Introdução: Quando o Pecado Apaga a Esperança
Às vezes, o acúmulo de pecados (que Deus nos proteja) faz com que a pessoa perca a esperança na misericórdia de Deus, em um bom destino final e na salvação. Esse desespero transforma a vida em um turbilhão de ansiedade, preocupação e pessimismo, roubando toda a calma, alegria e vitalidade.
Quem chega a esse estado sente que não tem mais volta. Ele não está mais aberto a mudanças. Como o futuro lhe parece totalmente sombrio, pode até se revoltar ainda mais e cometer mais pecados, pensando: "Já que não há saída, tanto faz". É como um doente que perde a esperança de cura e abandona completamente os cuidados médicos, pois acredita que nada mais funciona.
O Imam Ali (A.S) descreve esse efeito devastador do desespero:
"Quando o desespero domina o coração, a tristeza e a angústia consomem a pessoa por completo."
O que o Alcorão Diz sobre o Desespero?
No Alcorão e nos ensinamentos islâmicos, o "desespero" (ya's) é algo extremamente negativo e proibido. Tanto que, no versículo 56 da Surah Al-Hijr, o desespero é visto como ignorância e desvio:
"E quem se desespera da misericórdia de seu Senhor, senão os extraviados?"
No versículo 87 da Surah Yusuf, o desespero é apontado como uma característica dos incrédulos:
"Não percam a esperança na misericórdia de Allah. Por certo, somente os incrédulos perdem a esperança na misericórdia de Allah."
Perder a esperança na misericórdia de Deus significa, na verdade, limitar o poder d'Ele e duvidar da imensidão de Sua compaixão.
As Soluções de Ouro para Tratar o Desespero
Agora que entendemos o problema, vamos às soluções práticas, que podem ser organizadas em cinco grandes pilares:
1. Prestar Atenção à Imensa Misericórdia e ao Perdão de Deus
Essa é, talvez, a chave mais importante para quebrar o muro do desespero: refletir profundamente sobre as promessas de misericórdia de Deus no Alcorão e nos ensinamentos dos Imam's (Ahl al-Bayt). Isso nos mostra a grandeza dos favores divinos, evidencia como é inadequado desesperar-se e nos assegura que a porta do arrependimento está sempre aberta.
O Alcorão e os hadiths estão repletos de exemplos. Veja alguns:
- Versículo 48 da Surah An-Nisa: "Por certo, Allah não perdoa que Lhe associem parceiros, mas perdoa o que é menos disso a quem Lhe apraz." Ou seja, todo pecado (exceto a idolatria) pode ser perdoado. Nenhum pecado, sozinho, pode destruir completamente a fé de uma pessoa.
- Versículo 110 da Surah An-Nisa: "E quem faz o mal ou oprime a si mesmo e depois pede perdão a Allah, encontrará Allah Perdoador, Misericordiosíssimo." O versículo cobre qualquer pecado – seja contra os outros ou contra si mesmo – desde que haja arrependimento verdadeiro e reparação.
- Versículo 53 da Surah Az-Zumar (o mais esperançoso de todos para os pecadores): "Dize: 'Ó meus servos que cometeram excessos contra si mesmos, não desespereis da misericórdia de Allah. Por certo, Allah perdoa todos os pecados. Em verdade, Ele é o Perdoador, o Misericordiosíssimo.'"
- Versículo 135 da Surah Aal-i-Imran: "E aqueles que, quando cometem alguma obscenidade ou oprimem a si mesmos, lembram-se de Allah e pedem perdão por seus pecados – e quem perdoa os pecados senão Allah?..."
- Versículo 25 da Surah Ash-Shura: "E Ele é Quem aceita o arrependimento de Seus servos e perdoa as más ações..."
Nos ensinamentos dos Imam's também há belas mensagens. O Imam Ali (A.S) disse:
"Admiro-me de quem se desespera, tendo consigo o pedido de perdão (istighfar)."
E o Imam Sadeq (A.S) narrou que Luqman, o sábio, disse a seu filho:
"Tenha tanta esperança na misericórdia de Deus que, mesmo se viesse com todos os pecados dos gênios e dos humanos, ainda assim Ele poderia te perdoar (através do arrependimento e das boas ações)."
Todos esses ensinamentos mostram que a misericórdia divina é tão vasta que pode "digerir" até os maiores pecados. Portanto, não carregue o peso do desespero além do peso do pecado.
2. Não Adiar o Arrependimento (Tawbah) e o Pedido de Perdão (Istighfar)
Já que nenhum pecado é exceção para o retorno à misericórdia de Deus, para não cair na armadilha do desespero, é preciso se arrepender imediatamente após cometer um erro, com profundo remorso, e implorar o perdão divino.
Esse arrependimento deve ser genuíno, vindo do fundo da alma, não apenas da boca para fora. Se a pessoa não se volta verdadeiramente a Deus, como poderia Ele se voltar para ela e agraciá-la com Sua misericórdia? Não faria sentido dizer: "Deus, continuamos pecando, mas Tu nos perdoes. Nos afastamos de Ti, mas Tu Te aproximas de nós."
Por isso, o versículo 8 da Surah At-Tahrim ordena aos crentes:
"Ó vós que credes, arrependei-vos a Allah com arrependimento sincero e puro (tawbah nassuh)."
"Tawbah Nassuh" significa um arrependimento verdadeiramente puro, que faz com que a pessoa não retorne ao pecado. O Imam Sadeq (A.S) explicou:
"O servo se arrepende do pecado e jamais retorna a ele."
E o Imam Hadi (A.S) complementou:
"O arrependimento sincero é aquele em que o interior da pessoa se torna igual ao seu exterior (no ato de se arrepender)."
3. Reparar os Danos Passados (Compensação)
O arrependimento não é só sentir remorso; é também decidir não repetir o pecado no futuro e reparar os danos causados no passado. É preciso limpar, na medida do possível, os efeitos negativos dos pecados tanto internamente (no coração) quanto externamente (nas relações com os outros). Qualquer direito que tenha sido violado deve ser restaurado.
O Alcorão repete em vários versículos que o arrependimento deve vir acompanhado de reforma e reparação. Como no versículo 160 da Surah Al-Baqarah:
"Exceto aqueles que se arrependem, se corrigem e esclarecem [o que ocultavam]; a esses, aceito seu arrependimento, pois Eu sou o Aceitador do Arrependimento, o Misericordiosíssimo."
Na prática, isso significa:
- Restituir os direitos das pessoas que foram prejudicadas (se estão vivas, diretamente a elas; se falecidas, a seus herdeiros).
- Pedir perdão a quem teve a honra manchada por fofoca (ghibah) ou insulto; se a pessoa já faleceu, fazer boas ações em seu nome para confortar sua alma.
- Compensar as práticas religiosas obrigatórias que foram deixadas de lado.
- Pagar a expiação (kaffarah) necessária (por exemplo, por quebrar um jejum intencionalmente ou descumprir uma promessa).
- Acima de tudo, já que o pecado escurece o coração, fazer tantas boas ações e atos de adoração que a luz da obediência substitua a escuridão do pecado.
4. Persistência no Arrependimento e nas Boas Ações
Dissemos que um dos maiores fatores para afastar o desespero e atrair a misericórdia divina é o arrependimento, a reparação e entrar no caminho da obediência. Mas permanecer nesse caminho abençoado exige persistência – praticar boas ações e servir aos outros de maneira constante, construindo uma espiritualidade que afasta a depressão e o desespero e enche o ser de entusiasmo e alegria.
O versículo 82 da Surah Taha explica como se conquista a misericórdia de Deus:
"E, por certo, sou Perdoador para quem se arrepende, crê, faz o bem e depois se mantém na orientação certa."
O verdadeiro arrependimento é aquele que afeta a alma e se manifesta nas ações, palavras e comportamento da pessoa. Quem se arrepende é como um doente cuja enfermidade cessou, mas cujas forças ainda não voltaram ao normal. Com o arrependimento, a pessoa interrompe os pecados futuros, mas os efeitos nocivos do pecado ainda permanecem em sua alma, deixando-a fraca.
Por isso, é preciso fortalecer a alma doente, fraca e desesperada com boas ações, para que ela não volte a pecar – pois uma alma forte é muito menos suscetível ao pecado.
O Imam Ali (A.S), ao listar os pilares do arrependimento, disse como quinto pilar:
"Derreter, através da tristeza e da dor pelo pecado, as carnes que cresceram em seu corpo alimentando-se do proibido, até que a pele se cole aos ossos, e então uma nova carne cresça entre eles (no caminho da obediência)."
Ou seja, a tristeza pelo pecado deve ser tão profunda que transforme inteiramente o ser da pessoa.
5. Seguir o Exemplo da Paciência e Perseverança dos Profetas e Homens de Deus
Tratar o desespero e trilhar o caminho da misericórdia divina não é algo fácil. Exige paciência e tolerância diante de muitas aflições. Para facilitar essa jornada, é muito eficaz lembrar da vida cheia de desafios e paciência dos profetas e dos homens de Deus, e refletir sobre como eles suportaram as dificuldades sem jamais perder a esperança.
Os verdadeiros homens de Deus não mudam seus pensamentos e planos com a mudança das bênçãos ou das dificuldades. Seja na prosperidade ou na adversidade, na liberdade ou na prisão, na saúde ou na doença, no poder ou na fraqueza – em todas as circunstâncias estão voltados para o Senhor. As flutuações da vida não os abalam. Suas almas são como um oceano imenso que as tempestades não perturbam. Eles jamais se desesperam diante de eventos dolorosos. Perseveram e resistem até que as portas da misericórdia divina se abram. Sabem que as dificuldades são testes divinos para purificá-los ainda mais.
Conclusão
Seguindo esses passos de forma gradual e contínua, qualquer ser humano pode se libertar da sombra pesada e sombria do desespero e encontrar novamente a luz da esperança na misericórdia infinita de Deus.
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