A intercessão na vida após a morte é um dos temas centrais das crenças islâmicas. Sem dúvida, as punições divinas no Dia do Juízo — sejam elas passageiras ou longas e eternas — existem para a educação do ser humano e para garantir a execução das leis de Allah. Tais consequências foram determinadas por Deus Altíssimo para conduzir as pessoas ao crescimento espiritual e à verdadeira felicidade.
Por essa razão, embora as punições da vida futura sejam descritas no Alcorão Sagrado como extremamente severas, Allah abriu, por todos os lados, caminhos de salvação. Aos pecadores é concedida a oportunidade de retornar do erro, corrigir-se e buscar novamente a proximidade do Senhor Misericordioso.
A mediação dos intercessores é um desses meios de resgate, alertando as pessoas de que não devem destruir completamente as pontes que as ligam a Deus nem cortar sua relação com os Awliyā’ divinos. Mesmo quando alguém se mancha com pecados, não deve se desesperar, mas apressar-se em direção à infinita misericórdia de Allah.
Neste artigo, trataremos da intercessão na vida futura à luz dos valiosos ensinamentos educativos presentes nas Āyāt do Alcorão e nas narrativas dos Ahl al-Bayt (a.s.), demonstrando os efeitos espirituais profundos desse princípio.
O que significa intercessão?
Nos dicionários da língua persa, como o “Dehkhoda”, o termo intercessão aparece com o sentido de mediação e intermédio.
Segundo o livro “Mufradāt” de Rāghib, intercessão deriva da raiz “شفع – shaf‘a”, que significa juntar algo a algo semelhante. Isso indica que deve existir certo grau de proximidade ou semelhança entre o intercessor e o intercedido, ainda que haja diferenças entre eles.
Na concepção corânica, intercessão significa que o pecador, por possuir aspectos positivos como fé ou a prática de algumas boas ações, alcança uma forma de semelhança espiritual com os Awliyā’ de Allah. Assim, estes, com sua ajuda e atenção, pedem perdão para ele junto ao Senhor.
پشتم قوی به فضل خدای است و طاعتش
تا در رِسم مگر به رسول و شفاعتش
“Meu amparo é forte pela graça e obediência a Deus, para que eu possa alcançar o Mensageiro e sua intercessão.”
A realidade da intercessão
A verdadeira essência da intercessão é pedir que o castigo seja removido de quem o merece. Em outras palavras, trata-se do posicionamento de um ser mais forte ao lado de outro mais fraco para auxiliá-lo a atravessar as etapas da perfeição espiritual.
Portanto, a intercessão na vida futura significa que os Awliyā’ divinos — como os Profetas, os Imames, os sábios e os mártires — estendem a mão aos que não possuem desvios de crença, mas cometeram falhas práticas, salvando-os da punição.
É importante notar que esse caminho foi instituído pelo próprio Allah para Seus servos. Deus deseja, por todos os meios, conduzi-los ao Paraíso. Cabe aos crentes, no mundo terreno, demonstrar esforço e vigilância sobre suas ações para tornarem-se merecedores dessa misericórdia.
A Posição da intercessão
Essa Posição pertence exclusivamente a Allah Misericordioso. No Dia do Juízo haverá muitos intercessores, mas todos atuarão apenas com a permissão de Deus Altíssimo.
A intercessão nas Āyāt do Alcorão Sagrado
Muitas passagens do Alcorão abordam o tema da intercessão, explicando suas condições e limites e esclarecendo quem será ou não beneficiado por ela. A seguir, alguns exemplos:
1) A intercessão não beneficia os descrentes
A intercessão não é aceita para aqueles que rejeitaram a fé, negaram o Dia do Juízo, abandonaram as orações e deixaram completamente de ajudar os necessitados:
«فَمَا تَنْفَعُهُمْ شَفَاعَةُ الشَّافِعِينَ»[1]
Assim, a intercessão dos intercessores não lhes trará benefício algum.
2) A intercessão pertence somente a Allah
A intercessão é exclusiva de Allah porque Ele é o Criador e Administrador do universo. Somente quem é o verdadeiro مالک de tudo pode perdoar:
«مَا لَكُمْ مِنْ دُونِهِ مِنْ وَلِيٍّ وَلَا شَفِيعٍ»[2]
Não há para vós nenhum protetor ou intercessor além Dele.
3) A intercessão depende da permissão divina
Ninguém pode interceder de forma independente. Toda mediação está vinculada ao consentimento de Deus:
«مَنْ ذَا الَّذِي يَشْفَعُ عِنْدَهُ إِلَّا بِإِذْنِهِ»[3]
Quem poderá interceder junto a Ele senão com Sua permissão?
4) Condições do intercessor
Aqueles que são invocados fora de Allah não possuem o poder da intercessão, exceto os que testemunharam a verdade e possuem pleno conhecimento:
«وَلَا يَمْلِكُ الَّذِينَ يَدْعُونَ مِنْ دُونِهِ الشَّفَاعَةَ إِلَّا مَنْ شَهِدَ بِالْحَقِّ»[4]
Ninguém tem domínio da intercessão exceto quem testifica a verdade.
5) Condições do intercedido
Os Awliyā’ não intercederão por qualquer pessoa, mas apenas por quem alcançou a satisfação divina:
«وَلَا يَشْفَعُونَ إِلَّا لِمَنِ ارْتَضَىٰ»[5]
E eles não intercedem senão por aqueles de quem Allah está satisfeito.
A intercessão nas narrativas islâmicas
Nas narrativas islâmicas, a intercessão é apresentada como uma ampla janela de misericórdia que dá esperança aos crentes no Dia do Juízo. Eis alguns Ahādith importantes:
1) Amor aos Ahl al-Bayt
O Mensageiro de Allah Muhammad (s.) disse:
«شَفاعَتي لِأُمَّتي مَنْ أَحَبَّ أَهْلَ بَيْتي»[6]
“Minha intercessão será para aquele de minha Ummah que amar meus Ahl al-Bayt.”
2) A intercessão dos Profetas
O Profeta Sagrado afirmou:
“Os Profetas intercederão por todos aqueles que testemunharam sinceramente a unicidade de Allah e os tirarão do fogo.”
[6]
3) Desprezo pela oração
O Profeta Muhammad (s.) disse:
“Quem tratar a oração com negligência não alcançará minha intercessão, e, por Allah, não entrará em minha presença no Hawd al-Kawthar.”
[8]
4) A intercessão dos Imames e dos xiitas
Imam Bāqir (a.s.) declarou:
“O Mensageiro de Allah tem o direito de interceder por sua Ummah; nós temos o direito de interceder por nossos seguidores; e nossos seguidores poderão interceder por seus parentes.”
[9]
Conclusão
A intercessão na vida futura é uma das mais belas manifestações da misericórdia de Allah para com os crentes. Ela não é um incentivo ao pecado, mas um forte alerta para preservar a fé, valorizar a oração e manter os laços espirituais com os Awliyā’ divinos.
Referências
[1]. Surah al-Muddaththir, versículo 48.
[2]. Surah as-Sajdah, versículo 4.
[3]. Surah al-Baqarah, versículo 255.
[4]. Surah az-Zukhruf, versículo 86.
[5]. Surah al-Anbiyā’, versículo 28.
[6]. Kanz al-‘Ummāl, hadith nº 39057.
[7]. Musnad de Ibn Hanbal.
[8]. Al-Mahāsin, vol. 1, p. 159.
[9]. Bihār al-Anwār, vol. 8, p. 38.
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