Agência Internacional de Notícias Ahl al-Bayt (ABNA):
A ideia de que suplicar e esperar a mudança do destino e de nossos assuntos contradiz a crença de que nosso destino está determinado na ciência, no decreto e na predestinação divinos é uma ideia incorreta. Ela nasce do desconhecimento da realidade do decreto e da predestinação (qadha' wa qadar) e do lugar que a súplica ocupa nessa questão. Se a consequência do decreto e da predestinação divinos fosse que "cada pessoa nasce de sua mãe com um destino fixo e imutável, e o esforço para mudar o destino é algo inútil", então não apenas a súplica, mas também todas as demais ações humanas seriam inúteis.
Essa interpretação do decreto e da predestinação não é correta, não é confirmada pelo Islã e é incompatível com conceitos islâmicos consensuais como: obrigação religiosa (taklīf), esforço pela causa de Deus (jihād), empenho e esforço, perseverança, a Ressurreição, a prestação de contas, bem como com muitos versículos do Alcorão, como o versículo 39 da Surata 53 (An-Najm), que diz:
“Com efeito, não pertence ao homem senão aquilo que ele se esforça.” (Qur'an 53:39)
Pois, segundo este versículo, o destino do ser humano está vinculado ao seu próprio esforço e empenho. E Deus, com Seu conhecimento do passado e do futuro, estabeleceu o destino do ser humano de acordo com sua vontade e seu esforço. Nessa mesma linha, lemos no versículo 11 da Surata 13 (Ar-Ra'd):
“Por certo, Deus não modifica a situação de um povo enquanto eles não modificarem o que está em si mesmos.” (Qur'an 13:11)
Este versículo também aponta para essa questão.
Com essa introdução, vamos abordar a solução do problema central apresentado nesta questão, para ver como podemos encontrar a função e o lugar principal da súplica no tema do “decreto e predestinação”.
Tipos e significados de qadha' e qadar
Com base no que nos chegou por meio das tradições (hadiths), qadha' e qadar têm dois significados, e a súplica, segundo ambos os significados, possui efeitos positivos:
1. Qadha' e qadar takwīnī (criacional, existencial)
O significado é que toda coisa, todo acontecimento e todo fenômeno no universo tem uma causa e uma medida: nada surge sem causa e nada surge sem uma medida determinada. Por exemplo, se atiramos uma pedra e um vidro se quebra, esse acontecimento certamente tem uma causa dentro do sistema de causa e efeito. (1)
O Professor Morteza Motahhari diz: “Se o significado pretendido por decreto, predestinação e destino divinos for a negação das causas, dos efeitos, do livre-arbítrio e da vontade humana, então tal decreto, predestinação e destino não existem e não podem existir.” (2)
Em uma tradição do Imam al-Sādiq (A.S.), lemos: “Deus recusa que as coisas ocorram senão por meio de suas causas.” (3)
Com base nessa tradição, fica claro que o destino do ser humano também se realiza com base em causas e meios específicos – e “a vontade e o esforço do ser humano” são um desses meios. E “suplicar” é também um dos nossos atos voluntários que desempenha um papel importante na satisfação de nossas necessidades.
O Professor Motahhari diz em outro lugar: “Do ponto de vista da cosmovisão divina, o universo é ao mesmo tempo ouvinte e vidente. Ele ouve o clamor e o grito dos seres vivos e lhes responde. Por essa razão, a súplica é uma das causas deste mundo que influencia o destino do ser humano. Ela impede certos fluxos ou cria certos fluxos. Em outras palavras, a súplica é uma das manifestações do decreto e da predestinação, podendo influenciar o destino de um acontecimento ou impedir um decreto e uma predestinação.” (4)
2. Qadha' e qadar tashrī'ī (legislativo)
Significa a ordem divina na determinação das obrigações individuais e sociais dos seres humanos, bem como a quantidade e os limites dessas obrigações. Por exemplo, dizemos: suplicar é recomendável (mustahab), e a oração (salat) é obrigatória (wajib). Isso é uma ordem divina – um decreto legislativo. Depois, dizemos: recitar a súplica da maneira que veio nas tradições tem maior efeito, ou a oração tem 17 rak'ahs por dia. Isso é uma medida divina legislativa. (5) Vale notar que aquilo que é exposto na lei islâmica (sharia) também possui efeitos criacionais (existenciais). De qualquer forma, por este aspecto também, suplicar é considerado adoração (ibadah), possui inúmeros efeitos positivos, e esses mesmos efeitos preparam os pré-requisitos para a resposta da súplica.
O conhecimento de Deus não contradiz o esforço humano – inclusive a súplica
O conhecimento de Deus não contradiz o esforço humano – inclusive a súplica – pois, no conhecimento de Deus, os acontecimentos do universo se realizam com base na ocorrência de causas e fatores, e a súplica é um dos fatores eficazes. Deus certamente está ciente de nossas intenções e desejos. No entanto, como Deus administra o universo segundo o sistema de causas e efeitos, devemos, para realizar nossos desejos, não poupar nenhum esforço. E um dos meios eficazes para a satisfação das necessidades é a súplica.
Pode ser que a realização de algo dependa da súplica; se suplicarmos, o destino será registrado de outra maneira. Nesse sentido, o Imam al-Sādiq (A.S.) diz:
“A súplica repele o decreto (qadha') depois que ele já foi firmemente determinado. Portanto, multiplicai as súplicas, pois ela é a chave de toda misericórdia e o êxito de toda necessidade.” (6)
Também foi narrado do Imam al-Kāẓim (A.S.):
“Tende sempre à súplica, pois a súplica a Deus e o pedido a Deus repelem a calamidade, depois que ela já foi decretada e determinada (qadara wa qudiya) e nada resta senão sua efetivação.” (7)
Em conclusão: Deus, que está ciente de todas as coisas e até mesmo de nossa súplica, estabeleceu para a súplica, assim como para os demais atos de adoração, inúmeros efeitos positivos dentro do sistema de causas e efeitos.
A súplica possui efeitos e bênçãos que tornam seu ato recomendável
Se algumas de nossas necessidades ficaram condicionadas à “súplica”, é devido aos efeitos positivos que existem no ato de suplicar. Via de regra, esses mesmos efeitos também preparam os pré-requisitos para a resposta. Entre eles:
1. Beneficiar-se do elemento da confiança em Deus (tawakkul) por meio da súplica
Pela súplica, o ser humano, ao iniciar qualquer coisa, vê Deus ao seu lado e confia n'Ele. Uma ação iniciada com a lembrança de Deus e com confiança n'Ele certamente terá melhores resultados e um desfecho melhor.
2. Atrair a atenção divina por meio da súplica
Quando o ser humano, mediante a súplica, volta sua atenção para Deus e confia n'Ele, também se torna objeto da atenção divina. Como lemos no versículo 77 da Surata 25 (Al-Furqan):
“Dize: Meu Senhor não Se importaria convosco, não fosse a vossa súplica.” (Qur'an 25:77)
O ser humano, por meio da súplica e da humilhação, dirige sua atenção a Deus, e isso faz com que ele também se torne objeto da atenção divina. Por isso Deus elogiou o profeta Zacarias (A.S.) e seus familiares por suplicarem, conforme diz no versículo 90 da Surata 21 (Al-Anbiya):
“Em verdade, eles se apressavam em fazer o bem e Nos suplicavam com anelo e temor, e eram humildes perante Nós.” (Qur'an 21:90)
3. Adquirir esperança e fortalecer a vontade por meio da súplica
A súplica, diante de acontecimentos difíceis e insuportáveis, dá ao ser humano poder, força, esperança e tranquilidade, tendo um efeito psicologicamente inegável. (8)
Além disso, a súplica fortalece a vontade: ao suplicar e expressar verbalmente o seu desejo, o ser humano adquire uma vontade prática mais firme. Pois a súplica, a confiança em Deus e a fé sólida dissipam a preocupação, a inquietação, a agitação e o medo – que são responsáveis por mais da metade de nossos sofrimentos. (9)
Talvez seja por essa razão que, em algumas tradições islâmicas, a “súplica” é descrita como a arma do crente [para vencer o inimigo e as adversidades]. (10)
4. Adquirir autoconsciência com a súplica
A súplica é um tipo de autoconsciência, um despertar do coração e do pensamento, e uma vínculo interior e consciente com o Senhor do universo. Pois a súplica é ao mesmo tempo algo que desperta, e sua aceitação está condicionada a evitar a negligência (ghaflah).
Em uma palavra do Imam Ali (A.S.), lemos:
“Deus – Todo-Poderoso e Majestoso – não aceita a súplica de um coração negligente.” (11)
Por outro lado, aqueles que não suplicam nem se humilham diante de Deus acabam sofrendo de dureza de coração, conforme lemos no versículo 43 da Surata 6 (Al-An'am):
“E, com efeito, enviamos [mensageiros] às nações anteriores a ti, e as afligimos com miséria e adversidade, para que se humilhassem. Então, por que, quando lhes chegava Nossa severidade, não se humilhavam? Mas seus corações se endureceram...” (Qur'an 6:42-43)
5. Vitória sobre as angústias interiores por meio da súplica
A súplica também tem propriedades muito eficazes no combate às angústias interiores. A vida do ser humano nunca esteve isenta de infortúnios nem está agora. Temos evidências e indícios de que o volume dos problemas psicológicos aumentou drasticamente com o avanço da civilização industrial. As causas principais podem ser resumidas em alguns pontos:
- Desequilíbrio entre o progresso técnico-industrial e o progresso do crescimento moral – o que gera todo tipo de agressão social, econômica e militar, resultando no predomínio do princípio “tudo para mim” em vez de “tudo para todos”, além de vários tipos de exclusivismo individual e coletivo, usurpação e agressão aos direitos alheios.
- Sensação de inutilidade, vacuidade e falta de espírito na vida, porque os objetivos que as atuais sociedades materialistas traçam para a vida não podem harmonizar-se com o valor existencial do ser humano.
- O aumento dos confrontos e atritos de interesses, a expansão dos conflitos sociais, as preocupações decorrentes de transgressões, quebras de promessas, fracassos e derrotas são outro fator importante para essas angústias.
- Os meios insalubres “excitantes” ou “entorpecentes” usados como formas de entretenimento são fatores importantes para o aumento crescente dessas angústias. A velocidade das transformações sociais e mundiais também aviva tais fatores e os torna mais densos, de modo que os nervos do ser humano da nossa época se perturbam sob o pesado fardo da angústia e da preocupação.
Uma vez que as preocupações são a fonte do estado de “tristeza”, a súplica tem um efeito profundo na eliminação da angústia, pois, por um lado, promove o crescimento moral e o equilíbrio entre as evoluções materiais e as evoluções morais e afetivas. (12)
6. Beneficiar-se dos ensinamentos morais, cognitivos e dos efeitos educativos da súplica
Quando o ser humano se volta para Deus, ele se põe a pensar que Deus é Onipotente e Onisciente sobre todas as coisas, conhecendo os segredos interiores e exteriores. Isso eleva o nível do conhecimento (marifah) do ser humano. (13)
Além disso, as súplicas – especialmente as súplicas dos Infallíveis (A.S.) – são ricas em lições sublimes de educação, moral e conhecimentos religiosos. Por exemplo, “A Súplica do Lamento” (Du'ā' an-Nudbah), para aqueles que a recitam com atenção, presença de coração e consideração de seu conteúdo, é um curso sobre o Imamato e a Vilāyat (tutela) amorosa. A longa e rica “Súplica de Arafah” contém um curso completo de conhecimentos e crenças, especialmente uma lição sobre o monoteísmo e a unicidade divina. A “Súplica de Kumayl” nos ensina purificação, autoaprimoramento e arrependimento. E da “Súplica das Nobres Virtudes Morais” (Makārim al-Akhlāq) pode-se extrair um curso completo de moral islâmica. (14)
7. A propriedade de afastar a negligência em algumas súplicas
A súplica chama a atenção do ser humano para questões às quais ele não está atento e das quais está negligente. Por exemplo, a súplica que os xiitas recitam após as orações diárias no mês sagrado do Ramadã, que começa com o trecho “Allāhumma adkhil 'alā ahli l-qubūri s-surūr” (Ó Deus, faze entrar alegria sobre os habitantes dos túmulos) (15), faz o ser humano lembrar-se de muitas coisas que estiveram esquecidas durante o ano: a necessidade de eliminar a pobreza e a necessidade dos necessitados, alimentar os famintos, pagar as dívidas dos devedores, dissipar a tristeza dos aflitos, etc. (16)
8. O efeito da súplica na coesão social para alcançar grandes objetivos
Considerando que um dos fatores que influenciam a eficácia da súplica é suplicar pelos outros, vemos que a súplica faz com que o espírito social substitua os exclusivismos individuais. Devido à atenção a uma origem infinita, eterna e sem começo (Deus) – fonte de todo o bem – o ser humano afasta de si o sentimento de inutilidade e vacuidade e encontra um grande objetivo para a vida. (17)
9. O efeito da súplica na saúde do corpo
Assim como escreve um dos psicólogos e médicos contemporâneos mais famosos, Alexis Carrel, em seus livros A Oração (Prayer) e A Conduta da Vida (The Conduct of Life): a súplica e a oração criam um desabrochar e uma expansão interior completos e corretos nas atividades cerebrais humanas, e às vezes estimulam o heroísmo e a coragem. Além disso, a oração não afeta apenas os estados emocionais, mas também, como dissemos, influencia as qualidades corporais, às vezes curando uma enfermidade física em poucos momentos ou poucos dias.
Esse cientista, em seu livro A Oração, enfatiza essa questão e considera sua comprovação definitiva por meio da experiência. Ele diz: a oração às vezes tem efeitos surpreendentes; houve pacientes que se curaram quase instantaneamente de dores como hanseníase, câncer, infecção renal, úlceras crônicas, tuberculose pulmonar etc. (18)
Esses efeitos positivos da súplica fazem com que a vida do ser humano se transforme, e até mesmo o decreto e a predestinação divinos em relação ao ser humano se modifiquem.
Notas:
(1) Tradução clara e comentário resumido do Nahj al-Balaghah, Naser Makarem Shirazi, Ed. Hedef, Qom, s.d., 1ª ed., vol. 3, p. 497.
(2) Obras reunidas do Professor Motahhari, Morteza Motahhari, Ed. Sadra, Teerã, 1374 H.sh. (1995), vol. 1, p. 384.
(3) Bihār al-Anwār, Muhammad Baqir al-Majlisi, Ed. Dar Ihya al-Turath al-Arabi, Beirute, 1403 H. (1983), 2ª ed., vol. 2, p. 90.
(4) Obras reunidas do Professor Motahhari, mesma obra, vol. 1, p. 406.
(5) Tradução clara e comentário resumido do Nahj al-Balaghah, mesma obra.
(6) Al-Kāfī, Muhammad ibn Ya'qub al-Kulayni, Ed. Dar al-Kutub al-Islamiyyah, Teerã, 1407 H. (1987), 4ª ed., vol. 2, p. 470.
(7) Al-Kāfī, mesma obra, vol. 2, p. 470.
(8) Exemplo de exegese (Tafsir Nemuneh), Naser Makarem Shirazi, Ed. Dar al-Kutub al-Islamiyyah, Teerã, 1374 H.sh. (1995), 32ª ed., vol. 15, p. 176.
(9) Exemplo de exegese (Tafsir Nemuneh), mesma obra, vol. 1, p. 642; A Maneira de Viver, Dale Carnegie, trad. Jahangir Afkhami, Ed. Armaghan, Teerã, 1376 H.sh. (1997), pp. 185-188 (adaptado).
(10) Irshād al-Qulūb, Hasan ibn Muhammad al-Daylamī, trad. Mostarahami, Ed. Mostafavi, Teerã, 1349 H.sh. (1970), 3ª ed., vol. 2, p. 169.
(11) Al-Kāfī, mesma obra, vol. 2, p. 473, hadith 2.
(12) O Surgimento das Religiões/Seitas, Naser Makarem Shirazi, Ed. Madrassa al-Imam Ali ibn Abi Talib (A.S.), Qom, 1384 H.sh. (2005), 1ª ed., pp. 105-106.
(13) Belos Exemplos do Alcorão, Naser Makarem Shirazi, org. Abulqasim Alian Nejad, Ed. Nove Jovem, Qom, 1382 H.sh. (2003), 1ª ed., vol. 1, p. 280.
(14) Os Mais Nobres Servos, Naser Makarem Shirazi, Ed. Nove Jovem, Qom, 1383 H.sh. (2004), 1ª ed., p. 232.
(15) Bihār al-Anwār, mesma obra, vol. 95, p. 120.
(16) Os Mais Nobres Servos, mesma obra, p. 234.
(17) O Surgimento das Religiões/Seitas, mesma obra, p. 106.
(18) O Surgimento das Religiões/Seitas, mesma obra, p. 107.
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