29 abril 2026 - 11:33

Muitos acreditam que as chamas da guerra são as primeiras a cortar a raiz do sustento e do meio de vida. No entanto, um olhar profundo sobre os ensinamentos revelados mostra que a guerra não é o fim do sustento, mas uma prova para mudar seus canais. Neste texto, examinamos a relação entre as ansiedades econômicas em tempos de conflito e as promessas imutáveis de Deus.

De acordo com a Agência Internacional Ahlulbayt (a.s.) – ABNA: Hojjatoleslam Mohammad Hossein Amin, escritor e pesquisador religioso, preparou um texto exclusivo para a ABNA sobre a explicação do tema do rezq (sustento divino) em tempos de crise e guerra. O texto completo segue abaixo:

A sombra pesada da ansiedade sobre as mesas terrenas

Quando os tambores da guerra soam, antes mesmo que uma bala rasgue o peito de um ser humano, um tremor atinge corações preocupados com o amanhã. Do ponto de vista inicial e material, a guerra significa destruição de infraestrutura, fechamento de mercados e, por fim, fome. Mas, segundo os ensinamentos xiitas, o rezq é um fluxo fluido e supramaterial cuja chave está nas mãos do “Razeq” (Provedor), e não nas mãos de políticos e belicistas.

O medo da pobreza em tempos de batalha é, na verdade, uma das armas antigas de Satanás para enfraquecer os passos dos fiéis no caminho da verdade. Deus, no Sagrado Alcorão, afirma claramente que Satanás vos ameaça com a pobreza para vos impedir de praticar a generosidade e a perseverança. A guerra apenas afasta os véus para revelar o verdadeiro nível de nossa confiança no manancial principal do sustento, e não para destruir sua fonte.

Deve-se saber que o rezq já destinado (maqsum) nunca se perde por causa dos incidentes do mundo. O Imam Ali (a.s.) disse: «O sustento é de dois tipos: o sustento que você busca e o sustento que busca você». Mesmo no meio de um campo minado, o sustento destinado à sobrevivência do ser humano encontrará seu caminho através das trincheiras.

Mudança na forma do sustento: do conforto à bênção

O que ocorre em tempos de guerra não é “corte do sustento”, mas “mudança de sua forma”. Às vezes, nosso sustento em tempos de paz é uma nota que circula no mercado; outras vezes, em tempos de batalha, é uma bênção que se liga a um pedaço de pão e sacia uma multidão. O milagre da barakah (bênção) é aquela fórmula invisível que desmonta os cálculos matemáticos da economia de guerra e torna possível a resistência.

Em nossas tradições, está registrado que, às vezes, Deus substitui os sustentos materiais abundantes por sustentos espirituais e ocultos por meio das dificuldades. A paciência que se instala no coração de um combatente ou de uma família perseverante é, em si, o mais elevado dos sustentos. Essa mudança de forma visa, na verdade, o aperfeiçoamento do espírito humano, para que ele compreenda que o pão é apenas um pretexto e que o verdadeiro “Benfeitor” está em outro lugar, cuja mesa está sempre estendida, mesmo nas fomes.

A experiência histórica xiita no Shi’b Abi Talib é a mais elevada manifestação dessa transformação. Naqueles três anos de cerco e guerra econômica desigual, o sustento não foi cortado, mas transformou-se do desperdício habitual em uma forma de frugalidade geradora de dignidade. Deus mostrou que é possível criar as maiores epopeias com o mínimo, desde que os olhos se voltem, em vez da mão das criaturas, para a graça do Criador.

O sustento da resistência: fruto da perseverança diante da ameaça

Na linguagem corânica, a perseverança no caminho da verdade (istiqamat) é, em si, uma das chaves para a abertura do sustento. O versículo nobre «E se eles se mantivessem firmes no caminho reto, Nós os agraciariamos com água abundante» expressa claramente que, se perseverardes no caminho correto, faremos chover sobre vós o sustento abundante. Portanto, se a guerra estiver no caminho da verdade, ela não apenas não diminui o sustento, como abre as portas de uma misericórdia especial.

É um erro estratégico pensar que, recuando diante do inimigo, o pão em nossas mesas aumentará. A história mostrou que os povos conciliadores perderam tanto sua dignidade quanto seu pão sob as botas do colonialismo. O sustento verdadeiro floresce à sombra da independência e da coragem, mesmo que, a curto prazo, as pressões econômicas decorrentes de sanções e guerra tornem a vida mais difícil.

Assim, as guerras defensivas e sagradas trazem um “sustento lícito e puro” no qual estão contidos o zelo e a honra. O pão obtido à sombra da humilhação é, na verdade, um veneno que mata o espírito da sociedade. Na lógica do Islã, o sustento não é apenas uma mercadoria de consumo, mas tudo o que ajuda o ser humano no caminho da perfeição. E que sustento é maior do que a honra e a resistência contra o opressor?

Provisão divina e responsabilidade humana na crise

Apesar de todas as promessas divinas, não se deve esquecer que Deus faz as coisas acontecerem por meio de suas causas. A gestão correta dos recursos em tempos de guerra e a muvasat (solidariedade fraterna) fazem parte do caminho para que o sustento chegue aos necessitados. O Imam Sadiq (a.s.) disse que Deus colocou o sustento dos pobres nas propriedades dos ricos. Portanto, se em tempos de guerra uma mesa permanecer vazia, isso não se deve à negligência do Provedor, mas, em parte, à falha e à omissão dos servos abastados na distribuição justa.

Em tempos de dificuldade, o “sustento” se reproduz por meio da generosidade. Quando uma sociedade adota o espírito basiji e jihadista, os menores bens são compartilhados com os outros, e isso significa multiplicação do sustento. Deus, no coração da guerra, abre janelas de empatia que talvez nunca sejam vistas em tempos de paz. Esse vínculo de coração entre os membros da nação é, em si, o maior capital econômico e espiritual para atravessar os passos difíceis.

Conclusão

Em última análise, a resposta à pergunta principal é: a guerra tem o poder de mudar a “quantidade” e a “forma” aparente do sustento, mas não tem o poder de cortar sua “essência”. O Deus dos dias de paz é o mesmo Deus dos dias de guerra. Aquele que sustenta os pássaros no céu sem ninho jamais esquecerá Seus servos mujahid e pacientes no turbilhão dos acontecimentos. O fim de toda batalha sincera é o amanhecer renovado da bênção e da abertura.

Fontes e notas de rodapé

  1. Nahj al-Balagha, Carta 31 (Testamento ao Imam Hassan Mujtaba – a.s.): «Saiba, ó meu filho, que o sustento é de dois tipos...».
  2. Sagrado Alcorão, Surata Al-Baqarah, versículo 268: «Satanás vos promete pobreza e vos ordena a obscenidade, enquanto Allah vos promete perdão e graça de Sua parte».
  3. Al-Kafi, Sheikh Kulayni, vol. 5, p. 80, hadith 1 (Capítulo do Sustento).
  4. Tafsir-e Namuneh, Naser Makarem Shirazi, sob o versículo 96 da Surata Al-A’raf (análise do conceito de barakah na vida).
  5. Bihar al-Anwar, Allamah Majlisi, vol. 67, p. 210: «Allah, o Altíssimo, garantiu o sustento do crente».
  6. Tarikh al-Ya’qubi, Ibn Wadih al-Ya’qubi, vol. 2, p. 31 (descrição dos eventos do cerco em Shi’b Abi Talib).
  7. Sagrado Alcorão, Surata Al-Jinn, versículo 16.
  8. Ghurar al-Hikam wa Durar al-Kalim, Amedi, hadith 9863: «A morte, sim; mas a vileza, jamais».
  9. Mizan al-Hikmah, Mohammadi Reyshahri, vol. 4, verbete “Rezq” (tradição do Imam Ali).
  10. Wasail al-Shia, Sheikh Horr Ameli, vol. 9, p. 10, hadith 11401 (Capítulo da obrigatoriedade do Zakat).
  11. Man La Yahduruhu al-Faqih, Sheikh Saduq, vol. 2, p. 58 (tradição sobre muvasat e bênção da riqueza).
  12. Sagrado Alcorão, Surata At-Talaq, versículo 3: «E Ele o sustentará de onde não imagina. E quem confia em Allah, Ele lhe basta».

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