ABNA Brasil: A confiança é a pedra angular das interações humanas e um fator essencial para a estabilidade das sociedades. Na ausência de confiança, as relações individuais e sociais se fragilizam, a cooperação é prejudicada e as bases morais da sociedade caminham para a dissolução. Uma das fontes mais importantes para a criação e preservação da confiança é a adesão a princípios éticos e espirituais, manifestos nas religiões divinas. A religião, ao estabelecer padrões de conduta e criar responsabilidade interior, obriga os indivíduos a respeitarem os direitos alheios, a honestidade e a fidelidade aos compromissos. Em contrapartida, a ausência de crenças religiosas ou a negligência de seus ensinamentos pode levar ao rompimento desses referenciais e, consequentemente, à quebra de pactos e à irresponsabilidade.
O Amir al-Mu’minin Ali (a.s.), líder da justiça e da sabedoria, com sua perspicácia singular, chama a atenção para esse ponto vital em um dito precioso e profundo:
“لا تَثِقَنَّ بِعَهدِ مَن لا دِینَ لَهُ” (1)
(Não confies no pacto daquele que não tem religião.)
Essa nobre afirmação vai além de um simples conselho moral, constituindo um princípio estratégico para a vida individual e social.
A Importância e o Estatuto do “Pacto” nos Ensinamentos Islâmicos e Corânicos
O conceito de “pacto” e “aliança” está entre os termos mais centrais da cultura islâmica e corânica, sendo reiteradamente enfatizado quanto à sua importância. A fidelidade ao pacto não é apenas um valor ético, mas um sinal de piedade e de fé autêntica. O Alcorão apresenta o cumprimento dos compromissos como uma das qualidades eminentes dos crentes e condena severamente a quebra de pactos.
“Ó vós que credes! Cumpri os contratos...” (1)
Esse versículo ordena, de forma geral e absoluta, que os crentes cumpram todos os contratos e pactos — sejam eles com Deus, com o Profeta, com as pessoas ou até consigo mesmos. Essa ênfase demonstra que os pactos, de qualquer natureza que sejam, possuem caráter sagrado e especial importância.
“...E cumpri o pacto, pois o pacto será questionado.” (2)
Esse versículo afirma de maneira categórica que todo pacto será objeto de prestação de contas no Dia do Juízo. Tal responsabilidade não se limita à consciência individual, mas se estende ao tribunal da justiça divina. O indivíduo religioso, por crer na ressurreição e na prestação de contas, possui uma motivação mais forte para cumprir seus compromissos.
“Como poderiam os idólatras ter um pacto diante de Deus e de Seu Mensageiro, exceto aqueles com quem pactuastes junto à Mesquita Sagrada? Enquanto forem corretos convosco, sede corretos com eles. Deus ama os piedosos. Mas como, se, ao prevalecerem sobre vós, não respeitariam convosco nem parentesco nem compromisso? Satisfazem-vos com suas palavras, enquanto seus corações recusam, e a maioria deles é perversa.” (3)
Esses versículos oferecem uma análise profunda, psicológica e sociológica, dos quebradores de pactos. O Alcorão questiona como se pode confiar naqueles que, ao obterem poder, não respeitam laços de parentesco nem compromissos. Eles evidenciam que a ausência de fundamentos éticos e religiosos está na raiz da quebra de pactos: o indivíduo sem religião pode simular fidelidade quando está em posição de fraqueza, mas, ao alcançar poder, rompe facilmente seus compromissos. A expressão “não respeitam nem direito nem obrigação” indica que a ausência de religião priva o indivíduo de qualquer limite moral.
Análise das Dimensões da Palavra do Amir al-Mu’minin Ali (a.s.):
“Não confies no pacto daquele que não tem religião.”
Esse dito não é apenas um conselho ético, mas também um alerta psicológico e uma estratégia prática para a gestão das relações sociais, passível de análise sob diversos ângulos:
A religião como garantia da ética interior
A religiosidade implica a crença em uma autoridade superior e a responsabilidade diante dela. O indivíduo religioso, mesmo em segredo e na ausência de fiscalização externa, sente-se obrigado a respeitar princípios éticos e a cumprir seus compromissos, pois acredita que seus atos são registrados e serão julgados. Essa crença cria um poderoso mecanismo de autocontrole que impede a quebra de pactos. Já aquele que não possui religião pode ser motivado apenas por fatores externos — como o medo de punições legais ou a perda de interesses materiais. Uma vez eliminados esses fatores, não resta motivo para a fidelidade ao compromisso.
O significado de “não tem religião”
Essa expressão não se refere exclusivamente ao ateísmo absoluto, entendido como ausência total de crença em um Criador ou no transcendental. Ela pode incluir também aqueles que aparentam religiosidade, mas que, na prática, não seguem os ensinamentos de sua fé e utilizam a religião apenas como instrumento para interesses mundanos. O critério essencial é a existência — ou não — de piedade e de compromisso prático com valores éticos derivados da religião.
A abrangência da palavra do Imam (a.s.)
Esse ensinamento aplica-se não apenas às relações interpessoais, mas também a contextos mais amplos, como as relações internacionais e interações políticas. Tratados e acordos entre Estados igualmente necessitam de fundamentos éticos e humanos. Um país que não respeita princípios morais ou espirituais pode facilmente priorizar seus interesses de curto prazo em detrimento de compromissos internacionais.
Dimensão protetiva e preventiva
O dito do Amir al-Mu’minin Ali (a.s.) oferece uma orientação sábia para a autoproteção contra os danos causados pela confiança indevida. Confiar em alguém sem religião e piedade pode resultar em perdas materiais, espirituais e psicológicas irreparáveis. O Imam (a.s.) ensina os crentes a considerarem a profundidade das crenças do outro ao escolherem parceiros, colaboradores, amigos ou mesmo em transações comerciais.
“Eles (Estados Unidos e países europeus), mesmo quando negociam, o fazem misturando engano e trapaça; aqueles cavalheiros sentados à mesa de negociações são os mesmos terroristas do aeroporto de Bagdá; são os mesmos, não há diferença — apenas trocam de roupa. É uma mão de ferro coberta por uma luva de veludo; a essência permanece a mesma. Não são pessoas dignas de confiança.” (4)
Ética instrumental versus ética intrínseca
O indivíduo sem religião pode utilizar a ética como um instrumento para alcançar seus interesses. Enquanto a fidelidade ao pacto lhe for vantajosa, ele a manterá; mas, quando seus interesses mudarem, poderá facilmente romper o acordo. Em contraste, a ética do indivíduo religioso é intrínseca, enraizada em suas crenças, e independe de ganhos ou perdas.
“Se hoje abrirmos caminho para negociações com os americanos e para suas tentações em diferentes áreas, não apenas abriremos espaço para sua infiltração manifesta e oculta, como também o progresso almejado pelo país jamais será alcançado, resultando em um atraso inevitável.” (5)
Diferença entre “sem religião” e “não muçulmano”
É importante ressaltar que esse dito não significa a proibição de interação ou a desconfiança absoluta em relação aos não muçulmanos. No Islã, a interação com seguidores de outras religiões — e até com não crentes — é permitida, desde que respeitem princípios éticos. A palavra do Imam (a.s.) dirige-se àqueles que carecem de qualquer base ética, seja religiosa ou humana, para a fidelidade aos compromissos. Pode haver um não muçulmano profundamente comprometido com valores éticos humanos e com o cumprimento de pactos. O critério fundamental é a adesão aos princípios morais, sendo a religião o mais forte garantidor desses princípios.
Assim, o nobre dito “Não confies no pacto daquele que não tem religião”, do Amir al-Mu’minin Ali (a.s.), constitui não apenas um alerta perspicaz, mas uma regra central da análise do comportamento social. Com sua profundidade característica, esse ensinamento identifica a raiz da fidelidade aos pactos na piedade e no compromisso prático com os ensinamentos religiosos. O indivíduo religioso, por crer em Deus, no Juízo Final e na responsabilidade interior, mantém seus compromissos mesmo na ausência de supervisão externa. Em contrapartida, aquele que carece desse respaldo espiritual pode, quando seus interesses assim exigirem, romper facilmente seus pactos.
Esse dito ensina que, em nossas relações — tanto no plano individual quanto no coletivo — devemos atentar para a profundidade das crenças e dos compromissos éticos do outro. Isso não significa isolamento ou rejeição da interação, mas sim prudência, discernimento e escolhas conscientes em contextos nos quais a confiança desempenha papel vital. A aplicação desse conselho sábio não apenas previne danos materiais e espirituais, como também contribui significativamente para a construção de uma sociedade mais estável, baseada na honestidade e na confiança — uma sociedade na qual todo pacto seja sustentado por fé e ética.
Notas
- Ghurar al-Hikam, nº 10163
- Alcorão, Surata Al-Ma’idah, versículo 1
- Alcorão, Surata At-Tawbah, versículos 7 e 8
- Pronunciamentos do Líder Supremo na oração de sexta-feira de Teerã (17/01/2020)
- Pronunciamentos do Líder da Revolução Islâmica aos comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica (18/09/2016)
Your Comment