28 abril 2026 - 10:34
Construção de Santuários e Douramento em Condições de Crise: Esses Gastos São Racionais?

A construção de santuários e zarihs (tumbas sagradas) é uma forma de expressar amor pela Ahlulbayt (a.s.) e de venerar os símbolos divinos, enquadrando-se no âmbito da religião. Portanto, não se considera uma bid’ah (inovação herética).

Agência Internacional de Notícias Ahlulbayt (a.s.) – ABNA: Construir cúpulas e mausoléus, fazer zarihs, aplicar douramento etc., não é bid’ah? Qual é a justificativa para gastos pesados com santuários em uma situação em que as necessidades urgentes de subsistência pressionam fortemente o povo?

A pergunta sobre se a construção de cúpulas, mausoléus, zarihs e douramento de santuários constitui bid’ah — especialmente em condições em que a sociedade enfrenta pressões econômicas — é uma questão séria e digna de reflexão. Na verdade, essa pergunta tem duas camadas: a primeira, de natureza jurídica e religiosa, indaga se essas ações se enquadram entre as bid’ahs religiosas; a segunda, de caráter ético e social, examina a relação desses gastos com as prioridades econômicas e as necessidades imediatas da população. Uma resposta precisa só é possível separando claramente esses dois campos e evitando julgamentos emocionais ou extremados (tudo ou nada).

Ponto 1: Definição precisa de bid’ah e o status dessas ações

Na jurisprudência islâmica, “bid’ah” significa introduzir na religião algo que não possui texto específico (nass) nem se enquadra nas regras gerais e abrangentes da religião (1). Portanto, qualquer coisa nova ou fenômeno recente não é automaticamente considerado bid’ah apenas por não ter precedente histórico. Muitas instituições, comportamentos e costumes de nossa vida atual não existiam na forma atual no início do Islã, mas, por se enquadrarem nas generalidades religiosas, não são bid’ah.

A construção de santuários, zarihs e cúpulas pertence a essa categoria. Essas ações são uma forma de expressar afeto pelos amigos de Deus e de honrá-los. O Sagrado Alcorão apresenta explicitamente o amor pelos parentes do Profeta (que Deus o abençoe e sua família) como a recompensa da missão profética (2). Uma das manifestações sociais e históricas desse afeto tem sido a veneração dos túmulos e santuários deles. Além disso, o Alcorão recomenda a exaltação dos símbolos divinos e a considera sinal de piedade do coração (3). É evidente que a visita aos santuários da Ahlulbayt desempenha um papel importante na exaltação dos símbolos divinos. Portanto, o princípio dessa prática se enquadra nas generalidades religiosas e está fora do âmbito da bid’ah.

Ponto 2: A questão do desperdício e seus limites

Apesar da importância da exaltação e honra aos amigos de Deus e aos santuários, essa ação não é incondicional. O Islã se opõe ao desperdício (israf), ao esbanjamento (tabzir) e à má gestão de recursos, e enfatiza a moderação em todos os assuntos (4).

Portanto, qualquer gasto ou ação cultural e religiosa que ultrapasse o limite razoável ou que faça esquecer as prioridades essenciais da sociedade é passível de crítica. Essa crítica não se dirige ao próprio ato de veneração e construção de santuários, mas ao modo de gestão e tomada de decisão.

Na verdade, o respeito às tradições religiosas e aos valores espirituais não deve levar a falta de planejamento ou a gastos ineficientes. Uma gestão correta dos recursos, planejamento preciso e definição de tetos razoáveis para os gastos podem preservar os valores religiosos ao mesmo tempo em que evitam o desperdício de bens e pressões desnecessárias sobre a sociedade. Essa visão é compatível tanto com os princípios éticos e econômicos quanto aumenta a confiança pública nas instituições religiosas e culturais.

Ponto 3: Diferença entre bens waqf (dotados) e não waqf

Na análise dos gastos e da gestão financeira dos santuários, a distinção entre bens waqf e bens públicos é fundamental. Os bens waqf e as oferendas específicas — como dinheiro ou bens que o doador destinou explicitamente para douramento ou construção de zarih — devem ser usados exatamente na finalidade indicada. Convertê-los para outros fins, mesmo para ajudar os pobres, não é permitido. Isso garante o respeito à intenção do doador e a legalidade religiosa do uso do waqf.

Por outro lado, os bens públicos e não restritos — ou seja, recursos sem limitação específica de uso — devem ser gastos com planejamento, priorização e atenção às necessidades vitais da sociedade, como saúde, educação e subsistência. A gestão desses recursos exige planejamento inteligente e equilíbrio entre as diversas áreas.

Ponto 4: Equilíbrio entre as diversas necessidades da sociedade

A sociedade possui um conjunto de necessidades variadas e, por vezes, contraditórias. Não se pode atender a parte das necessidades de subsistência de um grupo ignorando completamente outras necessidades públicas e culturais. Por exemplo, não se pode, para reduzir custos e destinar recursos apenas à subsistência, interromper o apoio a tratamentos de doenças graves, impedir a construção e o desenvolvimento de estádios, cinemas e atividades culturais e educacionais, nem eliminar gastos razoáveis para preservar o patrimônio cultural e os santuários. Tais decisões não só são injustas, como geram conflitos entre as diferentes necessidades da sociedade.

A solução racional é a gestão inteligente e otimizada dos recursos disponíveis: reformar os gastos e utilizar as capacidades existentes para atender às diversas necessidades. Por exemplo, estádios e cinemas podem sediar competições, espetáculos e programas de benefício público; parte da bilheteria pode ser destinada aos necessitados e filmes educativos e impactantes podem ser produzidos. Da mesma forma, gastos razoáveis para preservar e embelezar os santuários podem tanto manter o valor cultural e espiritual dos edifícios quanto atender às necessidades espirituais e sociais do povo. Essa abordagem garante que todas as necessidades da sociedade sejam supridas de forma equilibrada e justa.

Ponto 5: Atenção às funções sociais e culturais dos santuários

Os santuários não devem ser vistos apenas como locais de visitação individual e devoção pessoal. Ao longo da história islâmica, esses edifícios tiveram papéis que vão além da função ritualística e se tornaram centros influentes culturais, sociais e até econômicos. A reunião de peregrinos, a formação de waqfs e oferendas populares e a confiança pública nesses centros criaram uma capacidade sustentável que permite organizar atividades extensas de benefício comum.

Além da expansão do espaço de visitação, muitos santuários, com base nesses recursos populares, tornaram-se origem de diversos serviços sociais: da ajuda aos desfavorecidos e necessitados até a criação de centros de tratamento, educacionais, de pesquisa e serviços. Essas funções mostram que os santuários, na prática, estabeleceram uma ponte entre espiritualidade e responsabilidade social, elevando a prática religiosa do nível individual para o âmbito da ação coletiva.

Nesse contexto, os aspectos visuais, o esplendor arquitetônico e a beleza estética desses edifícios tiveram um papel decisivo. Essas manifestações, além de gerar respeito e atração espiritual, despertam a atenção pública e aumentam a motivação para a participação popular em obras de caridade e waqfs duradouros. Assim, os santuários são simultaneamente símbolos de espiritualidade e motores que impulsionam atividades sociais e humanitárias nas sociedades islâmicas.

Ponto 6: Atrair a atenção de observadores externos

Quando alguém se depara com um edifício que, por sua grandeza, arquitetura e beleza, se diferencia claramente de túmulos e construções comuns, surge naturalmente na mente a pergunta: quem é essa personalidade que, após séculos, alcançou tamanha posição elevada e que significado e mensagem estão por trás dessa veneração?

Essa capacidade de despertar perguntas é o início de um processo cognitivo que pode levar o observador da mera visão superficial a buscas mais profundas. Em muitos casos, esse primeiro encontro faz com que a pessoa se interesse em estudar a história, o pensamento, a conduta ética e social do dono daquele santuário, familiarizando-se com camadas do Islã e do xiismo que talvez nunca alcançaria pelos canais oficiais de propaganda religiosa. Sob essa perspectiva, o esplendor externo desses edifícios não substitui a mensagem espiritual, mas serve como uma porta de comunicação para transmiti-la — uma porta que, sem imposição e usando a linguagem da bela arte, convida o observador à reflexão e ao diálogo.

Ponto 7: Douramento como método de preservação das cúpulas

Ao examinar o douramento das cúpulas dos santuários, não se deve interpretá-lo apenas como um aspecto estético ou emocional. É essencial considerar também as questões técnicas e de engenharia para a proteção do edifício. A experiência histórica da arquitetura religiosa, aliada a avaliações técnicas, mostra que o douramento — quando executado corretamente — é um dos métodos mais duráveis para proteger cúpulas grandes contra a erosão natural a longo prazo.

No passado, quando não existiam betume e impermeabilização como hoje, as cúpulas estavam mais expostas que outras partes do edifício a pressões ambientais: variações extremas de temperatura, radiação solar direta, chuva, neve e geada. Materiais como tijolo, cimento ou azulejo, embora pareçam mais baratos inicialmente, após algumas décadas (cerca de trinta anos) sofrem rachaduras, infiltração de umidade e desmoronamento, exigindo reparos frequentes e caros. Em contrapartida, o douramento de chapas de cobre com uma camada fina de ouro, graças à flexibilidade do cobre e à estabilidade química do ouro, proporciona uma cobertura resistente e duradoura que pode resistir por séculos.

Do ponto de vista econômico, apesar do custo inicial mais alto, o douramento é considerado uma das opções mais rentáveis a longo prazo, pois reduz drasticamente os custos acumulados de reparos periódicos. Portanto, o douramento das cúpulas — desde que observadas as normas religiosas e de gestão — não é sinal de luxo excessivo, mas uma combinação de racionalidade técnica, economia sustentável e preservação do patrimônio religioso e histórico.

Conclusão

Do que foi exposto, fica claro que o douramento de cúpulas não é bid’ah. Do ponto de vista jurídico, bid’ah é algo que não possui texto específico nem se enquadra nas generalidades religiosas. A construção de santuários e o douramento de cúpulas, por expressarem amor à Ahlulbayt e exaltarem os símbolos divinos, enquadram-se no âmbito da religião e não são bid’ah.

Por outro lado, toda ação cultural e religiosa, inclusive a construção de santuários, deve ser acompanhada de moderação, afastamento do desperdício e boa gestão de recursos. Os bens waqf e as oferendas devem ser usados conforme a intenção do doador, e os bens públicos devem ser geridos com atenção às diversas necessidades da sociedade, incluindo saúde, educação e subsistência.

Os santuários, para além de locais de visitação, possuem papéis cultural, social e econômico, e seus recursos populares possibilitam o desenvolvimento de serviços de benefício comum. Os aspectos arquitetônicos e o esplendor visual, além da atração espiritual, despertam a atenção do povo e de observadores, fortalecendo a participação em obras de caridade.

O douramento das cúpulas, além da beleza, é uma solução técnica e sustentável para a proteção duradoura do edifício, garantindo economia e eficiência no horizonte econômico. Em última análise, uma visão abrangente e equilibrada desses assuntos preserva os valores religiosos e culturais ao mesmo tempo em que atende às diversas necessidades sociais e espirituais da sociedade.

Notas de rodapé

  1. Conforme a expressão do Allamah Majlisi: «البِدْعَهُ فی الشَّرعِ ما حَدَثَ بَعْدَ الرَّسُولِ [بما انّه من الدین] وَ لَمْ یَکُنْ فِیهِ نَصٌ عَلی الخصوصِ وَ لا یَکُونُ داخلًا فی بَعْضِ العُمُوماتِ» (Majlisi, Muhammad Baqir, Bihar al-Anwar al-Jami’ah li Durar Akhbar al-A’immah al-Athar, Beirute, Mu’assasat al-Wafa, 1403 q., vol. 74, p. 202). Ou seja, bid’ah é introduzir algo sem precedente na religião que não possui texto específico nem é coberto por nenhuma generalidade.
  2. Surata Ash-Shura, versículo 23: «قُلْ لَا أَسْأَلُكُمْ عَلَيْهِ أَجْرًا إِلَّا الْمَوَدَّةَ فِي الْقُرْبَىٰ.»
  3. Surata Al-Hajj, versículo 32: «ذَٰلِكَ وَمَنْ يُعَظِّمْ شَعَائِرَ اللَّهِ فَإِنَّهَا مِنْ تَقْوَى الْقُلُوبِ.»
  4. Por exemplo, Surata Al-Furqan, versículo 67: «وَالَّذِينَ إِذَا أَنْفَقُوا لَمْ يُسْرِفُوا وَلَمْ يَقْتُرُوا وَكَانَ بَيْنَ ذَٰلِكَ قَوَامًا» e Surata Al-Isra, versículos 26 e 27: «وَلَا تُبَذِّرْ تَبْذِيرًا ۝ إِنَّ الْمُبَذِّرِينَ كَانُوا إِخْوَانَ الشَّيَاطِينِ ۖ وَكَانَ الشَّيْطَانُ لِرَبِّهِ كَفُورًا.»

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