma mãe diz ao lado do corpo de seu filho: “Que teu novo lar seja abençoado”, ou quando uma esposa felicita pelo martírio do marido. Isso reflete exatamente o mesmo significado expresso por Senhora Zaynab.
Essas felicitações significam que o sangue do mártir foi derramado no mesmo caminho em que antes foram derramados os sangues do Imam Ali, do Imam Hussein, do Imam Hassan, de Ali Akbar e de Hazrat Abbas, paz esteja com todos eles. Que honra maior do que Deus comprar a vida e os bens de Seu servo, como afirma o Alcorão: «إِنَّ اللَّهَ اشْتَرٰی مِنَ الْمُؤْمِنِینَ أَنْفُسَهُمْ وَأَمْوَالَهُمْ بِأَنَّ لَهُمُ الْجَنَّةَ».
Com a frase «ما رأیتُ إلّا جمیلا», Senhora Zaynab, paz esteja com ela, mostrou a grandeza do Maqām al-Riḍā (مقام الرضا) — um estado em que, apesar de todas as dores, tudo é visto como belo por ser vontade divina. Com uma única frase, ela não apenas neutralizou a conspiração de Yazid, como também condenou seu pensamento e sua personalidade diante da história e da humanidade.
Esperamos que Deus nos conceda a graça de alcançar ao menos uma parte desse Maqām al-Riḍā (مقام الرضا) e que nossa vida e nosso fim sigam o caminho dos amigos de Deus.
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