ABNA Brasil: O princípio da “Nafy-e Sabil”, fundamentado no versículo 141 da Surata An-Nisā’ — “Allah jamais concederá aos descrentes domínio sobre os crentes” — significa a rejeição de qualquer forma de dominação ou via de influência dos descrentes sobre os fiéis. Na jurisprudência xiita, esse princípio é considerado um dos mais importantes princípios governamentais, abrangendo os âmbitos político, econômico, cultural e militar.
O sistema da República Islâmica tem adotado medidas em alguns setores para concretizar a Nafy-e Sabil. No campo militar, alcançou um grau relativo de autossuficiência defensiva e, além disso, ao proibir a presença militar estrangeira e impedir qualquer acesso de estrangeiros às infraestruturas militares, bloqueou as vias de dominação e penetração externa. No campo econômico, a ênfase na economia de resistência e na redução da dependência do petróleo, bem como, no campo político, a rejeição da interferência e da dominação das potências estrangeiras nas decisões internas, constituem exemplos claros da aplicação desse princípio.
Entretanto, ao analisar a situação atual e examinar a implementação desse princípio nas diferentes camadas do sistema, deparamo-nos com o desafio da infiltração cultural, resultante da penetração estrangeira nas camadas ocultas da cultura. A infiltração cultural — sobre a qual o Líder Supremo tem alertado há anos — é uma questão séria que ainda não recebeu a devida atenção nos níveis de gestão. Apesar disso, a infiltração cultural por meio das mídias modernas (internet, redes sociais, satélite, jogos eletrônicos, filmes e séries) constitui um desafio ainda mais grave. As razões da menor atenção a esse fenômeno incluem: a natureza indireta e gradual da infiltração cultural, a complexidade do controle das fronteiras virtuais, as limitações dos instrumentos de controle no espaço digital e a priorização de ameaças mais visíveis (militares e econômicas).
Considerando a importância da aplicação da Nafy-e Sabil no campo cultural, este texto apresenta estratégias políticas para bloquear a “via” da infiltração cultural:
Nível Macro: Concepção de um Sistema Cultural Coerente
- Elaboração de um documento estratégico cultural com foco na Nafy-e Sabil:
Inicialmente, é necessário definir indicadores operacionais da infiltração cultural. Em seguida, deve ser criado um sistema para monitoramento contínuo desse fenômeno. Por fim, deve ser designado um órgão central responsável, dotado de autoridade intersetorial. - Fortalecimento da construção discursiva religioso-cultural:
Isso pode ser realizado por meio da produção de conteúdos atrativos baseados nos ensinamentos islâmico-iranianos, da redefinição de conceitos islâmicos em uma linguagem contemporânea e da utilização de métodos persuasivos em vez de abordagens impositivas.
Nível Intermediário: Mecanismos de Execução
- Sistematização da gestão do espaço virtual:
Um dos pontos mais fundamentais é o desenvolvimento das infraestruturas nacionais de informação (Rede Nacional de Informação). A criação de plataformas nacionais competitivas em relação às estrangeiras e o estabelecimento de sistemas inteligentes de monitoramento e análise de conteúdos culturais podem representar uma das barreiras mais eficazes contra a infiltração estrangeira nas camadas internas da cultura. - Reforma do sistema educacional e formativo:
O fortalecimento da alfabetização midiática e do pensamento crítico desde o nível escolar, bem como o ensino de habilidades para enfrentar a guerra suave do inimigo, são prioridades de qualquer sistema educacional — contudo, no sistema educacional iraniano, essas questões ainda não são tratadas de forma séria. Considerando que a cultura iraniana tem sido alvo de ataques e investidas culturais do Ocidente há muitos anos, torna-se necessário dedicar maior atenção a esse tema e revisar os currículos escolares para incluir conteúdos relacionados ao colonialismo cultural. A integração do ensino religioso com as necessidades da juventude também pode promover mudanças significativas no sistema educacional. Quando a mente de crianças e jovens é alimentada por mídias transnacionais sob a hegemonia de Israel e dos Estados Unidos, o sistema educacional tem o dever de elaborar conteúdos didáticos alinhados às necessidades e problemáticas dessa faixa etária.
Nível Micro: Participação Popular
- Fortalecimento das instituições culturais populares:
Isso pode ser alcançado por meio do apoio a associações culturais populares autogeridas, da criação de incentivos financeiros e simbólicos para produtores de conteúdo nacional e da formação de redes sociais internas geridas pela comunidade acadêmica e intelectual. - Política midiática inteligente:
Inclui a segmentação de públicos e o desenvolvimento de mensagens direcionadas, o uso de métodos indiretos de formação cultural (humor, arte, esporte) e o aproveitamento do potencial da diplomacia cultural para a difusão dos valores islâmicos.
Ferramentas Necessárias para a Implementação
- Ferramentas de hardware: desenvolvimento de tecnologias nacionais de filtragem inteligente, criação de centros de dados internos seguros e investimento nas indústrias culturais e midiáticas.
- Ferramentas de software: formação de especialistas em ciências humanas islâmicas, criação de bancos de conteúdo religioso em formatos diversificados e desenvolvimento de jogos eletrônicos com temáticas islâmico-iranianas.
- Ferramentas legais: elaboração de leis abrangentes para o espaço virtual com preservação dos direitos dos cidadãos, criação de sistemas de classificação de conteúdos culturais e fortalecimento dos direitos de propriedade intelectual para produtores nacionais.
Políticas Propostas
- Política de interação ativa, não de passividade:
Em vez de uma postura meramente defensiva, deve-se promover a produção e o intercâmbio cultural ativo. Deus Todo-Poderoso afirma no versículo 13 da Surata Al-Hujurāt:
“Ó humanidade! Nós vos criamos de um homem e de uma mulher e vos dividimos em povos e tribos para que vos conheçais. Em verdade, o mais honrado dentre vós, perante Deus, é o mais piedoso. Deus é Onisciente, Bem Informado.”
A diversidade humana faz parte do desígnio divino, cabendo aos seres humanos compreender essas diferenças e possibilitar o intercâmbio cultural. - Política de diferenciação:
Consiste em distinguir entre “intercâmbio cultural” e “infiltração cultural”. Em muitos casos, culturas coloniais, por meio de estratégias enganosas, impõem sua cultura sob o pretexto do intercâmbio. Nesse contexto, o país receptor deve evitar assumir uma posição puramente passiva: deve filtrar o conteúdo recebido e assegurar que o fluxo de informações seja bidirecional. Caso contrário, não se trata de intercâmbio, mas de infiltração e colonialismo cultural. - Política de priorização:
Foco em faixas etárias mais vulneráveis, como adolescentes e jovens. A observação da realidade social demonstra que esses grupos estão diretamente sob a influência das mídias. A conscientização e o esclarecimento devem preceder a ocorrência de crises, e não ocorrer apenas como resposta posterior. Por meio de uma prospectiva adequada, é possível identificar soluções antes que os problemas atinjam níveis críticos. - Política de avaliação contínua:
Criação de um sistema permanente de avaliação do impacto das políticas culturais. As políticas devem ser adaptadas às especificidades locais antes de sua implementação. Dada a grande diversidade étnica do Irã, não é realista esperar sucesso com uma política cultural única para todos os grupos. É necessário implementar políticas específicas para cada grupo, com avaliações realizadas durante o processo de execução, permitindo ajustes oportunos sempre que surgirem problemas.
A plena realização da Nafy-e Sabil no campo cultural exige uma mudança de paradigma: do “controle absoluto” para a “criação de atratividade e imunização cultural”. O sucesso desse caminho depende da coordenação entre as instituições governamentais, da participação das elites intelectuais e do engajamento popular. Além disso, deve-se reconhecer que, no mundo interconectado de hoje, o isolamento não é uma solução; ao contrário, o fortalecimento de uma identidade sólida e da autoconfiança cultural é o que pode impedir a infiltração cultural estrangeira, ao mesmo tempo em que permite a interação com o mundo.
Esse percurso requer paciência, discernimento e determinação nacional, de modo que, preservando os valores islâmico-iranianos, seja possível também usufruir das conquistas positivas da civilização humana.
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