17 maio 2026 - 08:58
Amaleque: O Inimigo que Ainda Está Vivo

"Amaleque" – um povo histórico que se tornou um símbolo do mal absoluto na cultura judaica e hoje é usado para justificar as guerras ideológicas de Israel.

Introdução: O que significa Netanyahu chamar iranianos e palestinos de "Amaleque"?

Recentemente, Netanyahu chamou os iranianos de Amaleque. Antes disso, já havia chamado o povo de Gaza pelo mesmo nome. O que ele quer dizer com isso?

A linguagem e a literatura sempre foram ferramentas poderosíssimas no campo da política. Ao longo da história, políticos recorrem com frequência a conceitos antigos, míticos e religiosos para transmitir suas mensagens, criar coesão interna ou justificar suas ações. Esses conceitos têm um alto poder de persuasão porque estão enraizados no inconsciente coletivo e nas crenças religiosas mais profundas.

Recentemente, na literatura política do Oriente Médio, testemunhamos Netanyahu usar uma palavra antiga e bíblica – Amaleque – para descrever o povo de Gaza e, depois, os iranianos. O uso dessa palavra num conflito geopolítico moderno não é um simples discurso inflamado; é uma referência profunda a um dos padrões de confronto mais complexos e violentos encontrados nas escrituras sagradas do judaísmo.

O objetivo deste texto é examinar as raízes históricas e teológicas dessa palavra e analisar sua função na ideia central que ela carrega – sem tomar partido político.


Ponto 1: Origem e Lugar de Amaleque nas Escrituras Sagradas

Para entender por que essa palavra é usada, precisamos voltar aos textos religiosos judaicos.

Segundo as narrativas da Bíblia, Amaleque era o nome de um povo nômade da antiguidade. O primeiro confronto desse povo com os filhos de Israel ocorreu quando os judeus, liderados por Moisés, estavam saindo do Egito e vagueavam pelo deserto. Naquela situação de fragilidade e exaustão, os amalequitas atacaram de forma surpreendente as partes mais fracas da caravana israelita.

Esse ataque foi registrado na teologia judaica como um símbolo da maldade absoluta. Nesse sentido, no Deuteronômio, Moisés, já no final de sua vida, relembra o ataque de Amaleque aos judeus décadas antes e ordena que eles devem apagar para sempre o nome de Amaleque da face da terra:

"Nunca se esqueçam do que os amalequitas fizeram com vocês quando saíram do Egito. Lembrem-se de que eles lutaram contra vocês sem temor a Deus e mataram os que ficaram para trás, cansados e fracos. Por isso, quando o Senhor, seu Deus, lhes der descanso de todos os inimigos ao redor, na terra que Ele lhes dá por herança, vocês devem apagar o nome de Amaleque debaixo do céu. Não se esqueçam disso!" (Deuteronômio 25:17-19)


Ponto 2: A Ordem de Extermínio Total – O Padrão de Confronto com o Mal Absoluto

O conflito com Amaleque continuou ao longo da história dos filhos de Israel, até que, cerca de três séculos depois, no tempo do rei Saul (Talut), esse confronto atingiu seu ápice.

No primeiro livro de Samuel, encontramos uma ordem extremamente dura e inflexível para a vingança e o extermínio total desse povo. Nesse padrão de confronto, não há distinção entre militares e civis, nem sequer entre seres humanos e animais:

"Samuel disse a Saul: 'O Senhor me enviou para ungir você como rei sobre Israel, Seu povo. Portanto, obedeça à mensagem do Senhor Todo-Poderoso. Ele diz: Vou punir os amalequitas pelo que fizeram a Israel, ao se oporem a eles no caminho quando saíram do Egito. Agora vá, ataque os amalequitas e destrua totalmente tudo o que lhes pertence. Não tenha piedade deles; mate homens e mulheres, crianças e recém-nascidos, bois e ovelhas, camelos e jumentos.'" (1 Samuel 15:1-3)

Embora Saul tenha executado grande parte da ordem de extermínio, ele cometeu o erro de poupar o rei dos amalequitas. Essa desobediência fez com que a raiz desse inimigo antigo não fosse completamente cortada.

Por isso, em outras passagens da Bíblia, vemos reis como Davi travando batalhas contínuas contra os sobreviventes amalequitas – confrontos sangrentos que só terminariam definitivamente no tempo do rei Ezequias (um dos mais importantes reis do Reino de Judá).


Ponto 3: A Transformação de Amaleque – De Povo Histórico a Símbolo Atemporal

Com o passar do tempo e o desaparecimento histórico do povo amalequita na antiguidade, essa palavra sofreu uma transformação de significado na literatura e na jurisprudência judaica.

Amaleque deixou de ser um conceito racial/sanguíneo e tornou-se um conceito simbólico e atemporal. Na tradição interpretativa judaica, qualquer inimigo que ameace fundamentalmente a existência dos judeus e queira sua destruição completa – independentemente de raça ou geografia – passa a ser enquadrado no conceito de Amaleque.

Esse rótulo foi aplicado a vários impérios e inimigos ao longo da história. Essa mudança de função confere à palavra uma flexibilidade que permite que ela seja redefinida em cada época, de acordo com a maior ameaça existente.

Um dos exemplos mais marcantes dessa ligação simbólica com o conceito de Amaleque está nos textos relacionados à antiga história da Pérsia (Irã) e à história de Ester e Mardoqueu. A história termina com a vitória dos judeus e a morte de Hamã e seus aliados. Segundo traduções antigas do livro de Ester, nesse evento os judeus em todo o império se vingaram e mataram cerca de 77 mil de seus inimigos (Ester 9:5-32).

Na Enciclopédia do Judaísmo, lemos que, durante a celebração anual do Purim (que relembra esse evento), os judeus leem ritualmente exatamente os versículos do Deuteronômio sobre a necessidade de apagar o nome de Amaleque.


Ponto 4: A Função Política e Psicológica da Palavra "Amaleque" na Era Moderna

Quando uma alta autoridade política ou militar em Israel usa a palavra "Amaleque" para descrever inimigos atuais (como o Hamas em Gaza, ou o Estado e o povo do Irã), ela está traçando uma linha de demarcação extremamente radical com o adversário.

Essa nomeação eleva (ou melhor, rebaixa) a disputa política e territorial de hoje – de uma batalha geopolítica moderna – para uma batalha teológica, histórica e existencial.

A principal função dessa construção discursiva é transmitir a seguinte mensagem à opinião pública interna e aos judeus ao redor do mundo:

"O inimigo atual não é apenas um rival político ou militar. Ele é o mesmo mal absoluto antigo. E, segundo o padrão bíblico, ele deve ser destruído sem as restrições éticas comuns nas guerras modernas (como proporcionalidade na defesa ou distinção entre militares e civis). Nesse caminho, nenhuma misericórdia é permitida."


Conclusão

Diante do que foi exposto, fica claro que o uso da palavra "Amaleque" contra o povo de Gaza e contra os iranianos por autoridades israelenses reflete o profundo entrelaçamento entre religião, mito e política.

Essa palavra, cuja origem está em ordens contidas nas escrituras sagradas para o extermínio de um povo específico na antiguidade, transformou-se ao longo dos séculos num símbolo para o confronto com inimigos.

A conexão desse conceito com eventos históricos como a celebração do Purim demonstra a continuidade desse padrão de pensamento na memória coletiva judaica.

Convocar e usar essa palavra-chave antiga nos tribunos políticos de hoje é uma tentativa consciente de legitimar abordagens maximalistas e justificar ações violentas e impiedosas contra adversários.

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