ABNA Brasail: Qual é o significado do versículo:
﴿يَوْمَ نَطْوِي السَّمَاءَ كَطَيِّ السِّجِلِّ لِلْكُتُبِ﴾ (Al-Anbiyāʾ, 21:104)?
Este versículo, que se refere ao fim do universo, comporta uma análise científica? Pode ser considerado um exemplo do chamado “milagre científico” do Alcorão?
Ao descrever os acontecimentos do Dia da Ressurreição, Deus anuncia o enrolamento dos céus:
﴿يَوْمَ نَطْوِي السَّمَاءَ كَطَيِّ السِّجِلِّ لِلْكُتُبِ كَمَا بَدَأْنَا أَوَّلَ خَلْقٍ نُعِيدُهُ وَعْدًا عَلَيْنَا إِنَّا كُنَّا فَاعِلِينَ﴾ [1]
“No dia em que enrolaremos o céu como se enrola um pergaminho de escritos; assim como iniciamos a primeira criação, Nós a repetiremos. É uma promessa que recai sobre Nós; certamente a cumpriremos.” [2]
Segundo alguns intérpretes, esses versículos fazem alusão à teoria da contração do universo. Este texto examina essa possibilidade.
A teoria da ‘contração do universo’
A teoria do Grande Colapso (Big Crunch) é um dos cenários propostos para o destino final do cosmos, em oposição à teoria da expansão eterna. De acordo com essa hipótese, após o período atual de expansão iniciado com o Big Bang, a força gravitacional dominante da matéria faria a expansão desacelerar e, posteriormente, inverter-se, conduzindo o universo a uma contração progressiva em direção a um estado extremamente denso e quente.
Essa teoria, contudo, não foi plenamente confirmada, e as evidências atuais tendem a favorecer um modelo de expansão acelerada e contínua do universo.
O enrolamento dos céus
O termo árabe ṭayy (طَيّ) significa enrolar, dobrar, reunir, sendo o oposto de nashr (نشر), isto é, expandir ou estender [3]. Em termos simples, os árabes utilizam ṭayy para indicar o ato de reunir algo depois de estar aberto [4].
Os exegetas apresentaram diferentes interpretações do versículo 104 da Surah Al-Anbiyāʾ. Segundo alguns, no Dia da Ressurreição o céu será enrolado da mesma forma que um pergaminho escrito é aberto para leitura e, em seguida, novamente enrolado e guardado [5].
Para Ṭabarānī, o significado do enrolamento do céu consiste em Deus enrolá-lo, depois abri-lo, e então restaurá-lo novamente [6]. Māturīdī considera esse versículo como referente ao fim do universo e, ao reunir diversos versículos relacionados a esse tema, busca oferecer uma visão corânica desse momento: ora o Alcorão fala do enrolamento dos céus, ora de sua transformação, ora de sua ruptura.
O mesmo ocorre com as montanhas: em um lugar, são comparadas à lã cardada; em outro, a poeira dispersa ou a nuvens em movimento. Conforme esses versículos, inicialmente ocorrem profundas transformações no universo e, em seguida, tudo é completamente aniquilado, não restando nada. Deus menciona a destruição de grandes realidades como o céu e as montanhas para demonstrar que nada neste mundo é permanente, e que um novo mundo surgirá para a recompensa e o juízo [7].
Tha‘labī sugeriu que ṭayy, nesse versículo, poderia significar ocultar, referindo-se ao apagamento da luz do sol e da lua [8]. Mughnīyah sustenta que o céu é como um livro cujas estrelas são suas letras e palavras, e que Deus, no Dia da Ressurreição, as reunirá [9].
Segundo os autores do Tafsīr Namūnah:
“Este versículo apresenta uma comparação sutil com o enrolamento do grande pergaminho do universo no fim do mundo. Atualmente, esse pergaminho está aberto e todos os seus traços e inscrições são legíveis, cada um em seu lugar. Porém, quando chegar a ordem da Ressurreição, esse imenso pergaminho, com todos os seus traços e inscrições, será enrolado.”
Eles acrescentam que enrolar o universo não significa sua aniquilação absoluta, como alguns imaginaram, mas sim sua compressão e reorganização; isto é, a forma do universo se altera, mas seus elementos não são destruídos [10].
Reżāʾī Eṣfahānī, ao interpretar o versículo, menciona a opinião de cosmólogos acerca da contração do universo:
“Alguns cosmólogos acreditam que o universo atual, com todas as galáxias, encontra-se em expansão, e que chegará um dia em que essa fuga mútua das estrelas cessará, iniciando-se a contração do universo, de modo que estrelas e planetas se aproximarão e se transformarão novamente, como no início da criação, em uma massa pequena.” [11]
Conclusão
Os cosmólogos não possuem uma teoria única acerca do fim do universo. Segundo alguns, a expansão iniciada com o Big Bang continuará indefinidamente; segundo outros, essa expansão não é eterna e, em determinado momento, cessará, dando lugar à contração e à reunião do cosmos. As evidências científicas atuais tendem a apoiar a expansão eterna.
Independentemente dessas evidências, o Alcorão parece mais compatível com a teoria da contração do universo do que com a da expansão eterna. De acordo com o texto sagrado, no Dia da Ressurreição as montanhas serão arrancadas e dispersas como poeira, os mares serão inflamados, o sol, a lua e as estrelas se apagarão, os céus serão enrolados e, em suma, o céu e a terra serão transformados em outro céu e outra terra.
Por isso, muitos exegetas, desde os primeiros séculos, ao interpretar o versículo 104 da Surah Al-Anbiyāʾ, entenderam-no como uma referência ao fim do universo e ao enrolamento de seu pergaminho antes da Ressurreição.
Notas
[1] Al-Anbiyāʾ, 21:104.
[2] Também mencionado em Az-Zumar, 39:67:
﴿وَمَا قَدَرُوا اللَّهَ حَقَّ قَدْرِهِ وَالْأَرْضُ جَمِيعًا قَبْضَتُهُ يَوْمَ الْقِيَامَةِ وَالسَّمَاوَاتُ مَطْوِيَّاتٌ بِيَمِينِهِ﴾
[3] Qurashī, ‘Alī-Akbar (1371 SH / 1992 d.C.), Qāmūs al-Qur’ān, Teerã: Dār al-Kutub al-Islāmiyyah, vol. 4, p. 257.
[4] Muṣṭafawī, Ḥasan (1368 SH / 1989 d.C.), Al-Taḥqīq fī Kalimāt al-Qur’ān al-Karīm, Teerã, vol. 7, p. 150.
[5] Yaḥyā ibn Salām al-Tamīmī (1425 AH / 2004 d.C.), Tafsīr Yaḥyā ibn Salām, Beirute, vol. 1, p. 349.
[6] Ṭabarānī, Aḥmad (2008 d.C.), Al-Tafsīr al-Kabīr, Jordânia, vol. 4, p. 319.
[7] Māturīdī, Muḥammad (1426 AH / 2005 d.C.), Taʾwīlāt Ahl al-Sunnah, Beirute, vol. 7, p. 380.
[8] Tha‘labī, Aḥmad ibn Muḥammad (1422 AH / 2001 d.C.), Al-Kashf wa al-Bayān, Beirute, vol. 6, p. 312.
[9] Mughnīyah, Muḥammad Jawād (1424 AH / 2003 d.C.), Al-Tafsīr al-Kāshif, Qom, vol. 5, p. 302.
[10] Makārem Shirāzī, Nāṣer et al. (1371 SH / 1992 d.C.), Tafsīr Namūnah, Teerã, vol. 13, p. 513.
[11] Reżāʾī Eṣfahānī, Muḥammad ‘Alī (1387 SH / 2008 d.C.), Tafsīr Qur’ān Mehr, Qom, vol. 13, p. 228.
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