28 junho 2026 - 08:33
Um arrependimento que já não produz efeito: do povo de Kufa que rompeu seu pacto ao povo desatento de hoje

A história é um espelho de lições. No entanto, suas cenas mais dolorosas são aquelas em que a verdade só se torna evidente quando já é tarde demais. A história do povo de Kufa e do movimento dos Tawwabun (Os Arrependidos) constitui um exemplo clássico dessa tragédia. Da mesma forma, um cenário hipotético, mas plenamente compatível com os desafios do mundo contemporâneo marcado pela influência dos meios de comunicação, reproduz esse mesmo padrão: em ambos os casos, o líder legítimo de seu tempo permanece sozinho, torna-se vítima de falsas promessas ou de narrativas manipuladas e, somente após seu martírio, surge uma onda de arrependimento que já não pode protegê-lo.

Os habitantes de Kufa convidaram o Imam Hussein (a.s.). Escreveram cartas, assumiram compromissos e juraram fidelidade a Muslim ibn Aqil. Porém, quando Ubayd Allah ibn Ziyad passou a governar Kufa por meio de ameaças e promessas, essas mesmas pessoas abandonaram Muslim, impediram a chegada da caravana do Imam Hussein (a.s.) e permaneceram em silêncio diante da tragédia de Karbala.

O resultado desse silêncio foi Ashura: o martírio do Imam que havia se levantado para reformar a comunidade de seu avô, juntamente com seus filhos, irmãos, sobrinhos e companheiros fiéis.

Anos depois, consumidos pelo remorso, esses mesmos habitantes de Kufa organizaram o movimento dos Tawwabun. Choraram junto ao túmulo do Imam Hussein (a.s.) e, sob a liderança de Sulayman ibn Surad al-Khuza'i, partiram para combater o exército omíada. Lutaram e morreram.

Entretanto, seu arrependimento e seu sacrifício já não puderam defender o Imam Hussein (a.s.), reconstruir suas tendas incendiadas nem reparar a garganta degolada de Ali al-Asghar (a.s.). Na realidade, os Tawwabun purificaram a si próprios, mas não puderam desfazer a injustiça já consumada. A história registra que eles não permaneceram firmes no momento em que isso era necessário. Seu arrependimento, embora sincero e digno de respeito, já não podia beneficiar aquele que havia sido oprimido.

Agora imaginemos uma situação hipotética, mas construída segundo o mesmo modelo de Kufa: um líder sábio e experiente que, durante mais de três décadas, trabalhou como um pai dedicado para preservar a dignidade e a força de seu país em meio a crises políticas e econômicas.

Assim como Ibn Ziyad dispersou os companheiros de Muslim por meio de ameaças e recompensas, também hoje campanhas midiáticas hostis e correntes de desinformação podem difundir narrativas falsas, semeando desconfiança entre parte da população. Espalham rumores, constroem acusações e apresentam uma imagem distorcida do líder, levando muitos ao silêncio ou mesmo às críticas.

Então chega o dia de sua morte. A notícia comove toda a nação. Multiplicam-se as lágrimas e as manifestações de arrependimento. As pessoas descobrem aspectos desconhecidos de sua vida simples e de seus sacrifícios e passam a dizer: "Não sabíamos o quanto ele era injustiçado"; "Não imaginávamos que tantas informações fossem falsas."

Essas manifestações lembram o choro dos Tawwabun diante do túmulo do Imam Hussein (a.s.). Contudo, o problema permanece o mesmo: as lágrimas surgem quando já é tarde demais. O mártir já não pode ouvi-las. Esse arrependimento já não consola sua solidão nem alivia o sofrimento que suportou durante sua vida.

Em ambas as situações existe uma mesma verdade dolorosa: o apoio deve ser oferecido enquanto o líder está presente, e não apenas depois de sua ausência.

O Imam Hussein (a.s.) precisava de companheiros na véspera de Ashura, não de lamentos depois de seu martírio. Da mesma forma, um líder sábio necessita de apoio, discernimento e firmeza durante os momentos em que enfrenta o isolamento e as campanhas de difamação, e não apenas de homenagens após sua morte.

Os meios de comunicação tornaram-se a espada dos tempos modernos. Ibn Ziyad utilizou a espada e o dinheiro para dispersar os seguidores de Muslim. Hoje, a manipulação da informação pode produzir efeito semelhante ao destruir a confiança e semear dúvidas sobre a liderança.

O arrependimento tardio, muitas vezes, serve mais para aliviar a consciência de quem falhou do que para reparar a injustiça sofrida pela vítima. Os Tawwabun derramaram o próprio sangue e aliviaram o peso de sua culpa, mas não puderam trazer de volta o seu Imam. As lágrimas derramadas após o martírio possuem a mesma característica: confortam os sobreviventes, mas já não podem beneficiar aquele que partiu.

A comparação entre os Tawwabun de Kufa e uma comunidade que apenas reconhece o valor de seu líder após sua morte constitui um sério alerta: reconhecer o valor da liderança enquanto ela ainda está presente.

Não devemos permitir que narrativas falsas criem distância entre um povo e seu líder. Se um dia descobrirmos que fomos enganados, mas esse reconhecimento ocorrer somente após sua partida, nosso arrependimento será semelhante ao dos Tawwabun: digno de respeito, porém incapaz de beneficiar aquele que precisava de nosso apoio quando ainda estava entre nós.

A história somente se repete quando deixamos deela.aender com ela.

Tags

Your Comment

You are replying to: .
captcha