12 abril 2026 - 09:32
Se existe o destino divino, então o ser humano não é livre?

O termo “qadā” significa, na linguagem, “julgar, decidir e concluir”, e no sentido técnico refere-se à realização dos acontecimentos por meio de suas causas. Já “qadar” significa “medida e determinação”, e indica as características, limites e condições de existência das coisas. O destino divino, tanto no plano da criação quanto no plano da legislação, não contradiz a liberdade humana; ao contrário, o destino do ser humano depende de causas nas quais a sua vontade e esforço ocupam um lugar essencial.

O significado de “qadā” e “qadar” Na linguagem, “qadā” significa decisão, julgamento e conclusão de um assunto. O juiz é chamado assim porque resolve disputas e define os resultados.

No uso técnico, refere-se ao fato de que cada acontecimento no universo possui causas específicas, e quando essas causas se realizam, o acontecimento ocorre de forma necessária.

“Qadar”, por sua vez, significa medida, proporção e determinação. No sentido técnico, refere-se aos limites, características naturais, dimensões e condições de cada coisa.

O Imam Reza explicou:

“A medida de uma coisa inclui suas dimensões, como comprimento e largura.”

Isso significa que, na ordem da criação, tudo possui uma medida específica e nada ocorre sem regra ou cálculo.

Em termos filosóficos, “qadar” corresponde ao princípio da causalidade: cada evento está ligado a causas anteriores e recebe delas suas características e existência.


Tipos de destino: natural e legislativo

O destino pode ser entendido em dois níveis:

1. Destino na ordem da criação
Todo fenômeno possui causa e medida. Nada ocorre sem causa e nada ocorre sem proporção.
Por exemplo, quando uma pedra quebra um vidro, isso acontece devido a causas específicas, como a força do impacto e a distância.

O Alcorão menciona esse tipo de destino em vários versículos, como:

“Criou os céus em etapas.”
“Quando decreta algo, diz apenas: seja, e é.”

Essas expressões indicam o funcionamento da ordem da criação.


2. Destino na ordem da legislação
Refere-se aos mandamentos divinos que determinam as responsabilidades humanas.

Por exemplo: a obrigação da oração é uma determinação, e o número de suas unidades é sua medida.

O Alcorão afirma:

“Quando Deus e Seu Mensageiro decidem algo, não cabe ao crente escolher.”


O destino não contradiz a liberdade humana

O destino divino significa que o mundo funciona com base em causas e leis. Entre essas causas está a própria vontade humana.

A fé no destino implica dois princípios:

  1. Nada acontece sem causa.
  2. Todas as causas têm origem em Deus.

A vontade humana também faz parte dessa ordem e não entra em conflito com a vontade divina.

O Alcorão afirma:

“O ser humano terá apenas aquilo pelo qual se esforçou.”

Isso mostra que o esforço humano tem papel direto no seu destino.

Se o ser humano não tivesse اختیار, então conceitos como responsabilidade, recompensa, punição e missão profética não teriam sentido.


O ensinamento do Imam Ali sobre o destino

Em um relato famoso, quando perguntaram ao Imam Ali se os acontecimentos eram determinados pelo destino, ele respondeu:

“Sim, tudo ocorre dentro do destino de Deus.”

Mas quando o interlocutor concluiu que isso significaria ausência de liberdade, o Imam respondeu:

“Se fosse assim, não haveria recompensa nem punição, nem ordem nem proibição.”

Ele explicou que Deus concedeu ao ser humano liberdade de escolha e não o obrigou a agir.


Conclusão

A ideia de que o destino significa que tudo já está fixado e não pode ser alterado é incorreta.

O destino divino funciona por meio de causas, e uma das principais causas é a vontade humana.

Portanto, o ser humano é livre dentro da ordem divina e responsável por suas escolhas.

Como afirmou um pensador:

“Se o destino significasse negar as causas e a vontade humana, então tal destino não poderia existir.”

Assim, o futuro do ser humano não é algo imposto, mas algo construído por meio de suas escolhas e ações dentro das leis estabelecidas por Deus.

Notas de referência

  1. Qamus al-Qur’an, Qurashi, Seyyed Ali Akbar, Dar al-Kutub al-Islamiyya, Teerã, 1992, 6ª edição, vol. 6, p. 18; Lisan al-‘Arab, Ibn Manzur, Dar Sadir, Beirute, 1995, vol. 15, p. 186; Obras Completas de Morteza Motahhari, Editora Sadra, Teerã, 1995, vol. 1, p. 382.
  2. Ver: Tradução e Comentário Resumido do Nahj al-Balagha, Makarem Shirazi, Qom, vol. 3, p. 497.
  3. Qamus al-Qur’an, vol. 1, p. 246; Mufradat Alfaz al-Qur’an, Raghib al-Isfahani, Dar al-Qalam, Beirute, 1992, vol. 1; Lisan al-‘Arab, vol. 5, p. 74.
  4. Ver: Tafsir al-Mizan, Tabataba’i, tradução de Mousavi Hamedani, Qom, vol. 19, p. 149.
  5. Al-Kafi, Al-Kulaini, Dar al-Kutub al-Islamiyya, Teerã, 4ª edição, vol. 1, p. 150.
  6. O Homem e o Destino, Motahhari, Editora Sadra, p. 53.
  7. Tradução e Comentário Resumido do Nahj al-Balagha, vol. 3, p. 497.
  8. Alcorão Sagrado, Surata Al-Baqara, versículo 117; Surata Aal Imran, versículo 47; Surata Maryam, versículo 35.
  9. Tradução e Comentário Resumido do Nahj al-Balagha.
  10. A Origem das Escolas Religiosas, Makarem Shirazi, Qom, 1ª edição, p. 23.
  11. Mesmo autor, p. 21.
  12. Al-Tara’if fi Ma‘rifat Madhahib al-Tawa’if, Ibn Tawus, Qom, vol. 2, p. 326.
  13. A Origem das Escolas Religiosas, p. 24.
  14. Obras Completas de Motahhari, vol. 1, p. 384.
  15. Bihar al-Anwar, Al-Majlisi, Dar Ihya al-Turath al-‘Arabi, Beirute, 2ª edição, vol. 2, p. 90.

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